A Granja do Ano – 34 anos da melhor prestação de informações e serviços ao profissional do campo.

Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Soja

Expansão sem limites

Os custos menores e a vantagem em relação a ‘concorrentes’ como o milho irão fazer o produtor expandir a área da oleaginosa na safra 2010/2011. A lucratividade é promissora, apesar de inferior à safra passada
Dylan Della Pasqua e equipe de analistas de Safras & Mercado

O tradicional levantamento de intenção de plantio de Safras & Mercado para a safra brasileira de verão 2010/11, que tem como objetivo central identificar o sentimento presente dos produtores em relação à decisão de cultivo, indica novo aumento para a área a ser plantada com soja. A oleaginosa começará a ser cultivada no final de setembro a início de outubro de 2010, a depender evidentemente do comportamento do clima (a tendência é de atraso na chegada das chuvas). Em 2009, para uma intenção de plantio divulgada em julho de 22,624 milhões de hectares, a área efetivamente semeada chegou a surpreendentes 23,332 milhões de hectares, com diferença a mais de 3,1%, superando a média de 0,6% a mais dos últimos cinco anos (0,1% em 2008, 0% em 2007, 1,4% em 2008 e -1,7% em 2005). Nesse caso, embora todo o direcionamento do mercado tivesse sido mapeado, a surpresa ficou por conta da intensidade do desestímulo observado no mercado de milho, que levou a um histórico corte de 23% de área semeada no verão.

Para a nova temporada a sinalização é mais uma vez para incremento na área de soja, a princípio em ritmo inferior ao avanço de 7% da safra 2009/2010. Desta vez, diferentemente do observado em 2009, quando a motivação de mercado ainda se mostrava forte, o direcionamento para a cultura provém de outros fatores, de onde pode-se destacar o seguinte: lucratividade média positiva para a maioria dos produtores, apesar da brusca queda média dos preços domésticos; a boa disponibilidade geral de crédito, notadamente pelo lado oficial; a melhora nos preços durante o mês de julho de 2010, que trouxeram um ambiente para o mercado bem melhor do que em maio e junho; e, especialmente, a pouca atratividade de outras culturas alternativas de verão, com ênfase para o milho, que mais uma vez terá sua área de verão reduzida. Fica agora a dúvida para a intensidade do movimento.

Área maior em 2% — A área a ser semeada com soja no Brasil na safra 2010/11 deve ficar entre um intervalo de 23,139 milhões a 24,559 milhões de hectares, com média ficando em 23,849 milhões. Esse total, em caso de confirmação, representaria um incremento de 2,2% sobre os 23,332 milhões de hectares cultivados na safra 2009/10. Com isso deve-se ter o quarto avanço consecutivo da cultura, consolidando novo recorde. Parâmetros esses que podem evidentemente ser aumentados caso haja algum estímulo mais forte via preços nos próximos dois a três meses. Ao levar em consideração a estimativa de evolução estatística de produtividade em condições de clima influenciado pelo fenômeno La Niña, de 2.817 quilos/hectare, chega-se a um potencial inicial médio para a safra brasileira de 67,175 milhões de toneladas (intervalo entre 65,178 milhões e 69,173 milhões, de acordo com o intervalo de área).

Nessa hipótese fala-se de um recuo de 1,3% sobre os 68,054 milhões de toneladas obtidos na safra 09/10. A favor dessa sinalização há a 14 A GRANJA DO ANO SOJA indicação de bom nível tecnológico a ser empregado nas lavouras. Por outro lado, como o citado, há a preocupação com o clima diante da probabilidade de safra ser construída sob o impacto do fenômeno La Niña, que normalmente traz chuvas abaixo do normal para a região Centro-Sul do Brasil, Paraguai e parte da Argentina.

De acordo com o levantamento, foi de novo identificada tendência de incremento da área de soja em todos os estados, mas de uma forma não exatamente proporcional. Nesta safra o maior destaque é o avanço da área nas regiões Nordeste, com 7,9%, e Norte, com 6%, em áreas novas, de pastagens e de milho. Aumento limitado pela recuperação parcial nas áreas de algodão. Em seguida há a região Sul e a Sudeste, com incremento de 3,3% e 1,3%, basicamente em cima de áreas de milho e de pecuária. E só por último aparece a Centro-Oeste, com área de intenção de plantio subindo apenas 0,4%. Neste caso há o avanço em cima de áreas de milho e de pecuária, mas limitado também pela recuperação da área de algodão e pelo esperado avanço da cana. E aqui reside a maior incógnita da temporada, ou seja, o comportamento dos produtores na região central.

Fatores de Estímulo — A exemplo do que vem ocorrendo nas últimas temporadas, esse sentimento otimista dos produtores em direção à soja é resultado do saldo positivo entre os seguintes fatores, que de uma maneira ou outra afetam o desempenho do setor:

■ Lucratividades médias parciais positivas: em termos médios a temporada atual vai caminhando para fechar com resultado ainda positivo em termos de lucratividade bruta, apesar da queda nos preços. A favor tem o fato de ter sido semeada com menores custos de produção e pelo excelente desempenho médio da produtividade, com recorde de 2.918 quilos/hectare. O desempenho só não se comparou aos obtidos em 2008 e 2009 por conta da negativa combinação de variáveis que derrubou os preços domésticos. O resultado parcial acumulado até agora está variando entre 8% e 33%;

■ Aumento na oferta geral de crédito: no lado privado, suporte com os resultados predominantemente positivos obtidos pelas empresas na temporada e recuperação econômica parcial após a crise de 2008/09. No lado público, o aumento da disponibilidade de recursos de custeio pelo Governo Federal em 14% projetado pelo Plano Safra 2010/11, passando de R$ 66,2 bilhões para R$ 75,6 bilhões;

■ Nova retração na área de milho: desestimulados por um mercado de preços médios baixos e problemas de liquidez, os produtores irão novamente cortar a safra de milho no verão. O levantamento de intenção de plantio apontou área de verão em 4,394 milhões de hectares, contra 4,768 milhões semeados em 2009;

■ Alta recente nos preços domésticos: a melhora observada no mercado interno em julho de 2010, resultado da melhora combinada na cotação em Chicago/EUA dos prêmios de exportação e até mesmo da taxa de câmbio trouxe incremento no estímulo dos produtores em direção à soja;

■ Aumento da renda: o positivo sentimento para a demanda interna e externa para a temporada 2010/2011 em cima do crescimento da renda mundial e da economia brasileira;

■ Custos menores: embora com levantamentos ainda parciais sobre a montagem dos custos de produção, aparentemente a temporada não deverá observar grandes modificações sobre a safra passada;

■ Nível tecnológico alto: combinando custos de produção comportados e lucratividade positiva, há a indicação preliminar de bom nível tecnológico a ser utilizado pelos produtores. Fatores Limitantes — Por outro lado, a projeção de mais área de soja no país está sendo limitada pelas seguintes variáveis:

■ Queda nos preços médios: as médias parciais de preços até julho/ 2010 apontavam perdas sobre 2009 entre 19% e 24%, tomando como base algumas das principais praças negociadoras do país. Na média brasileira, valor de R$ 33,87 à saca de 60 quilos, 24% inferior aos R$ 44,72 de 2009. Queda combinando preços médios menores na Bolsa de Chicago em 7%, menor taxa de câmbio em 9% e recuo nas bases médias dos prêmios de exportação próximo a 50%;

■ Expectativa de sobra de estoques em grande volume para a safra 2009/10, como também para 2010/11;

■ Resultados financeiros complicados com a rentabilidade negativa acumulada até julho de quase 21% na média brasileira;

■ Sérias preocupações com o desempenho da produtividade com a alta probabilidade da presença do fenômeno La Niña atuando sobre o clima em parte importante da região de produção sul-americana;

■ Aumento esperado na área de cana e recuperação parcial da área de algodão;

■ Manutenção da instabilidade e da insegurança quanto ao comportamento da taxa de câmbio;

■ Endividamento ainda forte em parcela dos produtores, notadamente nos localizados na região central;

■ Presença da ferrugem asiática que atua como limitador do potencial de produtividade e elevação dos custos de produção. Embora em ano de La Niña possa haver diminuição da infestação em caso de confirmação de clima mais seco;

■ Limitação do crescimento da área imposta pelo aumento do controle oficial e privado sobre a questão ambiental, com ênfase no caso da região da Amazônia Legal;

■ Cenário conservador de preços para 2011 na Bolsa de Chicago na hipótese de confirmação de safra novamente cheia nos EUA, em função da provável recuperação sensível nos estoques;

Estoques elevados — Se considerado esse prognóstico inicial de safra para 2011, há montagem de um quadro de oferta e demanda para o complexo de soja brasileiro, com a manutenção de elevados estoques de passagem, inclusive com alguma elevação.

■ Na soja, destaque para a revisão para baixo na estimativa de exportação de grão na temporada 2009/10, de 29 milhões para 28,5 milhões de toneladas, em cima da diminuição de ritmo de vendas e embarques ocorrido a partir de junho/ 2010. E aumento na estimativa de processamento de 33 milhões para 33,300 milhões de toneladas, respondendo ao aumento da atividade das indústrias. Na safra nova, sinalização de processamento crescendo outros 5%, para 34,800 milhões de toneladas, e potencial de exportação de 29,800 milhões de toneladas. De salto, estoques levemente menores, caindo de 3,991 milhões para 3,816 milhões de toneladas;

■ No farelo, aumento nos estoques da safra atual de 978 mil para 1,178 milhão de toneladas, em linha com aumento da produção. Na safra nova, destaque para aumento no consumo interno de 5%, para 13 milhões de toneladas, e no potencial de exportação em 8%, para 13,800 milhões de toneladas. Assim os estoques finais tenderiam a crescer 4%, passando a 1,228 milhão de toneladas;

■ No óleo, além da produção maior na safra 2009/10, há incremento da expectativa de exportação de 1,200 milhão para 1,300 milhão de toneladas. Com isso, os estoques finais caíram de 267 mil para 217 mil toneladas. Na nova safra, projeção de consumo interno maior em 3%, com a mesma taxa no biodiesel, considerando manutenção da mistura de 5% no total da produção de diesel. Mas lembra-se que o setor reivindica junto ao Governo mistura de 6% a 7%, já durante 2011. E a exportação mantida em 1,3 milhão de toneladas de óleo. Apesar disso, os estoques subiriam 32% para 287 mil toneladas.

E os preços? — O primeiro indicativo a ser analisado sobre a ótica da remuneração dos produtores, e certamente o mais visível deles, é o comportamento dos preços. E neste caso, o predomínio do sentimento negativo até o final do primeiro semestre de 2010, considerando que as bases praticadas no mercado interno ficaram sempre muito abaixo das médias históricas e de 2009, seja em dólares, seja em reais. Embora, em meados de julho, os preços tenham melhorado e trazido certo alento aos produtores. De todo modo, acredita-se que essa é uma variável mais limitante do que propriamente estimulante ao avanço do cultivo no país na nova temporada.

Só ganhando força no comparativo com algumas culturas alternativas para a safra de verão, especialmente no caso do milho. Considerando valores parciais de julho/2010, há um acumulado do ano das cotações em dólares com médias inferiores às de 2009 de 12% a 19%, tomando como base algumas das principais praças negociadoras do país. Somente o mês de julho houve recuo de 11% a 17%. Já nos valores em reais, as perdas subiram para 22% a 28% no acumulado e para 19% a 24% em julho.

Para entender esse enfraquecimento das cotações basta observar que os três indicadores básicos de formação dos preços no país estavam negativos no comparativo com a temporada passada. O mercado de futuros da Bolsa de Chicago teve queda acumulada em 2010 de 7%, em cima de fundamentos mais frouxos com o aumento mundial dos estoques. A média dos prêmios de exportação base porto de Paranaguá/PR estava em US$ 40 cents/bushel, 53% inferior aos US$ 85.52 cents em 2009, refletindo o aumento da oferta e postura compradora menos agressiva. E a taxa de câmbio tem média anual 10% menor que a do ano anterior, refletindo o maior movimento de entrada de dólares no país.

Rentabilidade — A segunda variável importante no contexto de decisão dos produtores está na análise da rentabilidade, que considera a soja como opção de investimento, e compara suas variações mensais com a inflação e com outros importantes ativos financeiros existentes no país. Também aqui os resultados parciais são negativos, diferentemente do observado em 2009. O desempenho do primeiro semestre de 2010 foi muito ruim, sendo a pior opção de investimento no período, muito abaixo de todas as opções analisadas.

Enquanto o preço médio da soja acumulava no semestre perda real (já descontada a variação da inflação) de 20,67% (-20,60% em Cascavel/PR, - 21,74% em Passo Fundo/RS e - 16,36% em Rondonópolis/MT), o pior desempenho nos demais investimentos foi do Índice Bovespa, com queda de 13,84%. No mesmo período, houve ganho real de 0,12% na poupança, 1,25% no CDB, 0,12% no dólar paralelo, 0,40% no dólar comercial e 15,92% no ouro da Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F). Esse é o pior desempenho do setor desde os 25,12% de perda real acumulada em 2003. Em 2009, a oleaginosa teve ganho parcial de 8,62%, só perdendo para os 34,46% de ganho do Índice Bovespa, variável que dificilmente será positiva para a soja em algum momento de 2010.

É apenas na terceira e última variável analisada neste texto, a análise da lucratividade bruta (compara a receita com o custo de produção), que a pendência é a favor da soja. Da mesma forma que já foi observado nas últimas três safras, o setor vem trabalhando com números positivos no levantamento parcial de 2010, com clara probabilidade de fechar o ano nessa condição. Mas, desta vez o ganho não provém dos preços, que seguem bem abaixo de 2010. E sim da combinação de redução nos custos de produção com o ganho obtido em termos de produtividade média. Tomando como referência cinco das principais regiões de produção, houve retração no custo de produção variando entre 3,5% no Paraná até 22,2% no caso do Mato Grosso.

Além disso, a ocorrência do fenômeno El Niño permitiu que a produtividade média alcançada fosse generalizadamente elevada sobre as bases da problemática safra passada. Exceção feita aos estados do Mato Grosso e Goiás, onde o clima um pouco mais irregular gerou médias ainda altas, mas levemente abaixo da safra anterior. Dessa combinação, observa-se a lucratividade bruta positiva de 33% no Rio Grande do Sul (região de Passo Fundo), 19% no Paraná (região oeste), 15% no Mato Grosso (região de Rondonópolis), 13% em Goiás (região de Rio Verde) e 8% no Mato Grosso do Sul (região de Dourados).

Avaliação de mercado — A temporada em meados de 2010 estava sendo marcada por três características principais, mas que não seguiam a mesma linha da observada pelo mercado em igual momento de 2009, tanto no cenário externo como no interno. Externamente, havia uma base de preços atual até certo ponto sólida, mas com tendência não exatamente altista, diferentemente da mesma época de 2009, quando o mercado estava em franca ascendência (e com nível mais alto); os preços seguiam apresentando boa volatilidade em todo o complexo soja, mas também numa amplitude mais acomodada que no ano passado; e, por último, neste caso a exemplo do ocorrido nos dois últimos anos, um mercado invertido nas cotações de futuros da Bolsa de Chicago, com safra nova nos EUA e na América do Sul valendo bem menos que as bases atuais. Internamente, além do natural reflexo do mercado externo, há a observação de taxa de câmbio inferior a 2009 e também com prêmios de exportação que se mostraram abaixo a 2009 em praticamente todo o ano.

No somatório de todas essas variáveis, chegava-se a um mercado de preços bem mais baixos para os produtores brasileiros em relação ao ano anterior, mas com consistência se contextualizado no cenário dos próximos meses. Entretanto, pelo menos na ótica do vendedor, existia a preocupação com o mercado a partir de setembro/outubro de 2010, em caso de confirmação de uma safra novamente cheia nos EUA e sem indicações de grandes alterações na área a ser plantada na América do Sul, uma vez que a tendência seria de grande afrouxamento no interesse do comprador externo para produto brasileiro. Além da possibilidade de problemas de liquidez em função da expectativa de virar o ano comercial 2009/10 com grandes estoques de passagem, notadamente naqueles estados onde o produto estará concentrado.

Ao tomar como referência as cotações de Chicago, identifica-se que em 2010 já houve pelo menos três importantes repiques de preços (foram seis em 2009) e um quarto que se consolidou em junho, no momento que a cotação spot subiu de US$ 9,28 para US$ 9,65 cents/bushel, confirmando boas oportunidades de negócios para compradores, vendedores e especuladores. O pico do ano aconteceu nos primeiros dias de janeiro, atingindo US$ 10,52 e o fundo do poço nos primeiros dias de fevereiro, batendo US$ 9,08/bushel. Já em igual momento de 2009 o mercado ia se aproximando da casa dos US$ 12.

E essa consistência observada em 2010 no mercado internacional e, também motivadora da recuperação em julho, está ligada à combinação de suporte pelo lado dos fundamentos, com a melhora no ambiente econômico. No primeiro caso houve a piora nas condições das lavouras nos EUA por duas semanas seguidas (apesar das condições ainda serem as melhores para o período desde 1999) em função das chuvas excessivas em parte do Meio Oeste. Além dos problemas na safra de canola no Canadá, também pelo excesso de umidade, e a manutenção de notícias positivas pelo lado da demanda pelo produto norte-americano, com novas compras chinesas para a safra atual e safra nova, fatos de julho/2010.

Já no lado financeiro, o suporte veio com a melhora do humor sobre os rumos da economia na Zona do Euro e pela notícia de que a China estará flexibilizando seu controle sobre a taxa de câmbio. Neste caso, o sentimento é de que uma relação mais equilibrada entre o dólar e o yuan tenderia a ser benéfica para as exportações norte-americanas. A soma dessas notícias em meados de 2010 trouxe elevações para as bolsas de valores em todo o mundo, melhora nos preços do petróleo e queda do dólar em relação ao euro, o que em todos os casos foi positivo para os preços das commodities agrícolas.