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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Ovinos/Caprinos

Procura-se carne ovina

O aumento da demanda por carne de ovinos leva setor a incentivar criação no Brasil. Principal fornecedor, o Uruguai, abandonou o mercado brasileiro
Thaíse Teixeira

Aovinocultura brasileira vive um momento raro. Depois de a cadeia produtiva passar anos incentivando o consumo da carne ovina no país, agora, falta produto para abastecer a mesa dos apreciadores dos cortes. A situação ocorreu após o Uruguai, tradicional exportador do produto para o Brasil, diminuir em 40% o volume das remessas no primeiro semestre de 2010. O vácuo foi provocado pelos atrativos de preço em mercados como o canadense, russo, europeu e norte-americano, que deram novo direcionamento para essa carne.

Assim, com um rebanho estimado em 16,5 milhões de cabeças, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), não seria possível querer aumentar em 100 gramas o consumo de carne ovina por pessoa ao ano no país, “Cem gramas é um bife. Então, para se trabalhar no Brasil com um consumo entre 2 e 2,5 quilos de carne ovina por habitante ao ano, seria necessário um rebanho de 50 milhões de cabeças, ou abater mais 800 mil ou 900 mil cordeiros por ano”, projeta o presidente da Associação de Criadores de Ovinos do Brasil (Arco), Paulo Afonso Schwab. Atualmente, o consumo é de 500 gramas/habitante/ ano.

Por este motivo, segundo o presidente da Associação Paulista de Criadores de Ovinos (Aspaco), Arnaldo dos Santos Vieira Filho, o marketing que se destinava a mostrar ao consumidor os benefícios da carne ovina teve o foco redirecionado. Mas, desta vez, ao criador. “Temos que incentivá-lo a produzir, argumentando que a atividade tem vantagens como ciclo curto, rentabilidade e necessita de pouco espaço físico para ser desenvolvida”, argumenta. O trabalho envolve esforço conjunto e parcerias de diversas instituições de extensão rural, Sebrae, municípios e associações de todo o Brasil. “Isso não vai mudar do dia para a noite, mas já está havendo um despertar para a atividade”, destaca.

Uma das formas defendidas por ele para multiplicar a oferta de carne seria apostar na criação intensiva dos animais, prática bastante adotada no Sudeste e que, aos poucos, vem sendo descoberta por criadores que dispõem de pouca área para a atividade. Além disso, há a vantagem de se acabar com a sazonalidade da produção, garantindo carne de qualidade o ano todo, já que os animais chegam a ser abatidos seis meses antes dos criados a pasto. E também de ser uma forma de criação viável ao criador que tem pouca área de terra. “Precisaríamos aumentar nosso rebanho de 10% a 15% por ano”, avalia Schwab. No entanto, de acordo com ele, este número não tem passado da média dos 5% ao ano.

O confinamento de ovinos vem se consolidando principalmente em estados em que a oferta de grãos é farta, como São Paulo e Paraná. Mas para desenvolvê-lo em outros estados, Vieira Filho diz que é necessário respeitar as características de criação de cada região. Isso quer dizer que é preciso cautela para confinar ovinos num estado onde o custo da saca de milho é elevado, como no Nordeste. Ou na Região Sul, onde historicamente os ovinos são criados a pasto. “Já em São Paulo, onde as áreas são estreitas, esta opção é perfeitamente possível. Da mesma forma, em Goiás e Mato Grosso, grande plantadores de soja e milho”, explica. Nestas regiões, a preferência é por exemplares das raças Santa Inês e Dorper, animais de pelo curto, mais adaptados ao calor, que apresentam bom ganho de peso e rendimento de carcaça.

O método de trabalho também ficou interessante depois de, nos anos recentes, a indústria frigorífica ter investido em estrutura para o abate de ovinos. “Hoje, temos investimento nesta área. Falta é a gente acabar com ociosidade das indústrias”, analisa o dirigente da Aspaco. Com a ajuda do Uruguai, a valorização do quilo vivo dos ovinos está oscilando em torno de R$ 4,00, número que no Paraná e em São Paulo sobe para R$ 4,30 e R$ 4,50. “Há frigoríficos que chegam a pagar R$ 8,00 pela carcaça (com rendimento de 44%, saindo por R$ 3,70 o quilo vivo”, exemplifica Schwab.

Para alcançar o crescimento desejado, a genética é uma das principais aliadas do criador de ovinos no Brasil. Em questão de dez anos, multiplicaram-se exponencialmente o número de centrais de inseminação que disponibilizam material genético de ovinos ao criador que está disposto a investir na qualidade da carne. “Hoje, o Brasil tem uma das melhores genéticas do mundo, de todas as raças”, comenta Schwab. Mas, como o rebanho brasileiro demora a crescer, o dirigente acredita que tamanho desenvolvimento pode fazer “crescer o olho” de adversários internacionais como o Paraguai, país que, segundo ele, pode significar perigo para o Brasil, caso tente ocupar a fatia de mercado deixada pelo Uruguai.

Caprinos: filão de mercado — Da mesma maneira que os criadores de ovinos estão atentos à crescente demanda do mercado interno pela carne, os caprinocultores veem na produção de leite a forma de atender um nicho de mercado que conta com o respaldo do Governo Federal. Com o apoio de políticas públicas de aquisição de alimentos e de utilização do leite de cabra na merenda escolar, a atividade vem ganhando espaço principalmente na região Nordeste, em estados como o Ceará, Pernambuco e Rio Grande do Norte. “Há demanda de 5 mil litros/dia no Ceará, e a produção atual só consegue suprir 1,5 mil litros/dia”, exemplifica o chefe geral da Embrapa Caprinos e Ovinos, Vandro Vasconcelos Holanda Júnior. A atividade tem se destacado também em São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro.

O mercado brasileiro divide-se na venda de leite fluído, em pó e na comercialização de queijos, doces e iogurtes. O preço médio do litro de leite in natura, ao produtor, está por volta de R$ 0,70, valor que chega ao varejo com preço de R$ 1,30 e, ao consumidor, de R$ 1,80. A produção diária da bebida no Brasil está em aproximadamente 22 mil litros/dia. Segundo Holanda Jr., raças preferidas são a Saanen, Anglo-Nubiana e os resultados de cruzamento com a Parda Alpina. A produção média das fêmeas diariamente fica entre 1,5 litro e 3 litros, constituindo-se excelente opção de renda tanto para agricultores familiares quanto médios produtores.