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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Trigo

Só o Governo salva

A qualidade inferior, em razão do excesso de chuva, e o câmbio derrubaram a cotação do trigo no Brasil, apesar do aumento em nível internacional. E a saída do produtor foi o PEP
Juliana Winge e equipe de analistas de Safras & Mercado

As fortes altas internacionais de julho de 2010 passaram despercebidas no mercado brasileiro de trigo. Na época, com a proximidade da colheita da próxima safra e com os agentes do lado da oferta precisando abrir espaço em seus armazéns, os escassos reportes de negócios de trigo eram fracos, realizados entre R$ 380 e R$ 390 por tonelada no interior do Paraná. No lado dos moinhos, a reclamação era que existia dificuldade em concorrer com a farinha importada da Argentina.

Havia um aumento da oferta da farinha, que achatava os preços por parte do varejo. Dentro deste contexto, pelo menos no curto prazo os agentes da cadeia tritícola nacional não devem sentir os reflexos da alta externa, a menos que eles se intensifiquem. “Isso parece pouco provável, pois, a elevação ocorrida nas bolsas norte-americanas foi embasada em expectativa de quebras em importantes regiões produtoras”, afirmou o analista de Safras & Mercado Elcio Bento. Esta possibilidade foi precificada pelo mercado e, se eventualmente não se concretizar ou for menor do que se previa, existe o risco de uma realização de lucros e, consequentemente, queda das cotações. De concreto mesmo até aquele momento era que, em relação ao mesmo período de 2009, os preços no mercado brasileiro estavam por volta de 20% inferiores, enquanto que nos Estados Unidos apresentavam elevação de 11%.

Como os preços no Brasil são formados de fora para dentro, pela paridade de importação, a queda no Brasil pode ser explicada basicamente por questões qualitativas, devido ao excesso de chuva enfrentado no momento da colheita e pelo comportamento cambial. Prova disso é que, em reais, a alta do trigo norte-americano é de apenas 1% em relação ao início da temporada. Porém, a temporada 2009/10 tem algumas particularidades que demandam uma análise mais esmiuçada. Uma delas é a forte intervenção do Governo no mercado, buscando garantir um preço mínimo, que acabou ficando muito fora da realidade do mercado internacional.

A temporada 2009/10 iniciou em agosto de 2009 com estoques de 2,112 milhões de toneladas. A produção nacional foi de 5 milhões de toneladas. Mas, com as condições climáticas adversas, apenas 3 milhões eram de grãos que poderiam ser disponibilizados aos moinhos. Dos outros 2 milhões de toneladas, 1,17 milhão foram retirados do mercado nacional com o auxílio do Prêmio de Escoamento de Produto (PEP), 445 mil toneladas para sementes, restando um saldo de trigo para ração de 455 mil toneladas. Entre agosto de 2009 e junho de 2010, o país importou 6,2 milhões de toneladas. Isso gera uma oferta de 13,2 milhões de toneladas, para um consumo doméstico de 10,1 milhões de toneladas. O que significa que mesmo sem contabilizar as importações de julho, o país já teria trigo suficiente para atender a demandas e fechar com estoques de 1,142 milhão de toneladas. “Com esses dados, pode-se perceber que o abastecimento na atual temporada foi bastante tranqüilo”, destaca Bento.

Para acompanhar o comportamento das variáveis no decorrer do ano comercial 2009/10 que se aproxima do seu final, será utilizada a cotação de Maringá/PR como referência de preço no Brasil, a cotação FOB Baia Blanca para a Argentina e a cotação do trigo Hard norte-americano FOB Golfo do México. Em agosto de 2009, o trigo fechou com uma cotação média de R$ 496 por toneladas no Brasil, recuando 7,1% em relação ao mês anterior. Este era um comportamento esperado, resultado da pressão sazonal de ingresso da safra nacional. No âmbito externo, os preços haviam apresentado uma alta de 3,3% no Golfo e de 6,2% na Argentina.

A relação cambial estava em R$ 1,94/dólar, sem alteração em relação ao mês anterior. Considerando que, em julho de 2009, o preço médio no interior do Paraná foi de R$ 534,00/ tonelada, a alta dos preços internacionais em agosto mostrava que a queda no Brasil era apenas por questões sazonais. “Apesar disso, é interessante ressaltar que já no primeiro mês do ano comercial, o preço mínimo que passou a vigorar (R$ 530/t), convertido pela taxa cambial do mês, era US$ 70/t superior ao norte-americano no Golfo”, ressalta Bento.

Em setembro de 2009, a média de preços no interior do Paraná teve queda de 6% em relação ao mês anterior. Além da pressão do ingresso da safra, os preços no mercado doméstico foram impactados pela queda das cotações nos EUA (-9%) e na Argentina (- 5%). Para fechar o quadro baixista, o dólar caiu 5% em relação ao real, fazendo com que a queda do trigo norte-americano no padrão monetário brasileiro fosse de 13%. Em outubro, o mercado nacional mostrou alguma força e fechou com alta de 2% em relação ao mês anterior. Por um lado, esta alta ia à direção do mercado dos EUA (+5%), porém, na contramão da Argentina (-5%).

Como a Argentina é o principal fornecedor nacional e o câmbio seguia facilitando a importação, com o dólar caindo 2%, a leve alta no Brasil mostra que a entrada do Governo no mercado, com o primeiro leilão de PEP realizado no dia 29 de outubro, se não resultou numa recuperação das cotações, pelo menos estancou a queda apresentada no primeiro bimestre da temporada. O escoamento foi basicamente de trigo de baixa qualidade, destinado à exportação. Apesar da intervenção, o preço referenciado no mercado privado ficou R$ 53/t abaixo do mínimo estabelecido.

No mês de novembro, apesar da queda de 7% na Argentina e a nova queda do dólar, no Brasil o recuo foi de apenas 1%. A queda menos que proporcional no Brasil foi mais uma vez conseguida pela forte intervenção governamental. O mês contou com um aporte de recursos suficientes para auxiliar o escoamento de 1,344 milhão de toneladas. Mesmo com a agressividade da intervenção, o preço de mercado ficou R$ 56/t abaixo do mínimo estabelecido. “Apesar disso, é preciso reconhecer que sem a intervenção, a situação seria mais complicada”, afirma o analista. Enquanto os preços, em reais, na Argentina entre agosto e novembro haviam recuado 20%, no Brasil a queda foi de 11%.

No último mês do ano, os preços no Brasil ficaram estáveis. Com a confirmação da quebra da safra argentina, os preços no país vizinho se elevaram em 11% em relação ao mês anterior. Nos EUA, os preços recuaram 3%. Os leilões de PEP seguiram a todo o vapor, com oferta de recursos para escoar 1,359 milhão de toneladas de trigo, com demanda para 872 mil toneladas. Apesar disso, o preço do mercado ficou R$ 57/t abaixo do mínimo, o qual, por sua vez, superava o FOB argentino em R$ 112/t.

Intervenção agressiva — Passado o período de entrada de safra no Brasil, esperava-se que o mercado brasileiro passasse a responder de forma mais próxima às variáveis formadoras de preços, pela paridade de importação. Com os preços na Argentina, por exemplo, R$ 107/t abaixo do mínimo de referência no Brasil, ficava claro que sem a presença do Governo, a pressão externa achataria as cotações no âmbito doméstico. Foi no mês de janeiro de 2010 que o Governo foi mais agressivo nas vendas, auxiliando o escoamento de até 1,976 milhão de toneladas.

A partir de fevereiro, as intervenções do Governo por meio de leilões de PEP encerraram. Nas variáveis formadoras de preços, nos Estados Unidos, o trigo Hard manteve-se estável. Porém, com a queda de 7% na Argentina e com a valorização do dólar em relação ao real de 3%, o mercado nacional encerrou o mês com queda de 4% em relação ao mês anterior. Nesse mês, ficou clara a influência da Argentina pela paridade de importação, pois, a queda do preço na Argentina em reais foi na mesma intensidade que no mercado doméstico (4%). Mas, sem o Governo, o preço indicado no mercado doméstico (R$ 447/t) ficou R$ 83/t abaixo do mínimo de referência, que por sua vez estava R$ 125/t acima do argentino no FOB. A partir de abril, a Argentina iniciou uma recuperação, sentindo os efeitos da escassez de oferta no Mercosul, com alta de 4%. A paridade fez com que o preço no Brasil recuasse 6%.

No mês de maio, os preços no Brasil mantiveram-se estáveis em relação ao mês anterior. Na Argentina, as cotações seguiram em alta, refletindo a escassez de oferta. Com uma valorização de 4% do dólar, a paridade de importação em relação ao trigo argentino subiu para R$ 464/t, bastante acima da realidade do mercado doméstico. O trigo dos EUA recuou mais 2%, mas, a queda foi compensada pelo fator cambial.

O cereal dos EUA mais acessível que o argentino para o abastecimento brasileiro vai contra a dinâmica de formação de preços no mercado mundial, mostrando que o mercado argentino teria que se ajustar à realidade ditada pelas bolsas norte-americanas. Mesmo com a paridade de importação deixando espaço para alta, as cotações no âmbito doméstico mantiveram-se estáveis. Isso se explica pelo fato dos moinhos estarem abastecidos e pelo alto volume de trigo de baixa qualidade no mercado.

Valorização americana — Em julho, as cotações nos EUA apresentaram uma consistente valorização. As incertezas climáticas nos principais fornecedores do Hemisfério Norte renderam o combustível necessário para o cereal se recuperar em relação às demais commodities. Até julho, contudo, o mercado nacional seguia descolado, com o preço no interior do Paraná a R$ 410/t. Para Bento, “depois de um longo tempo de desalento, a possibilidade das variáveis formadoras de preços voltarem a trabalhar a favor das cotações no Brasil é uma notícia que merece destaque”. “Resta saber se a recuperação externa terá fôlego para seguir”, avalia.

De um modo geral, contudo, a temporada 2009/10 teve como principal destaque a intervenção do Governo via PEP. A utilização deste mecanismo teve reflexos durante toda a comercialização. No total, o governo disponibilizou recursos para o escoamento de 4,861 milhões de toneladas. O volume escoado foi de 3,327 milhões de toneladas. Deste total, 1,17 milhão foi exportado, ficando 1,83 milhão no Brasil. Isso significa que num período de aproximadamente três meses, os moinhos compraram 61% das três milhões de toneladas que em tese estariam disponíveis da safra de 2009.

Das 2,112 milhões de toneladas de estoques iniciais, é preciso subtrair a 1,205 milhão de toneladas que estão nos armazéns do Governo, o que daria um montante de 907 mil toneladas. Então, o mercado extra- PEP no Brasil teria um volume de 2,737 milhões de toneladas. Com a estimativa de 6,5 milhões de toneladas importadas, os estoques finais serão de 1,442 milhão de toneladas. Então, além do PEP, a necessidade de compra por parte dos moinhos na temporada é de apenas 1,295 milhão. Isso explica o marasmo apresentado no mercado brasileiro de trigo em julho.

“Sem dúvida, o PEP foi a grande personagem do mercado. Sem ele, os preços médios recebidos pelos produtores teriam sido muito baixos”, analisa Bento. “Com ele, pelo menos na teoria, o produtor que conseguiu entrar no leilão recebeu o mínimo para os tipos de trigo que vendeu”. Por outro lado, muitos moinhos foram penalizados ao não receberem o prêmio que teriam direito pelo PEP nos prazos estabelecidos. Com isso, acabaram ficando com um produto que teve um alto custo (o preço mínimo) e sentiram os reflexos da queda do preço internacional do grão e da entrada de farinha importada a preços baixos.

No final de temporada 2009/10, foram obrigados a aumentar a oferta de farinha para comprovar a venda correspondente a 1,7 milhão de toneladas de grãos adquiridos com o PEP. Como não poderia ser diferente, o produtor sente os reflexos destas movimentações. Para evitar uma nova temporada como a que se aproxima do final, o Governo reduziu em 10% o preço mínimo. “A principal lição desta temporada é que, sem condições de mercado externo e/ou cambial que garantam preços atrativos pela paridade de importação, a comercialização da safra nacional sempre será complicada e muito dependente do Governo, o qual atua no auxílio à comercialização”, destaca o analista. Para que a produção nacional seja viável, é preciso adotar políticas que reduzam o custo de produção, para suportar retração das cotações internacionais.