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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Biodiesel

Consumo em evolução acelerada

O país deverá consumir entre 2,34 bilhões a 2,35 bilhões de litros em 2010, mais que o dobro de dois anos antes.
Já são 63 usinas produtoras
Lessandro Carvalho e equipe de analistas de Safras & Mercado


O ano de 2010 começou como sendo aquele da afirmação do mercado de biodiesel no Brasil. Após um início lento em 2005, com leilões para atender uma demanda autorizativa em 2006 e em 2007, e o início de leilões para atender demanda obrigatória com 2% (B2) de biodiesel a partir de 2008, o programa acelerou nos últimos anos. Assim, 2010 iniciou com uma demanda obrigatória de 5%, o que representa consumo saindo de 1,04 bilhão de litros em 2008 para 2,34 bilhões a 2,35 bilhões de litros estimados para 2010. Ou seja, aumento de mais de 125% no consumo de 2008 pra cá.

O primeiro trimestre de 2010 consumiu 565 milhões de litros, o segundo 575 milhões de litros, enquanto o terceiro tem demanda estimada em 600 milhões. O aumento entre o primeiro e o segundo trimestre foi de 1,77%, em boa parte explicado pelo maior número de dias. O primeiro trimestre teve 90 dias, enquanto foram 91 dias no segundo. Já o terceiro trimestre tem 92 dias, aumento de um dia em relação ao segundo trimestre. Mas o aumento do volume (600 mil metros cúbicos) é de 4,35%. Ou seja, está claramente embutido não só o maior período de consumo, como também um aumento de consumo intrínseco de diesel nas estimativas da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), para o terceiro trimestre. Para o quarto trimestre, o mercado estima uma demanda que pode variar entre 600 milhões a 610 milhões de litros, em função não só do período de 92 dias, mas também de uma esperada elevação do consumo de diesel no país, ocasionado pela atividade econômica mais intensa. A soma dos quatro trimestres deve resultar em 2,34 bilhões a 2,35 bilhões de litros consumidos em 2010.

E os preços dos insumos? - A questão que fica agora é quanto à outra ponta da equação. Ou seja, os preços de compra do insumo para a própria produção de biodiesel. O preço de compra, principalmente do óleo de soja, é forte determinante do custo de produção, que confrontado com o preço de venda irá gerar o resultado operacional, e consequentemente o objetivo-fim que é o retorno financeiro desejado pelos proprietários e acionistas das usinas. Obviamente que existem vários fatores que formam o custo de produção, além do óleo de soja.

Esse próprio resíduo da soja não é unanimidade, competindo com o sebo e outros óleos vegetais em algumas regiões e em determinadas épocas. Mas a verdade é que em época de oferta de safra cheia de soja, este é o principal insumo na maior parte do Brasil no momento, e em cima dele tentará se focar a análise, visto que os preços do óleo de soja também influenciam as cotações dos outros óleos. O mercado pode subir a qualquer momento, em função da volatilidade que permeia a movimentação dos contratos futuros, deixando algumas usinas receosas quanto ao cenário de preços para o médio prazo. A indefinição da situação em relação às exportações de óleo de soja da Argentina para a China é um fator que certamente seguirá afetando os prêmios do óleo de soja na exportação. O câmbio, por sua vez, é outra grande incógnita, e dependente de muitos fatores. Logo, diante de tantas indefinições, há de se trabalhar com os fatores conhecidos (preço de venda fixado em leilão) e minimizar os fatores desconhecidos (preços do óleo de soja).

A minimização, ou pelo menos a diluição do risco deste fator passa necessariamente pela fixação do custo do abastecimento desse insumo para o período seguinte. A volatilidade do mercado exige, no atual momento, que se diminua ao máximo possível a obtenção de óleo de soja no mercado spot, em função do caminho incerto que os preços podem tomar. A estratégia sugerida é tentar amarrar posições de contrato futuro em posição long (comprada), nos contratos (ou em opções) correspondentes ao período em que se pretende ter proteção contra volatilidade (principalmente alta) dos preços, para se beneficiar de uma eventual retomada das cotações na Bolsa de Chicago, quando o mercado apresentar estes recuos pesados. Para se proteger de uma continuidade do movimento de queda, é recomendado adquirir puts (opções de venda) mais ou menos nos mesmos níveis do contrato futuro long.

Mercado livre - É crescente a pressão de alguns setores para que o mercado de biodiesel passe a operar de forma livre, com negociações diretas e mais dinâmicas entre produtores e distribuidoras, assim como já ocorre com o mercado de etanol. Há defensores e opositores do sistema de leilões. Os opositores acreditam que as usinas do setor já se encontram preparadas para atuar em um mercado de negociação livre, onde os mais competitivos e de melhor planejamento tendem a se destacar nas vendas e desempenho de mercado.

Os defensores do atual sistema acreditam que o planejamento pode ser melhor executado a partir dos preços de venda do biodiesel fixado. E além disso, também argumentam que o setor ainda não está pronto para o mercado em regime livre de negociação, e portanto demandaria mais tempo para esta adaptação.

Usinas - A ANP divulgou seu boletim mensal de acompanhamento do setor de biodiesel, com dados de junho/2010, cujo objetivo é "difundir as informações relacionadas à atividade de produção de biodiesel no país". Eram na época 63 plantas produtoras de biodiesel autorizadas pela agência para operação, correspondendo a uma capacidade total autorizada de 14.182 metros cúbicos/dia. Destas plantas, 52 possuíam autorização para comercialização do biodiesel produzido, correspondendo a 13.641 metros cúbicos/dia. Havia, então, ainda, três novas plantas de biodiesel autorizadas para construção e quatro autorizadas para ampliação de capacidade.

Conforme a ANP, depois da finalização das obras e posterior autorização para operação, a capacidade total autorizada poderá ser aumentada em 1.126 metros cúbicos/dia. Destaca-se também que atualmente há 19 solicitações de autorização para construção de novas plantas produtoras de biodiesel e 11 solicitações de autorização para construção referentes a ampliações de capacidade de plantas já existentes. Tais solicitações encontram-se em processo de análise na ANP. No mês de junho de 2010, foram outorgadas sete autorizações.