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Café

Grão escasseia e as cotações sobem

Os estoques mundiais de café caíram em razão da última produção deficiente de Brasil, Colômbia e América Central. Por isso o período é de pouca oferta e de reação dos preços

Grão escasseia e as cotações sobem

Lessandro Carvalho e equipe de analistas de Safras & Mercado

Oano de 2010 foi marcado até sua metade mais uma vez por muita volatilidade no mercado internacional do café. Afora as variáveis de fundamentos, as turbulências macroeconômicas – ainda rescaldos da crise financeira americana que se tornou global a partir de setembro de 2008 – afetaram os preços da commodity, como de todos os outros produtos cotados em bolsas de futuros pelo mundo. Mas, no balanço até o final de julho/2010, podia-se falar num mercado que encontrou boa recuperação, explicada especialmente pelas preocupações com a oferta restrita no mercado mundial, principalmente para cafés arábica de alta qualidade.

Depois de uma pequena safra em 2009, o Brasil vem com uma safra que provavelmente se confirmará recorde em 2010. É a questão da bienalidade cafeeira, que alterna anos de carga cheia (alta produtividade) com anos de carga menor (baixa produtividade). O problema é que os estoques caíram no mundo com a última produção deficiente de Brasil, Colômbia e América Central (grandes produtores de cafés arábica lavados de “alta qualidade”), que tiveram problemas nas duas últimas temporadas. Assim, o mundo vive um período de oferta restrita e os preços reagiram a isso.

Claro que o movimento não foi uniforme. Pelo contrário, houve momentos de fortes altas e também de fortes baixas. O café na maior parte do tempo continuou seguindo o desempenho de outras commodities, que por sua vez oscilaram de acordo com subidas e descidas do dólar em relação a outras moedas, de acordo com os cenários econômicos globais mais otimistas ou pessimistas. Fundos e especuladores seguiram em 2010 com suas marés de fuga de mercados de maior risco e com períodos de retorno às commodities, e o café foi naturalmente “sacudido” com isso.

Aperto global — Segundo a Organização Internacional do Café (OIC), a produção mundial 2009/10 está estimada em 120,6 milhões de sacas, com queda de 5,8% contra a produção 2008/09, indicada em 128,1 milhões de sacas. Foi a temporada de safra menor no Brasil, colhida em 2009, de ciclo baixo dentro da bienalidade. Já o consumo mundial em 2008 foi de 130 milhões de sacas, e subiu para 132 milhões de sacas em 2009. Isso significa que em 2008 o mundo teve um déficit na oferta de 1,9 milhão de sacas, déficit que cresceu para 11,4 milhões em 2009.

Para 2010/11, ano de alto ciclo produtivo no Brasil, a OIC espera uma produção mundial de 133 milhões a 135 milhões de sacas. Conta-se para isso com uma produção brasileira em torno de 50 milhões de sacas (mas Safras & Mercado e outras entidades trabalham com uma estimativa superior a essa). Além disso, a OIC indica que depois de duas temporadas com problemas, a Colômbia deve reagir em sua produção, para 10 milhões a 11 milhões de sacas. E o Vietnã deverá ter safra de 16 milhões a 18 milhões de sacas. Como o consumo mundial está estimado em cerca de 134 milhões de sacas para 2010, mesmo em ano de safra maior no Brasil haveria aperto na relação de oferta e demanda.

Esse aperto na oferta justifica uma análise de tendência de sustentação às cotações internacionais. Mas é bem verdade que os números variam muito conforme quem estima. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), por exemplo, estima que o estoque mundial de café 2008/09 ficou em 36,8 milhões de sacas, caiu para 32,29 milhões de sacas em 2009/10 e deve recuperar-se mais sadiamente para 36,3 milhões de sacas em 2010/ 11. Ou seja, indica ainda um estoque global suficiente para abastecer o mercado por ao menos 3 meses.

Preços — A cotação média do café arábica na Bolsa de Mercadorias de Nova York em 2010 é de 181,76 centavos de dólar por libra-peso – até final de julho. Isso representa uma valorização de 9,3% no comparativo com o preço médio fechado de 2009, de 166,34 centavos. Já no mercado físico brasileiro de café, tomando por base o café arábica bebida dura tipo 6 no sul de Minas Gerais, o preço médio de 2010, até final de julho, foi de R$ 289,39 a saca de 60 quilos (superior aos R$ 300 reais/saca no mercado em julho/2010). Assim, a cotação média foi 10% superior em 2010 que a média de 2009, em R$ 263,19. Isso mostra força no mercado brasileiro, com o produtor segurando a oferta, principalmente dos cafés de “melhor bebida”, já que o dólar caiu no período na média 9,5%, o que pressionou para baixo as cotações em reais. Os financiamentos do Governo contribuem para dar fôlego ao produtor na estratégia de segurar os grãos.

Cuidado com as apostas futuras — O analista de Safras & Mercado Gil Barabach ressalta que apesar da safra recorde, o produtor vinha, em julho/2010, escoando a sua safra sem afobação. A relativa estabilidade nos preços ajudava a dosar a comercialização. Além disso, era crescente o interesse por cafés de melhor qualidade. É a oportunidade que se abre ao café brasileiro, com a falta de cafés “suaves” no mundo, depois de duas temporadas de problemas na América Central e Colômbia, que produzem esse tipo de grãos (arábica lavados – suaves). Assim, o mercado interno estava resistindo, até com certa tranquilidade, às investidas negativas, naturais nessa época do ano, o que contribuía para a conduta mais tranquila do vendedor, comenta o analista. “Está tudo se encaminhado bem e o produtor vem aproveitando o bom momento”, afirma.

A questão é a seguinte: o mercado continuaria assim vantajoso, subiria mais ou sofreria algum revés? A resposta é complexa e envolve não só aspectos internos como, principalmente, situações externas do abastecimento, analisa Barabach. “Lá fora, o mercado deve seguir sustentado, pelo menos, até a chegada de produto novo na América Central, em especial da Colômbia. E isso só acontecerá mais para o final do ano, no último trimestre. Assim, o vencimento de setembro e também o de dezembro, muito possivelmente, devem seguir sustentados em Nova York, em virtude da carência de café certificado e o receio em torno do abastecimento”, aponta. No Brasil, no entanto, o avanço da safra pode levar a algum descolamento negativo em relação a NY, ou seja, os preços podem cair. Mas a postura tranquila dos vendedores e o interesse de compra por cafés de qualidade ajudam a segurar a onda baixista e devem limitar investidas nesse sentido, acredita o analista de Safras.