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Arroz

Lavouras históricas à vista

Lavouras históricas à vista

O Brasil poderá plantar em 2010/2011 a segunda maior área de arroz da história. O Rio Grande do Sul, maior produtor, pode cultivar extensão recorde. Mas o fenômeno climático La Niña será determinante para as intenções do produtor
Rodrigo Ramos e equipe de analistas de Safras & Mercado

Asaca de 50 quilos do grão em casca iniciou 2010 a R$ 30,83 na região de Pelotas/RS, o principal referencial nacional. A máxima atingida no primeiro mês do ano foi de R$ 34,25 (22/01), o maior patamar desde 11 de novembro de 2008. “Esta escalada altista tinha como principal combustível as incertezas em relação ao abastecimento doméstico”, explica o analista de Safras & Mercado Élcio Bento. As condições climáticas adversas enfrentadas pelas lavouras gaúchas atrasaram o plantio e, consequentemente, a colheita alargou a entressafra. “Também já era dada como certa a redução do montante a ser colhido no país e também no Uruguai, maior fornecedor estrangeiro do cereal”, lembra. Com a estimativa de estoques finais na temporada 2009/10 em 1,225 milhão de toneladas, a possibilidade de atraso da colheita fez com que muitas indústrias entrassem de forma mais agressiva no mercado para garantir o abastecimento. “Os produtores ficaram na defensiva e as cotações tiveram fôlego para subir”, explica. No âmbito internacional, as cotações iniciavam uma tendência baixista. Na Bolsa de Chicago, arroz em casca, que havia iniciado o ano a US$ 16,30/saca de 50 quilos, recuou até US$ 15,08 na mínima do mês de janeiro e fechou a US$ 15,64. Porém, o mercado doméstico teve os reflexos desta queda anulados pela depreciação do real em relação ao dólar.

No início de janeiro, a moeda norteamericana era trocada por R$ 1,72 e, no final, a R$ 1,89. Desta forma, no padrão monetário brasileiro o arroz de Chicago iniciou o mês a R$ 28,04/saca e fechou a R$ 29,48 (+5,2%). “Além do quadro fundamental, com oferta interna escassa, as variáveis exógenas corroboravam para a valorização dos preços internos”, acrescenta.

No mês de fevereiro, último da temporada 2009/10, as cotações no âmbito doméstico voltaram a perder força. Em Pelotas, a saca de 50 quilos recuou de R$ 33,83 para R$ 29,35. Com a proximidade da entrada da safra nova, os engenhos reduziram o apetite comprador. No âmbito externo, as cotações do grão em casca na Bolsa de Chicago seguiam a trajetória baixista, recuando de US$ 15,59/saca no início do mês para US$ 14,79 no final (- 5,13%). Porém, desta vez o comportamento cambial contribuiu para potencializar a retração externa sobre o mercado brasileiro. Com a taxa recuando de R$ 1,86 para R$ 1,81 (-2,9%), a cotação do arroz norteamericano recuou de R$ 29,01 para R$ 26,72 (7,9%). “Mais uma vez o lado fundamental e o exógeno andaram na mesma direção e contribuíram para a desvalorização”, lembra Bento.

O terceiro mês do ano, que marca o início da temporada 2010/11, seguiu com preços internos recuando. Com uma alta concentração da colheita neste período (entre março e abril, o Brasil colhe mais de 80% da safra), era esperada esta queda nas cotações. “Mesmo com uma safra menor, estimada em 11,5 milhões de toneladas, contra 12,7 milhões da temporada anterior, esta concentração de oferta sempre exerce pressão sobre as cotações”, frisa o analista de Safras. Por isso, o arroz em casca caiu de R$ 29,35 para R$ 27,55 em Pelotas (-6,13%). “O recuo das cotações internacionais continuou e, com a relação cambial praticamente estável no mês, corroborou para a baixa apresentada”. Em Chicago, o arroz em casca iniciou março a US$ 14,92 por saca e fechou a US$ 13,42 (-10,05%). O dólar recuou 0,9%, de R$ 1,80 para R$ 1,78.

O mês de abril surpreendeu positivamente em termos de cotações no Brasil, com a saca em casca subindo de R$ 27,55 para R$ 29,40 (+6,71%). Os fundamentos do mercado doméstico, com a quebra da safra gaúcha, davam sustentação aos preços. “Com a garantia do abastecimento doméstico dependendo do maior montante de importação desta década, o cenário de alta estava desenhado”, pondera Bento. No âmbito externo, depois de esboçar uma recuperação no final de 2009, as cotações entraram num canal de baixa. Em abril, a queda acumulada foi de 20,4%, de US$ 16,63 para US$ 13,23. A relação cambial também mostrava uma persistente valorização do real frente ao dólar. Naquele mês a taxa recuou 0,96%, de R$ 1,77 para R$ 1,75. Assim, a queda do arroz norteamericano em reais foi de 3,87%.

Vale lembrar que o mercado brasileiro tem como um dos pilares de formação de preços a paridade de importação. Ou seja, as cotações internas do cereal dependem do valor que o importado chega aos engenhos (em casca) ou ao consumidor (beneficiado). “Uma retração num grande fornecedor externo faz com que os demais exportadores reduzam suas pedidas para manterem-se competitivos”, destaca. Com o Brasil descolando da queda internacional, os fornecedores são atraídos pelas cotações mais altas e concentram as suas vendas no país. Isto mostra que, apesar de fundamentalmente embasada, a recuperação no Brasil tenderia a ser limitada pela queda internacional e pela valorização do real em relação ao dólar. “De qualquer forma, a quebra nacional deixava o sentimento no mercado de que as cotações poderiam continuar subindo”, acrescenta.

Exaustão da escalada altista — Maio iniciou com a escaldada de alta no mercado gaúcho mostrando certa exaustão. Depois da saca atingir R$ 29,40, as cotações entraram numa trajetória de baixa, finalizando o mês a R$ 28,35, acumulando um recuo de 3,24%. Segundo o analista, passada a maior pressão de entrada de safra, esperava-se que os preços seguissem no campo positivo. Corroborava para este sentimento a desvalorização do real em comparação ao dólar, a qual encarecia as importações. A relação cambial iniciou o mês a R$ 1,73 por dólar e fechou a R$ 1,81 (+4,5%). “Porém, esta depreciação do real foi mais que compensada pela queda das cotações internacionais”, lembra Bento.

Em Chicago, a saca recuou de US$ 13,50 para US$ 12,81 (-5,07%). Em reais, a queda ficou em 0,8%. No âmbito interno, sem sustentação pela paridade de importação, os preços passaram a devolver os ganhos que haviam acumulado em abril. O mês de junho, quarto da temporada 2010/11, continuou contrariando a sazonalidade de oferta. A saca do grão em casca em Pelotas iniciou a R$ 28,35 e fechou a R$ 26,6 (-6,17%). No mercado cambial, o dólar comercial entrou em junho trocado por R$ 1,84 e encerrou a R$ 1,80 (-1,9%). Esta apreciação do real potencializou os reflexos da forte retração das cotações internacionais sobre o âmbito doméstico. Na Bolsa de Chicago, a saca recuou de US$ 12,73 para US$ 10,38 (-18,46%). Em reais, o arroz norte-americano caiu 20%.

Com os Estados Unidos colhendo a maior safra da história e já registrando vendas futuras de 74 mil toneladas para o Brasil, o mercado doméstico foi impactado “psicologicamente” pela possibilidade de um maior ingresso extra-Mercosul. Diante disso, a cadeia orizícola seguia num dilema. Por um lado, os números de oferta e demanda mostravam que o ciclo comercial seria o mais apertado dos últimos anos. Iniciando com 1,038 milhão de toneladas em estoques e produzindo 11,5 milhões, considerando exportações de 300 mil toneladas, haveria a necessidade de se importar mais de 1,5 milhão para encerrar com reservas semelhantes às iniciais. Por outro lado, os preços internacionais estavam entre 15% e 20% inferiores em relação aos do ano anterior e, com a força do real em relação ao dólar, uma recuperação mais consistente das cotações esbarraria na paridade de importação.

Dentro deste contexto, o varejo não se sentia seguro em aceitar preços mais altos. Os engenhos, para manter os espaços nas gôndolas, também viam a possibilidade de repasse de eventuais altas do grão em casca estreitada. No final desta cadeia estava o produtor, que, se forçava uma elevação, acabava ficando fora do mercado, pois existia a possibilidade de compras externas.

Reação das cotações — Apesar da pressão externa, os preços domésticos já demonstraram um viés de alta em julho. Na região de Pelotas, a saca de 50 quilos iniciou o sétimo mês de 2010 com média de R$ 26,80, subindo para R$ 27,42 (+2,31%) na segunda quinzena.

No mercado global, o arroz norte-americano apresentou-se estável, iniciando em US$ 10,61 e valendo US$ 10,62 no início da quarta semana de julho (0,1%). Com a taxa cambial caindo de R$ 1,80 por dólar para R$ 1,76 (-1,78%), em reais a queda internacional no mês era de 1,7%. “Isto deixa claro que a retração externa é o principal empecilho para uma recuperação mais consistente no mercado interno”, afirmava Bento, em julho. “Apesar disto, ainda existem mais de sete meses dentro do atual ano comercial e poderemos ter muitas novidades movimentando as variáveis formadoras de preços”, lembra. No mercado externo, o ano comercial 2010/11 iniciou em agosto e eventuais quebras de safras podem resultar em recuperação das cotações. No Brasil, em ano de eleições presidenciais, o câmbio tende a ficar mais volátil. “Além disso, com o quadro de abastecimento muito justo, as movimentações nas variáveis exógenas costumam ter reflexos mais fortes sobre os preços”, finaliza.

Espaço para recuperação — Os fundamentos do mercado brasileiro mostram que existe espaço para que, dentro dos últimos meses da temporada 2010/11, os preços pagos aos produtores apresentem recuperação. “Isto só não ocorreu ainda em função da fraqueza internacional”, acredita Bento. O abastecimento brasileiro está inserido num contexto global, no qual as cotações domésticas não podem caminhar deliberadamente, seguindo apenas os seus números internos. Se os preços no Brasil subirem de forma mais acentuada e no cenário internacional as cotações seguirem em baixa (com o câmbio real/dólar estável), o mercado brasileiro se tornaria atrativo para grandes exportadores.

Num primeiro momento, os fornecedores do Mercosul centralizariam suas vendas para seu maior comprador. Se mesmo assim não conseguissem esfriar o comportamento de alta brasileiro, outros grandes exportadores teriam no Brasil um mercado atrativo. “Desta forma, o preço nacional voltaria ao equilíbrio internacional”, comenta. Sabe-se, contudo, que as leis de mercado não atuam livremente sobre o arroz. “Existem vários fatores que interferem nesta lógica de formação de preços, como os subsídios, os contratos a serem cumpridos e as questões políticas”, enumera. Assim, a postura dos agentes domésticos, em especial em anos de aperto no abastecimento, pode levar a momentos de descolamento dos valores no Brasil em relação ao contexto global.

Um exemplo disso é o que aconteceu em janeiro de 2010, quando, apesar da proximidade da colheita da safra nova, a cotação média saiu de R$ 27,38 em dezembro para R$ 31,77 (+16%). “Naquele momento, com notícias sobre a quebra e o atraso da colheita gaúcha, os compradores precisaram ser agressivos para garantir o abastecimento”, ressalta. Nesta temporada, a redução da oferta no Brasil e no Mercosul já é fato e esta precificada. Espera-se que, caso não haja grandes oscilações nas variáveis formadoras de preços (câmbio e mercado internacional), as cotações sigam uma recuperação gradual, respondendo à sazonalidade de oferta de entressafra. “Apenas seguindo esta lógica, existe espaço para que as cotações ultrapassem o patamar psicológico de R$ 30 por saca de 50 quilos no Rio Grande do Sul, entre outubro e dezembro”, aposta.

No início do segundo semestre de 2010, a colheita era plena no Hemisfério Norte. Por isso, é preciso seguir atento a notícias que possam trazer prejuízos à produção de grandes consumidores e fornecedores. Até o momento, não há nada que justifique preços assumindo uma escalada de alta mais consistente no âmbito externo. “Mas, se algo ocorrer, o reflexo sobre o Brasil tende a ser imediato”, salienta o analista. Outra particularidade para qual é preciso atentar está relacionada à safra nova. A alta expressiva de janeiro deste ano foi motivada pela quebra da safra. “Ao que tudo indica, a safra nova deve ser cheia e, nestes anos, o pico de preços tende a ser até dezembro”, projeta.

Aumento da área — A primeira estimativa de intenção de plantio de arroz, realizada por Safras & Mercado, aponta para um incremento de 3,8% da área a ser cultivada com o cereal, subindo de 2,867 milhões para 2,975 milhões de hectares. Segundo Bento, este sentimento deve-se ao comportamento climático, que até julho garantia um bom nível de água nas barragens, e à expectativa de aperto no abastecimento, que pode abrir momentos de preços interessantes. Com uma produtividade média de 4,4 toneladas por hectare, o país tem um potencial produtivo de 13,07 milhões de toneladas. Em se confirmando, seria a segunda maior safra da história, ficando atrás apenas da de 2005/06.

A Região Sul, com um incremento de 8,5%, é que dá consistência à elevação da área plantada no país. No Centro-Oeste, deve aumentar 2,2%, e no Sudeste, 0,8%. Com isso, no Centro-Sul do país a área deve subir 6,7%, de 1,757 milhão para 1,875 milhão de hectares. Nas regiões Norte/ Nordeste, as estimativas iniciais apontam para uma queda de 0,9%, de 1,11 milhão para 1,1 milhão de hectares. A confirmação dos números depende, principalmente, do comportamento climático. O La Niña costuma causar menos danos que o El Niño nas lavouras brasileiras. No primeiro, as frentes frias que atingem o Centro-Sul do Brasil têm sua passagem mais rápida e, consequentemente, o volume hídrico é menor. Por isso, os bons volumes nas barragens neste momento são importantes.

O risco é que com uma redução dos volumes de chuvas, os produtores tenham que considerar uma utilização mais parcimoniosa da água acumulada nas barragens. Também reflexo do La Niña, as frentes frias que passam mais rápido pelo Centro Sul chegam mais fortes ao Nordeste/Norte, podendo causar perdas na agricultura. “Além do clima, a concessão de crédito pode ser mais um fator limitador da elevação da área plantada”, ressalva Bento. De modo geral, contudo, o sentimento é de que os produtores apostarão no cereal.

RS com produção recorde — No Rio Grande do Sul, maior produtor nacional, o levantamento apontou um incremento de 10% na área em relação à safra anterior. O recuo da produção por perdas na safra passada deve levar os produtores a apostarem no próximo plantio para recuperarem os prejuízos, num ano em que se esperam condições climáticas favoráveis. Em anos de La Niña (como em 2010), o Rio Grande do Sul bate seus recordes de produtividade. Isto, juntamente com um quadro de abastecimento nacional apertado e a possibilidade de preços mais firmes, são os principais fatores que elevariam a área gaúcha de 1,09 milhão para 1,2 milhão de hectares. “A efetivação deste incremento de área seria limitada apenas por uma eventual escassez hídrica”, frisa o analista de Safras. Até julho, este problema parecia estar descartado.

Porém, uma seca obrigaria o produtor a dimensionar a lavoura de acordo com a água disponível, pois, com o La Niña, a tendência é que não conte com muita chuva depois do plantio. Outro limitante seria uma redução da disponibilidade de crédito, em especial para os produtores mais atingidos pelo clima adverso na última safra e que estão descapitalizados. “Sem o efeito destes condicionantes, o estado deve plantar os 1,2 milhão de hectares, que serão um recorde histórico”, destaca. Com o clima favorável, o volume produzido também deve ser recorde, ficando entre 8 milhões e 8,5 milhões de toneladas. Se estas estimativas se confirmarem, os gaúchos responderão por 34% da área plantada e 64% da produção.