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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Milho

Safrinha cada vez mais expressiva

A segunda safra de milho 2010 já supera 20 milhões de toneladas, com produtividades que ultrapassam as 120 sacas por hectare em regiões do Paraná. Já na safra de verão 2010/2011, tendência de nova retração de área, em quase 8%

Na temporada 2008/09, a safra de milho totalizou 29,356 milhões de toneladas. Já na seguinte, diminuiu para 25,311 milhões de toneladas. E a área diminuiu de 6,180 milhões para 4,767 milhões de hectares. Entretanto, a produtividade aumentou de 4.750 quilos/hectare para 5.309 quilos. Qual a explicação para isso? De acordo com o analista de Safras & Mercado Paulo Molinari, são as condições climáticas, que foram completamente favoráveis em um ano de El Niño. Já a safrinha teve sua produção e produtividade aumentadas de 2008/09 para 2009/ 10, contrariando a área que diminuiu. Molinari ressalta que o clima seguiu ajudando neste momento, principalmente no Paraná, em São Paulo e no Mato Grosso do Sul. Mas há uma ressalva aqui. Houve um aumento de área no Mato Grosso e Goiás em cerca de 29%. Essa seria a questão chave para desvendar essa prerrogativa. Com a oferta total em 2010 de 60,888 milhões de toneladas contra 58,708 milhões de 2009, o consumo, por sua vez, também aumentou. Molinari ressalta que isso se explica pela elevação dos alojamentos da avicultura e a produção maior na suinocultura, o que faz com que o setor demande mais insumos para alimentação dos animais como o milho. O que se pode observar, também, é que desde o início de 2010, os preços do milho vêm aumentando. Em fevereiro, o preço da saca de 60 quilos encontrava-se em R$ 15,66. Já em junho, a média era de R$ 16,76. Isso pode ser explicado pela virada de ano, quando ainda existiam estoques de milho da safra velha, as quais pressionavam a condição de recebimento da safra nova de verão. As vendas foram aceleradas para liberar armazéns. Agora, o mercado interno cede, mas os leilões de Prêmio para Escoamento de Produto (PEP) ajudam o mercado.

As alterações no perfil do mercado de milho surgem a partir deste fluxo de exportações, agora, aliado a um importante fator fundamental, ou seja, a forte quebra mundial na safra de trigo. Os preços do trigo voltaram a subir em todos os mercados, principalmente o europeu, levando

  1. o milho a avançar de US$ 210 para US$ 225/tonelada FOB na Europa. Esta mudança não está ligada à volatilidade do clima na safra norte-americana de milho, mas sim ao dado fundamental de quebra forte na safra de trigo em vários produtores mundiais. Esta concepção ajuda os preços de exportação, que levam as tradings aos leilões de PEP e que derivam para fluxo futuro de embarques mais atraentes para o mercado interno. Entretanto, os preços em 2010 ainda estão menores em relação a 2009. Em junho de 2009,

  2. o preço da saca atingia os R$ 19,67. O que ocorreu foi a baixa nos preços da Bolsa de Chicago, a valorização do real e a sobreoferta interna.

Os embarques de julho de 2010 dispõem de nomeações para quase 1 milhão de toneladas. Isso já representava o primeiro leilão de PEP e parte do segundo. Não era possível na época prever se o Serviço de Comércio Exterior (Secex) absorveria toda a programação de embarque em julho no número consolidado no mês, mas certamente haveria um dado saudável de embarque naquele mês. Agosto e setembro tendiam a repetir o quadro ou superá-lo. Até junho, o Brasil embarcou efetivamente 1,2 milhão de toneladas, ou seja, o número potencial do ano caminha para 6,3 milhões de toneladas.

Safrinha cresce — Em 2010, a safra de verão é menor em produção, mas o estoque de passagem supera 7 milhões de toneladas. Apesar dos péssimos preços internos, a safrinha será maior em 2010. Se tudo continuar nas atuais condições, podendo facilmente superar 20 milhões de toneladas. Novamente, o país caminha para uma produção de 52 milhões de toneladas, 7 milhões acima do seu consumo interno. O problema é que as condições de comercialização são totalmente diferentes das de 2009.

A safrinha 2010 estava sendo colhida em todas as regiões produtoras, e os resultados em produtividade continuavam muito acima de qualquer expectativa. Em particular, regiões como o Paraná, Mato Grosso do Sul e São Paulo, as quais registram condições de clima perfeitos na safrinha, com resultados em produtividade realmente muito acima de uma média histórica. No oeste do Paraná, por exemplo, as médias não estavam ficando inferiores a 120 sacas/hectare, ou mais de 6 mil quilos/hectare. Em outras localidades, mesmo que as médias não estivessem tão altas para uma safrinha, estavam acima do normal para este perfil de lavoura de inverno.

Notava-se em julho que a safrinha de São Paulo estava ainda com grande parte das lavouras a serem colhidas e haveria um auge de entrada de produto novo no início de agosto e/ou tão logo o clima voltasse a oferecer condições de colheita. Somente por esse motivo esta inversão de preços em São Paulo parecia não ser ainda definitiva, mas refletia que após o fechamento da colheita poderia haver espaço para os preços não se manterem tão baixos no estado. Este movimento é diferente do registrado em 2007 quando a Europa pagou sobrepreços ao mercado brasileiro. Os diferenciais podem ser resumidos no seguinte:

  • os estoques europeus de milho e trigo em 2007 eram inferiores aos estoques atuais;
  • a restrição à importação de milho geneticamente modificado era total, o que não ocorre agora, indicando que a Europa poderia até comprar milho dos EUA em uma situação emergencial;

  • Argentina ainda dispõe de oferta para exportação, situação inversa a 2007;

  • o Brasil detinha um estoque de governo de 1,2 milhão de toneladas e atualmente detém 5,5 milhões de toneladas;
  • o câmbio estava nos mesmos patamares atuais;
  • as necessidades da Europa se converteram em um prêmio de US$ 100/tonelada sobre o milho norteamericano devido à não-transgenia;
  • o quadro de oferta e demanda interno estava bem mais ajustado, apesar da curva de preços interna ter se mostrado muito semelhante à atual, ou seja, com péssimos preços na safrinha;

Mesmo que as condições de 2010 sejam diferentes em relação a 2007, o movimento de demanda externa representa uma modificação de ambiente para o mercado interno. Se havia dúvidas sobre a capacidade do Brasil vender até 10 milhões de toneladas em 2010, esta dúvida praticamente se converteu em potencial que vai sendo confirmado pelo perfil dos leilões e pelo quadro externo. A segurança do abastecimento interno está na posição dos estoques do Governo.

Já o Centro-Oeste mostrava, em julho, contenção do ritmo de colheita de forma a aguardar o escoamento da produção já armazenada e encontrar espaço para a entrada de mais milho da safrinha. No Mato Grosso, apesar de parecer, em julho, que a safrinha já tivesse o quadro de colheita mais próximo ao seu final, o que realmente se constatava era que o produtor ia contendo o ritmo de colheita de forma a aguardar espaço nos locais de armazenagem.

Safra de verão 2010/2011 — Em meio à colheita recorde da safra 2010 e dos preços mais baixos no mercado interno em quatro anos, o produtor brasileiro começa a decidir pelo plantio da safra de verão 2010/2011. Apesar dos ótimos níveis de produtividade na safra 2010, tanto no verão quanto no inverno, o sentimento registrado para o plantio da safra de verão é de tentativa de obter o mesmo resultado. Ou seja, uma safra de soja superprecoce associada a um plantio de safrinha elevado também em 2011. Essa é a definição do levantamento de intenção de plantio para a safra 2010/11, realizado por Safras & Mercado em julho. A tendência de nova retração de área plantada está configurada para o verão em 7,8%, com o baixo volume de 4,3 milhões de hectares apenas. Em mais uma safra, o clima será fundamental nos resultados de produção no milho e o abastecimento do próximo ano condicionado ao perfil do plantio da safrinha.

A procura por sementes de soja superprecoce é elevada em 2010, o que sugere que os produtores estarão tentando plantar novamente uma safra de verão mais cedo para viabilizar um bom plantio de safrinha em 2011. Esta tentativa em viabilizar novamente este modelo que ofereceu bons resultados em 2009/10 indica que a área de verão para o milho cederá em todos os estados em que há condições de plantio da safrinha. O milho segue com perfil de plantio mantido nas regiões de mais alta tecnologia e de rotação de culturas inevitável em localidades do Sul e Sudeste.

E o clima? — Inicialmente, não haveria motivos para projetar um patamar de produtividade mais baixo para a próxima safra no Centro-Sul, já que os níveis de tecnologia devem se manter ou até melhorar. A questão está realmente nas condições de clima à frente. Na safra passada, o fenômeno El Niño trouxe condições de chuvas muito benéficas às lavouras na América do Sul, com recuperação geral de produção após uma safra 2008/09 problemática. A questão é que o fenômeno La Niña está de volta com as temperaturas das águas do Pacífico abaixo do normal e sinalizando esta condição nos próximos 12 meses, pelo menos. O La Niña não necessariamente indica quebra de produção, mas sinais de que o clima, pelo menos, não terá a mesma condição perfeita da safra passada.

Por três meses seguidos os mapas de previsão de chuvas para a Região Sul, Uruguai, boa parte da Argentina e Paraguai apontam para situação de estiagem a seca ao longo de todo o segundo semestre até o início de 2011. A previsão climática é sempre passível de alterações e ajustes que inibam uma tendência de condição mais complicada para a safra de verão. Porém, esta é a previsão atual climática, ou seja, um La Niña que já está presente no clima mundial e que indica problemas potenciais para a produção da safra 2010/11 em algumas localidades.

Assim, a safra de verão fica inicialmente estimada em 22,6 milhões de toneladas contra 25,3 milhões de toneladas na safra de verão passada. A safrinha 2011 dependerá muito das variáveis de mercado e da atitude em 2011 do novo Governo eleito em relação aos gastos com subsídios na agricultura para a comercialização, em particular do milho. A expectativa inicial é de uma recuperação de área plantada no Paraná e São Paulo, pelo menos, com acomodação da área no Mato Grosso e Goiás na próxima safrinha. Condições de mercado no início de 2011 e sinalização de Governo nos leilões para o ano podem também atuar na formação da decisão de plantio na próxima safrinha, a qual sugere uma produção potencial de 20,9 milhões de toneladas.

A produção total brasileira para a próxima safra fica estimada em 49,8 milhões de toneladas para uma área plantada de 11,2 milhões de hectares. No Mato Grosso, os produtores vão segurando a colheita tendo em vista a falta de espaço nos armazéns. Este é um ponto importante. O Governo realizou até julho de 2010 leilões de PEP com 6,3 milhões de toneladas contratadas. O Brasil já dispõe de 1,2 milhão de toneladas embarcadas no primeiro semestre. Isso indica que o Brasil caminha para um potencial de embarque em 2010 em torno de 7,5 milhões de toneladas, sendo que boa parte dos leilões também se destinaram às regiões Norte e Nordeste. Mas, com o leilão de fechamento de julho em 2 milhões de toneladas, este potencial salta para 9,5 milhões.

Como as datas de confirmação das operações estavam sendo alongadas até fevereiro de 2011, o Brasil teria milho depositado nos armazéns que somente teriam destino aos portos no fechamento do ano. Essa situação poderia causar a falsa impressão de armazéns ainda lotados ao longo ano. Milho nos armazéns sim, mas comprometido com embarques futuros. É por esta combinação de quadro externo novo e maior agressividade do Governo nos leilões que o mercado interno sugere mudar de ambiente tão logo a colheita da safrinha aponte diminuição. No momento em que a maior parcela dos produtores destinar a sua safra para os PEPs e/ou encontrar espaço para uma estocagem sem compromisso de venda no curto prazo, o perfil dos preços internos tende a se alterar novamente.

Fator trigo — Um fato passou despercebido pelo mercado internacional que estava focado diretamente nas condições da safra norte-americana de milho e soja. É a seca na Rússia, a mais grave desde 1972 e com as temperaturas mais altas em 130 anos. As perdas de produção atingem 9 milhões de hectares. Em 2009, a Rússia produziu 97 milhões de grãos na safra de verão. Os números preliminares apontam para números de 80/82 milhões de toneladas, mas ainda plenamente indefinidas. Os russos pretendiam colher 85 milhões de toneladas de trigo em 2010, mas algumas empresas de consultoria começam a trabalhar com 56 milhões de toneladas. A situação poderia ser localizada se a seca não avançasse sobre outras regiões produtoras como Kazaquistão, Ucrânia e oeste da Europa, com a Alemanha reduzindo a sua projeção de produção de trigo para 2010, em números preliminares para retração de 11% na produção.

Mas há indicadores não precificados totalmente, como as perdas na Austrália, que deveriam levar o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) a revisar o seu número para baixo em agosto de 2010; e comentavase também em perdas no Canadá. Todas estas informações induzem o mercado a acreditar em ajustes nos quadros de oferta e demanda mundial, já que não houve tempo ainda para as estatísticas oficiais se nivelarem à situação. O quadro somente foi amenizado com números da China, de produção maior, de 105 milhões para 115 milhões de toneladas, em plena alta internacional, e a taxação do trigo na importação por parte da Índia.

O mercado de trigo dependerá das novas informações consolidadas sobre estes blocos de produção e ao fluxo externo de comércio. Se países como Turquia e Egito, grandes importadores, se dedicarem a comprar mais trigo norte-americano, os preços do trigo podem seguir em alta. Os preços na Bolsa de Chicago saltaram de US$ 4.55/bushel no final de junho para US$ 5.80 no mês seguinte.

No que isso interfere no milho e no mercado brasileiro? Inicialmente, deve-se relatar que parte das baixas de preços no milho nos últimos 12 meses (julho a julho) foi gerada por uma sobreoferta de trigo. Se essa correção for realizada no mercado de trigo, há espaço para o milho não ceder mais na proporção esperada, mesmo com uma ótima safra nos EUA. Por isso, os preços do milho na Bolsa de Chicago romperam uma resistência importante no contrato de dezembro/2010, dos US$ 4/bushel. Depois, o quadro envolve os mercados europeu e russo, que podem vir a elevar importações ao longo do ano comercial. Portanto, é importante definir que esse quadro de recuperação nos preços do milho na Bolsa de Chicago se deve, exclusivamente, ao quadro fundamental do trigo e não a uma situação preocupante em relação à safra dos EUA. Se houver, por qualquer fator, uma perda de condição de preço no trigo, haverá efeitos diretos sobre o milho.