A Granja do Ano – 34 anos da melhor prestação de informações e serviços ao profissional do campo.

Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Frutas

Este sabor está conquistando

O consumo de frutas no país aumentou, mas poderia ser bem maior. O setor precisa investir mais no marketing da qualidade, do sabor, da saúde e da segurança alimentar

Gilson R. da Rosa

Com uma produção média anualde 40 milhões de toneladas, o Brasil tem se consolidado cada vez mais como um grande produtor e exportador de frutas. Uma das apostas do setor em 2010 e 2011 é o aumento do consumo no mercado doméstico, que ainda apresenta muito espaço para crescer. A tarefa ganhou um incentivo extra depois que uma pesquisa divulgada em abril de 2010 pelo Ministério da Saúde constatou que os brasileiros estão comendo mais frutas. De acordo com o estudo houve um aumento do consumo de pelo menos cinco porções diárias de frutas e hortaliças, que subiu de 7,1% para 18,9% da população, de 2006 a 2009.

As frutas cítricas, a banana, a melancia, a manga e a uva de mesa se mantém entre as preferidas do consumidor brasileiro. Um bom exemplo deste crescimento pode ser evidenciado a partir do segmento da maçã, cuja safra em 2009 foi de 1,150 milhão de toneladas. “Apesar da qualidade não ter sido muito boa, devido a fatores climáticos, o consumo doméstico aumentou, passando de 3,84 quilos por habitante ao ano, em 2008, para 4,22 quilos por habitante ao ano, em 2009”, confirma o presidente da Associação Brasileira de Produtores de Maçã (ABPM), Pierre Nicolas Péres.

Este aumento do consumo, ainda que abaixo do esperado pelo setor, revela que o mercado interno se mantém aquecido, sobretudo com a desvalorização das moedas internacionais (dólar, libra e euro). Mas ao mesmo tempo, também expõe algumas fragilidades que precisam ser corrigidas pela cadeia produtiva que busca ampliar ainda mais sua participação tanto nas vendas domésticas quanto nas exportações.

Para o gerente técnico do Instituto Brasileiro de Frutas (Ibraf) e presidente da Câmara Setorial de Frutas do Estado de São Paulo, Maurício de Sá Ferraz, a ineficiência da cadeia produtiva e a falta de padrões de qualidade continuam afastando os consumidores das gôndolas dos supermercados. “Precisamos estimular o consumidor, através de ações de marketing, mostrando que nossas frutas são, acima de tudo, saborosas. E esta iniciativa deve vir acompanhada da adoção efetiva de padrões de qualidade”, explica.

Ferraz observa que os consumidores no Brasil e no exterior estão exigindo que os produtores demonstrem que estão produzindo de forma sustentável, respeitando o meio ambiente e os aspectos relacionados à segurança alimentar. “As instituições de pesquisa, como Embrapa e Instituto Agronômico (IAC), de Campinas/SP, são de fundamental importância para o processo produtivo, pois contribuem para melhorar as condições da produção à pós-colheita”, afirma.

O Brasil produz anualmente 43 milhões de toneladas de frutas, segundo dados do Ibraf e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Sua base agrícola abrange 2,3 milhões de hectares, está fundamentada em pequenas e médias propriedades e emprega 5,6 milhões de pessoas (27% da mão de obra agrícola). Atualmente, grande parte da produção total de frutas frescas do país fica no mercado doméstico, sendo que apenas 2% é exportado.

Custo Brasil —Apesar de estar bem estruturado, o setor ainda precisa superar muitos obstáculos para continuar crescendo. O principal gargalo, na avaliação de Maurício Ferraz, é o custo Brasil, que vem acabando com a competitividade das frutas brasileiras no mercado internacional. “Podemos ainda mencionar a falta de registro de defensivos de novas gerações, a baixa disponibilidade de crédito, a deficiência nas áreas de transporte, logística, armazenagem, manuseio nos portos e, em alguns setores, a falta de mão de obra especializada e a descapitalização do produtor, que inibe novos investimentos, como entraves para o desenvolvimento do setor”, enumera.

Conforme Ferraz, estas deficiências poderiam ser amenizadas com políticas públicas voltadas a estimular a agricultura, trabalhando a cadeia integral da produção à comercialização, apostando na conscientização do consumidor e desonerando o custo Brasil. “Essas medidas tornariam nossa fruticultura mais competitiva”, analisa. A opinião é compartilhada pelo presidente da ABPM, que mesmo levando em conta o câmbio desfavorável projeta exportar de 95 mil toneladas a 100 mil toneladas até o final de 2010. “A vantagem é que a fruticultura brasileira se profissionalizou, e então tem condições de manter os mercados já conquistados pela confiança e pela qualidade, até porque a retomada destes mercados seria muito difícil. A verdade é que o Brasil é um fornecedor confiável”, destaca Péres.

O presidente do Ibraf, Jean-Paul Gayet, lembra que a Europa, principal consumidor, continua em período de recessão, reforçando a necessidade de diversificação de mercados para os fruticultores. “Outros mercados, como o dos Emirados Árabes e de países como Alemanha, Canadá, Estados Unidos e Hong Kong são promissores, mas, só produzir não basta para levar o produto pela primeira vez ou de maneira mais agressiva às prateleiras. Em tempos de concorrência acirrada, é preciso se diferenciar. Este é o desafio que temos pela frente”, afirma.

Produção com sabor — O momento, na avaliação de Maurício Ferraz, é de trabalho, sobretudo em relação ao mercado interno, que apresenta um grande potencial de crescimento. “O consumo de frutas no Brasil está estimado em 60 quilos por habitante/ano enquanto o Ministério da Saúde recomenda que seja 100 quilos por habitante ano. O setor precisa investir no marketing da qualidade, do sabor, da saúde e da segurança alimentar para atrair o consumidor. O que se observa hoje em dia é que a ausência de sabor e de atrativos têm afugentado as crianças. O apelo pela saúde não é suficiente, hoje até bolacha recheada tem vitamina e o marketing funciona”, argumenta.

Para a pesquisadora da área de Tecnologia de Alimentos da Embrapa Clima Temperado, sediada em Pelotas/RS, Ana Cristina Krolow, este raciocínio está correto. “É preciso ver a coisa do ponto de vista do consumidor. Não comemos apenas com a boca, mas também com os olhos e o nariz”, destaca. Ela explica que esta é uma estratégia que os supermercadistas europeus conhecem muito bem. “Na Espanha, por exemplo, a diversidade de formas e cores aliada à padronização no tamanho dos frutos harmoniosamente dispostos nas gôndolas funcionam como uma vitrine irresistível aos olhos do consumidor”, observa. “Além do apelo visual e sensorial, que é muito importante, a pesquisa também está focada nas características funcionais da fruta, como o tempo de vida útil do produto, sua atividade antioxidante (que ajuda a combater os radicais livres), maiores teores de vitamina C, etc.”, ressalta.