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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Uva/Vinho

Concorrência desigual

Vinhos importados com impostos menores atrapalham muito o desenvolvimento do setor vitivinícola. Mas a previsão é de aumento do consumo do produto verde-amarelo em 2010

Grasiela Duarte

O consumo de vinho no Brasil ainda tira o sono dos vitivinicultores. Mesmo com a Embrapa Uva e Vinho apontando que a ingestão do produto cresceu de 1,76 litros per capita em 2008 para 1,83 litros per capita em 2009, o cenário ainda é delicado. O motivo são os vinhos importados, que continuam brigando de maneira desigual com a bebida brasileira, já que têm impostos menores, diminuindo seu custo no varejo. O diretor-executivo do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin), Carlos Paviani, avalia que o processo realmente é lento. Mas em 2010 ele acredita que os consumidores estão sendo estimulados pelo bom cenário macro-econômico e pelo inverno mais rigoroso, que se prolongou. Por isso, a projeção era, em agosto/2010, de um incremento de 12% na comercialização de vinhos nacionais no ano em comparação a 2009. “Os chilenos tiveram redução de exportação para a União Europeia. É natural que queiram vender mesmo que a preços menores para o Brasil”, justifica.

Segundo a Embrapa, ocorreu aumento de 2,79% na quantidade de vinho importada em 2009, e um crescimento de 6,46% no valor das importações. O preço médio dos vinhos importados manteve trajetória crescente, atingindo US$ 3,15 ao litro. Apesar de não ter números fechados em agosto, Paviani destaca que houve um aumento das importações desde o anúncio do selo fiscal do vinho, no primeiro semestre, que será obrigatório para todas as bebidas nacionais e estrangeiras a partir de novembro. “As importadoras resolveram antecipar as compras e isso criou uma bolha”, explica.

O contra-ataque brasileiro no mercado internacional ocorre por meio da marca Wines from Brazil. Segundo a coordenadora do projeto, Andreia Gentilini Milan, oito países foram definidos como prioritários para receber as ações que visam a divulgação dos produtos brasileiros. Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha são os principais países da lista que tem programação fixa anual. “Esse mercado está em plena transformação. Hoje os compradores e formadores de opinião já conhecem mais o vinho, mas isso requer tempo e investimento”, avalia. A estratégia foi incrementada em 2010 com a inclusão de ações diretas com os consumidores. Em parceria com churrascarias nos EUA, o produto é oferecido para degustação. Ela destaca que o projeto conta com 20 empresas exportadoras e já tem 40 compradores no exterior. “Antes de 2002 não se exportava praticamente nada e hoje 2% da produção é embarcada”.

A produção de uvas no Brasil na safra 2009/2010 registrou queda de 4,08%, interrompendo crescimento registrado desde 2006. Conforme avaliação da Embrapa Uva e Vinho, os fatores climáticos foram decisivos à retração. A maior redução de produção de uvas ocorreu em Minas Gerais (-14,13%), seguido por São Paulo (-7,79%) e pela Bahia (-7,15%). O Rio Grande do Sul, principal produtor de uvas e vinhos, apresentou recuo de 4,98% na produção da fruta. Apenas Santa Catarina e Paraná aumentaram a produção em 16% e 0,57%, respectivamente. Na safra 2009/2010, praticamente metade da uva produzida no país foi destinada ao processamento para elaboração de vinhos, suco de uva e derivados, sendo o restante destinado ao mercado de uva in natura.

Suco de ouro — No Rio Grande do Sul, o único produto com aumento na produção foi o suco de uva com 3,39%, sendo que o suco de uva simples (natural) cresceu 35,67% e o concentrado manteve os mesmos patamares de 2008. Infelizmente, informa a pesquisadora Loiva de Mello, da Embrapa Uva e Vinho, não há dados estatísticos sobre a produção em todo o país. Loiva avalia que o suco está se destacando também internacionalmente e a tendência é que nos próximos três anos aumente a demanda pelo produto. “O consumidor está cada vez mais buscando produtos que tenham benefícios para a saúde e o suco é o top deste segmento”, ressalta.

Conforme o Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin) o consumo cresce na faixa de 40% ao ano. De olho nesta oportunidade de mercado o Ibravin criou com o Instituto Brasileiro de Frutas (Ibraf), em parceria com a Agência Brasileira de Promoção das Exportações e Investimentos (Apex- Brasil), o programa “100% Suco de Uva”, que nos mesmos moldes do Wines from Brazil irá trabalhar a imagem e os benefícios do produto no Brasil e no exterior. Atualmente 13 empresas brasileiras que produzem o suco pronto para beber integram o projeto.

Uva tipo exportação — A crise mundial refletiu fortemente na produção de uvas de mesa da safra 2009/2010, sendo que alguns produtores abandonaram parte dos vinhedos. Conforme informações da Embrapa Uva e Vinho, foram exportadas, em 2009, 54.560 toneladas, 33,65% a menos que o ano anterior. No final de 2008, as exportações foram reduzidas em decorrência da crise mundial, situação que provocou desestímulo e abandono de alguns parreirais da Região Nordeste. Loiva avalia que esse impacto acontece porque o custo de produção elevado não torna as uvas atraentes para o mercado interno. Ela destaca que a Embrapa já pesquisa três cultivares de uvas sem semente para auxiliar os produtos a serem mais competitivos. “Se houver uma instabilidade no mercado externo, o produtor pode ofertar no interno sem ter perdas.”