A Granja do Ano – 34 anos da melhor prestação de informações e serviços ao profissional do campo.

Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Leite

Segmento estacionado

A produção não deverá aumentar em 2010 em relação ao ano anterior. O setor ainda se recupera da crise mundial, que estancou o crescente aumento do consumo
Grasiela Duarte

O setor de leite ainda não se recuperou do choque da crise financeira internacional. O impacto da instabilidade econômica atingiu em cheio os países em desenvolvimento, que aumentavam o consumo progressivamente em até 4% ao ano, e estavam importando leite em pó do Brasil. Em 2008, a tonelada do produto que chegou a ser vendida por US$ 5 mil, ante uma média histórica de US$ 2 mil, caiu drasticamente, e em 2009, foi comercializada por até US$ 1,5 mil.

Conforme dados do Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic), de 2007 para 2008 as exportações do produto aumentaram 143,02%, de 36,700 mil toneladas para 81,630 mil toneladas. Para o presidente da Comissão de Pecuária de Leite da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Rodrigo Alvim, nada poderia ter sido pior do que a crise ter atingido o consumo. "Sem crédito, os países deixaram de comprar o produto e o Brasil que, desde 2004, era superavitário voltou a ser importador", afirma. Ele explica que com o câmbio desfavorável ficou mais fácil para os brasileiros importarem do que exportarem.

Com o cenário externo desequilibrado, os preços ao produtor caíram. Foi por isso, segundo Alvim, que, contrariando a lógica, a indústria corrigiu o valor pago ao produtor. Foi para não desestimular a produção entre janeiro e março, exatamente no período de safra no Centro-Sul, onde se concentra 50% da produção. Alvim destaca que, nos dez anos anteriores, a média de crescimento da produção tinha sido de 5% ao ano, mas em 2009 o crescimento foi de 1,5%. "Se não houvesse a correção, o produtor não teria estímulo para continuar na atividade".

Mas para o presidente da Associação Brasileira de Produtores de Leite (Leite Brasil), Jorge Rubez, a preocupação existe. Conforme ele, a produção não deve aumentar em 2010, ficando próxima dos 27,6 bilhões de litros de 2009. Além disso, conforme o Índice de Captação de Leite do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) (ICAP-L/Cepea) a queda foi de 7,3% no primeiro trimestre, devido à seca em algumas regiões mineiras, excesso de chuvas em São Paulo e temperaturas elevadas no Sul. Isso, conforme avaliação do Cepea, influenciou também o aumento dos preços do leite, que de janeiro a abril foi de 27%, a maior elevação já observada para o período, desde que a série começou em 1995. No primeiro semestre de 2010 o ICAP-L/Cepea aponta que o volume recebido por laticínios/cooperativas foi 4,34% maior que o do mesmo período de 2009, mas ainda 2,4% menor que o acumulado em igual período de 2008.

Mas as incoerências não pararam por aí. Em plena entressafra, a partir de junho, o preço ao produtor começou a cair. Conforme pesquisa do Cepea, a média nacional, que considera os estados de RS, PR, SC, SP, MG, GO e BA, foi de R$ 0,7718/litro (preço bruto) em junho, redução de 3,3% frente ao mês anterior. "O preço do UHT no varejo subiu, mas o mercado não pagou. E se cai o preço do UHT, cai o valor repassado ao produtor", destaca Alvim. Para Rubez, o problema vai mais além. Se trata, na verdade, do fim da entressafra. "O Brasil mudou, o produtor consegue armazenar alimento para o gado e a entressafra para mim não existe mais", explica. Ele avalia que é necessário fazer um grande reajuste na cadeia para não desmotivar o produtor. "Ou a cadeia se ajusta ou precisaremos de uma intervenção do Governo."

Segundo Alvim, a produção aumentou 5,7% no primeiro trimestre de 2010 em relação ao mesmo período de 2009. No entanto, ele pondera que naquele período, devido à crise mundial, houve uma queda de 4,5% sobre igual período de 2008. "Esse aumento é relativo, porque na verdade estamos recuperando os índices pré-crise." Agora a expectativa é que se confirme o aumento de consumo no Brasil previsto em até 7% para o segundo semestre de 2010. Se o cenário se confirmar, Alvim avalia que irá enxugar o mercado. "Se a produção e o consumo aumentarem, pode ter uma compensação de preços. Mas se não crescer o consumo, aí teremos um problema maior."

Acordo com os hermanos
O Brasil quer estabelecer entre suas indústrias de leite e as da Argentina um acordo comercial. A proposta envolverá a limitação das exportações do produto do país vizinho para o Brasil. No entanto, os termos do acordo ainda deverão ser acertados entre os dois países, mas na primeira reunião marcada para agosto de 2010, os argentinos não compareceram. Segundo o presidente da Comissão de Pecuária de Leite da CNA, Rodrigo Alvim, a proposta é de criação de um fundo com recursos do BNDES e do Banco de La Nación para financiar as indústrias e harmonizar a produção dos países.

No entanto, ele ressalta que o acerto só será benéfico se o objetivo for criar uma plataforma do Mercosul para exportar o produto para outros países de fora do bloco. "Se quiserem facilitar o comércio intra-bloco não vamos aceitar", adverte. Para Alvim, as diferenças de câmbio das moedas locais para o dólar é muito grande. Além disso, destaca que o governo do país vizinho subsidia seus produtores, o que o Brasil não faz.

Outra reivindicação do setor é com relação a acordo firmado em março de 2010 com o Uruguai, pacto que abriu o mercado brasileiro para os lácteos daquele país. A medida foi tomada em troca de uma cota de exportação de frango do Brasil de até 1,4 mil toneladas por ano. O problema, segundo Alvim, é que o leite não está dentro de uma cota. "Pedimos que o Governo revise a medida de liberação de mercado e que ao menos, limite as exportações do Uruguai", revela.