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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Açucar e Etanol

Instável e Valorizado

Instável e valorizado

O açúcar foi interessante em 2010 em razão da oferta escassa no mercado internacional, principalmente por causa da quebra da safra dos indianos e pela forte demanda por etanol no Brasil, EUA, Europa e Japão
Fábio Rübenich e equipe de analistas de Safras & Mercado

Uma palavra resume o comportamento do mercado mundial de açúcar em 2009/10: volátil. A commodity confirmou uma tendência de valorização logo no início de 2010, amparada pela oferta escassa, situação gerada principalmente pelos sérios problemas da Índia, e também pela forte demanda por etanol, não só no Brasil, como também nos Estados Unidos, Europa e Japão. Como o açúcar compete com o etanol no mix de produção do Brasil, mais cana-deaçúcar destinada à produção de etanol reduz, consequentemente, a disponibilidade de matéria-prima para o beneficiamento do açúcar, diminuindo assim sua produção. O analista de Safras & Mercado Miguel Biegai Jr., observa que parte dessas estimativas se concretizaram, principalmente quanto à vigorosa demanda interna para o etanol. “Apesar disso, os preços de açúcar no mercado internacional desabaram a partir de fevereiro”, lembra Biegai. A Índia, que fica atrás apenas do Brasil na produção de açúcar, enfrentou nos últimos anos severa estiagem nas mais importantes regiões produtoras de cana-de-açúcar. Como resultado, a produção de açúcar caiu fortemente. Praticamente da noite para o dia, a Índia, outrora principal concorrente do Brasil na área, deixou de ser um importante player no mercado mundial exportador de açúcar, tornando-se uma importadora.

importadora. Criada pela reativação do consumo a partir da recuperação da economia global, havia no mercado mundial a expectativa de que os preços do petróleo retornariam em 2010 para um patamar próximo dos US$ 100 por barril. Isso elevaria, por conseguinte, os preços da gasolina e geraria competitividade extra para o etanol, que além de ser ambientalmente mais correto, também seria ainda mais barato que a gasolina. Os preços do açúcar seriam indiretamente beneficiados, uma vez que aumentaria o interesse pelo etanol nas unidades produtoras, em detrimento à commodity. “Mas, ao invés disso, neste primeiro semestre, a tendência primária foi de queda para os preços futuros do açúcar”, diz Biegai.

Aos poucos, os agentes do mercado foram percebendo que o balanço entre oferta e demanda de açúcar em termos mundiais seria muito mais equilibrado do que se imaginava, inclusive com previsão de considerável aumento da produção em diversos países. Além disso, com a crise fiscal na Europa, em abril, houve um processo de valorização do dólar, motivado pela busca dos investidores por segurança financeira nos títulos da dívida americana (treasuries). A valorização do dólar diminuiu os preços das commodities, arrastando também o açúcar.

O mercado futuro do açúcar bruto na Bolsa de Nova York, que iniciou o ano entre os patamares de 26 a 27 centavos de dólar por libra-peso, chegou a ultrapassar 30 centavos em fevereiro, exatamente na primeira sessão do mês, mas iniciou uma curva descendente já no dia seguinte. Pressionados também pela fuga de capitais dos mercados de commodities em abril, os contratos futuros do açúcar atingiram o “fundo do poço”, a 13,50 cents/libra-peso, tomando por base o contrato com entrega em outubro.

Felizmente para os agentes do setor, os operadores do mercado futuro (hedgers e especuladores) perceberam que este era realmente o limite de baixa para o açúcar. Um preço de 13 a 13,50 centavos de dólar por libra não cobre sequer os custos de produção em muitos casos. “Ficou claro também naquele momento que não existia uma situação de oferta e demanda tão folgada assim que justificasse a manutenção desses níveis”, explica o analista de Safras & Mercado. Os preços passaram então por um processo de ajuste em relação às expectativas do mercado, uma espécie de “revalorização”.

Baseado nas estimativas de oferta e demanda mundial, os futuros do açúcar logo deixaram o fundo do poço, se aproximando no início do segundo semestre de 2010 do suporte psicológico situado na casa dos 20 centavos de dólar por libra. No entanto, o mercado avalia que somente um fator fundamental muito importante pode puxar e manter o açúcar novamente para patamares acima de 19 centavos. “Atualmente, acredita-se que não há força altista fundamental para tanto, a não ser, claro, em caso de outra estiagem na Índia ou no Brasil”, revela o especialista na área.

Maiores preços do real — No mercado interno, os preços do açúcar iniciaram o ano com preços ao redor de R$ 70 por saca de 50 quilos, na região de Ribeirão Preto/SP, acompanhando a escalada das cotações internacionais. Com o mercado futuro extrapolando e chegando aos níveis mais valorizados em 29 anos, os preços no Brasil também logo chegaram a patamares históricos. A saca do açúcar cristal chegou a R$ 72,20, o maior valor já registrado em reais.

Mas, concomitantemente com a derrocada das cotações no mercado internacional, os preços no Brasil entraram em queda vertiginosa. Dos patamares de R$ 72 por saca vigentes até o início de março, os preços internos desabaram para R$ 40 por saca, na segunda quinzena de maio. A entrada da safra brasileira e a consequente maior oferta que estava sendo estimada para o mercado interno justificava tamanha guinada. No entanto, na medida em que os preços internacionais estabilizaram-se, a partir da segunda quinzena de maio, os valores no Brasil também pararam de cair, encontrando firme suporte na casa dos R$ 40 por saca.

E, enquanto os preços do açúcar começam a subir novamente no mercado externo, aqui no Brasil também se nota uma gradual melhora das cotações do mercado físico, que trabalhava no final de julho com preços na casa dos R$ 42 a saca do açúcar cristal, em Ribeirão Preto. Destaca-se que o movimento altista ocorre exatamente no pico da safra do Centro- Sul. Segundo a União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica), a colheita e a moagem da cana em julho de 2010 recém tinha ultrapassado na região a metade das 590 milhões de toneladas projetadas para 2010.

Se o mercado internacional continuar subindo e buscar efetivamente patamares entre 19 e 20 centavos de dólar por libra, os preços no Brasil devem mesmo engatar a primeira marcha e voltar a subir, mesmo com o grande volume de oferta existente e que ainda está por vir. Segundo levantamento da Companhia Nacional do Abastecimento (Conab), o Brasil está produzindo 38,6 milhões de toneladas de açúcar na safra 2010/11, um crescimento de quase 17% na comparação com as 33 milhões de toneladas da temporada precedente.

Consumo recorde — Para o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), a produção mundial de açúcar bruto em 2010/11 deverá atingir 164 milhões de toneladas, elevação de 12 milhões na comparação com o ciclo anterior, quando a safra atingiu 152 milhões de toneladas. Conforme o USDA, o consumo de açúcar deverá atingir o volume recorde de 158 milhões de toneladas em 2010/ 11, aumentando 4 milhões de toneladas ante o ano anterior. As exportações mundiais de açúcar também alcançarão níveis nunca vistos em 2010/11, com estimativa de embarques de 54 milhões de toneladas, subindo 3 milhões de toneladas no comparativo anual. Os estoques mundiais não acompanharão o ritmo de crescimento da demanda em 2010/11, crescendo segundo o USDA apenas 500 mil toneladas, totalizando 27 milhões de toneladas.

De acordo com análise do USDA, os crescimentos mais expressivos das produções açucareiras da próxima temporada estão previstos para Brasil, Índia e China. O Brasil, maior produtor e exportador, deve obter uma safra de 41 milhões toneladas em 2010/11, 4 milhões de toneladas a mais em relação ao ciclo anterior. O país representa 25% da produção mundial de açúcar, mas a Ásia é o bloco mais representativo, com 38% do total. Nesse continente, a produção de açúcar bruto aumentará 9 milhões de toneladas em 2011, atingindo 62 milhões de toneladas. A Índia deverá recuperar seu nível de produção totalmente no próximo ano, segundo o USDA, com uma estimativa de 25 milhões de toneladas, contra as 20 milhões de toneladas registradas em 2009/10. Na China, o crescimento também será expressivo: 4 milhões de toneladas a mais, somando um total de 14 milhões de toneladas. Na Tailândia, a elevação será bem mais modesta, apenas 300 mil toneladas, com uma projeção total de sete milhões de toneladas.

Etanol se recupera — Depois das expressivas altas do final de 2009 e início de 2010, que levaram o etanol a perder competitividade ante a gasolina inclusive em São Paulo, o biocombustível foi recuperando gradativamente sua vantagem histórica. O forte consumo no Brasil, diante do crescimento do segmento dos veículos flexíveis, e a problemática safra de cana de 2009, diminuíram a oferta e elevaram os preços do etanol no país para níveis preocupantes, forçando o consumidor a optar pela gasolina. Mas, a partir do início antecipado da safra 2010/11 e do consequente aumento da disponibilidade, aos poucos o etanol foi recuperando sua histórica vantagem sobre o combustível fóssil. No início do segundo semestre, praticamente em metade dos estados brasileiros o etanol já garantia boa vantagem financeira sobre os preços da gasolina, principalmente nos maiores centros produtores.

Segundo a Unica, o crescimento observado na moagem da cana-deaçúcar em 2010 vem sendo acompanhado por um avanço na demanda mundial por açúcar e também no consumo doméstico por etanol. As condições climáticas, ao contrário das chuvas intensas da safra passada, estão favorecendo o ritmo acelerado da moagem, mas também podem antecipar o final da safra e afetar a produtividade agrícola do canavial no próximo ano. Até 30 de junho/2010, conforme balanço da Unica, a produção de etanol já havia crescido 19,67%, atingindo 9,062 bilhões de litros, contra 7,573 bilhões de litros no mesmo período de 2009. A produção de anidro, por si só, cresceu expressivos 48%, para 2,26 bilhões de litros, enquanto a de hidratado aumentou 12,5%, chegando a 6,83 bilhões de litros.