A Granja do Ano – 34 anos da melhor prestação de informações e serviços ao profissional do campo.

Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Algodão

Área e otimismo em ascensão

A GRANJA DO ANO
Cotonicultores deverão ampliar as lavouras em 16% na safra 2010/2011. E duas variáveis vão determinar o cenário de cotações: o volume final de oferta da safra brasileira 2009/2010 e o mercado futuro norte-americano

Rodrigo Ramos e equipe de analistas de Safras & Mercado

O ano de 2010 iniciou positivo para os pre ços do algodão. A manutenção da presença da indústria no mercado foi fundamental ao suporte da fibra em janeiro. "O cenário duvidoso quanto à oferta disponível para a temporada, que manteve vendedores cautelosos e resistentes, completou o panorama de fatores fundamentais altistas no âmbito interno", destaca o analista de Safras & Mercado Miguel Biegai. A cotação média em janeiro alcançou a linha de R$ 1,42 por libra-peso (cif. São Paulo), para pagamento em oito dias, na base 41-4, registrando uma alta de 2,9% em relação a R$ 1,38 pago pela fibra em dezembro de 2009. "A variação foi mais modesta, respeitando a barreira psicológica de R$ 1,45 por libra-peso", salienta.

O volume negociado no primeiro mês do ano também foi inferior ao registrado em dezembro anterior, período em que a indústria esteve bem ativa para garantir a produção no retorno dos feriados, bem como das férias coletivas, além de acertar contratos para entrega futura. Ao longo do mês ficou bem definida a alteração do comportamento dos agentes. "Na primeira quinzena, as altas foram substanciais e animaram a ponta vendedora", lembra Biegai. A indústria têxtil buscava, além de alguns lotes para necessidades imediatas, amarrar contratos para entrega futura. "A ponta vendedora, em posição confortável, mantinha a postura retraída", acrescenta. Como resultado, os bons preços trouxeram de volta os comerciantes ao mercado, que almejavam inicialmente realizar lucros ou cumprir contratos.

O cenário altista impactou na oferta, que melhorou por parte de produtores na segunda quinzena. "O derretimento de Nova York contribuiu para segurar os preços, que não chegaram nem a testar a barreira psicológica de R$ 1,45 por libra-peso", frisa o analista. De todo modo, a perspectiva de desvalorização do real frente ao dólar deu certa sustentação para que a fibra não recuasse ao longo da última semana de janeiro, embora os negócios para exportação tenham sido mais restritos em função da perda do suporte dos US$ 0,70 por libra-peso em Nova York. O "pé no freio" da indústria se deu também na segunda quinzena. Além de estoques já recompostos, a dificuldade de fazer o repasse das altas de dezembro e janeiro da fibra para os fios foi um dos motivos para tal posicionamento.

Fevereiro abriu os trabalhos com a fibra cotada entre R$ 1,43 e R$ 1,44 a libra-peso (cif. São Paulo), para pagamento em oito dias, na base 41-4, ante R$ 1,16 que era pago no mesmo período do ano anterior, o que se traduz em uma valorização acumulada de 23,5% em 12 meses. O bom desempenho dos contratos em Nova York, bem como a perspectiva de pouco volume de fibra na mão de produtores, indicava um horizonte promissor para a fibra em fevereiro. Contudo, o desencontro nas pontas do mercado e a falta de qualidade e volume dos lotes negociados ao longo do mês comprometeram o suporte interno. "Com isso, os preços que apontavam uma tendência altista não se confirmaram e os negócios encerraram o mês praticamente estáveis em relação a janeiro", comenta Biegai.

A constante presença da indústria no mercado não foi suficiente para elevar os preços da fibra no âmbito interno. A maioria dos negócios realizados ao longo do período se restringiu a pequenos e médios lotes. "Essa procura se deu pelo aumento da demanda por têxteis, impactando positivamente nas expectativas", explica Biegai. Contudo, as pontas do mercado permaneceram um tanto distantes, em função da alegação da indústria de fios de que tinha dificuldades no repasse. A qualidade da fibra também comprometia o volume movimentado.

Produtores com safra velha em mãos se valeram desta situação para liquidar estoques e se capitalizar, embora os preços acordados tenham pendido mais para as pedidas da indústria. "Essa situação de aparente equilíbrio interno repercutiu na estabilidade das cotações brasileiras, mesmo diante de uma Nova York em alta", salienta. O algodão oscilou em fevereiro em uma linha bem definida, com os limites situados entre R$ 1,42 e R$ 1,43 a libra-peso. Alguns negócios foram registrados em linha inferior. Contudo, eram volumes sem muita expressão, com qualidade mais baixa, ou mesmo ofertados por tradings que com a queda de Nova York na primeira semana do mês estavam competitivas no mercado interno. Neste contexto, a fibra acumulou alta de 0,20% ante janeiro e 23,52% em 12 meses.

Cotações no pico
No mês de março, particularmente em seu final, os preços dispararam diante da demanda que dava sinais de aquecimento. "A pluma de boa qualidade escassa e concentrada nas mãos de alguns poucos agentes trazia suporte às cotações", comenta o analista de Safras. A libra-peso ficou indicada de R$ 1,56 a R$ 1,57 (cif. São Paulo), para pagamento em oito dias, na base 41-4. "A alta era bastante considerável em relação a R$ 1,43 do início do mês", lembra. Mas o que aqueceu o mercado não foi somente o preço spot do algodão. A movimentação visando entrega de algodão para exportação também foi responsável pela elevação.

Os preços do algodão no mercado interno caíram fortemente no final de abril e início de maio. As cotações, que chegaram a atingir níveis de R$ 1,64 a R$ 1,65 a libra-peso, entraram em nítida trajetória de queda e já havia indicações de preços abaixo dos R$ 1,60 por libra-peso surgindo em muitos lugares. A entrada de safra no país, que foi muito pequena, e o recuo do interesse de compra por parte das indústrias eram os fatores que pressionavam as cotações. Somava-se a isto o arrefecimento dos preços no mercado futuro norte-americano, que acabava tirando parte do otimismo de quem ainda detinha produto de safra antiga. "Quem estava colhendo, procurou vender rapidamente para garantir boa remuneração e aproveitar o custo reduzido de armazenagem até aquele momento", frisa.

Na primeira quinzena de maio os preços ainda continuaram em queda. No mercado internacional, mais especificamente nos contratos futuros em Nova York, também pesava o forte receio quanto à questão financeira envolvendo a Grécia, que poderia desencadear uma elevação do dólar em um primeiro momento com desvalorização das commodities em geral. Internamente, a entrada gradual da safra ainda que bastante reduzida influenciava negativamente as cotações. "Sempre há alguma pressão de venda, por parte de produtores que precisam formar fluxo de caixa urgente, visando o pagamento de despesas elevadas do período de colheita", explica. Mesmo com poucos volumes negociados, as vendas vão marcando preços para baixo, e dando o tom baixista para o mercado.

A pluma chegou ao final do mês de maio e início de junho já bem pressionada. No mesmo período de 2009, o algodão estava cotado em R$ 1,26 por libra-peso e, em 2008, em R$ 1,28 por libra-peso, também posto fábrica em São Paulo. "Em 2010, o cenário é diferente porque o período de entressafra foi alongado, tornando curtos os estoques da indústria", completa.

Nova escalada
Os preços internacionais em patamares historicamente altos e o dólar valorizado trouxeram suporte às cotações internas ao longo de junho. Assim, a pluma se estabilizou entre R$ 1,50 e R$ 1,51 por libra-peso (cif. São Paulo), para pagamento em oito dias, na base 41-4. No final daquele mês, a fibra entrava em outra escalada de alta, acumulando valorização de 9,27% na média, influenciada pela pouca oferta de algodão com HVI (teste de qualidade), graças ao atraso da colheita. "O avanço dos preços internacionais, que ocorreu na metade do mês, elevou a paridade de importação", acrescenta Biegai.


Preços do algodão

"Esta queda na oferta, se confirmada, pode resultar em considerável necessidade de importação por parte das indústrias do país", comenta Biegai. Nesse caso, a oferta para o pico de entressafra no ano que vem também vai ficar bem apertada.

Devido à safra 2009/10 menor do que o esperado, a tendência é de que haverá um abril/maio de 2011 enxutíssimos de estoques. "Talvez até menores do que foram em 2010", prevê. Por conta disso, várias indústrias estão se agilizando em fechar negócios para recebimento de algodão em março/abril/maio/junho de 2011, a preços considerados excelentes para os produtores. Para se ter uma ideia, há negócios ocorrendo a R$ 1,60 por libra-peso, FOB a retirar, para entrega maio/junho de 2011. "Isso fará com que os produtores de São Paulo, sul do Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Goiás e até mesmo do Paraná prevejam aumento de área considerável", acredita o analista.

O primeiro reflexo muito claro é o das indústrias têxteis tentando se proteger de um cenário de escassez, procurando fechar contratos com os cotonicultores para receber com antecedência. "Por isso, tentarão incentivar o aumento de área plantada em regiões que colhem o algodão mais cedo do que o Mato Grosso e a Bahia", exemplifica. Mas, mesmo assim, é possível que esta medida não seja suficiente. "Provavelmente terão que se programar com importações", prevê. Acrescenta que este algodão deverá ser norte-americano, com destino principalmente ao Nordeste, mas podendo ir também para o Centro-Sul. "Também não é descartada a entrada de algodão paraguaio", completa.

Em julho, o algodão chegou a atingir o patamar de R$ 1,70, já que a oferta estava bastante escassa e os preços em Nova York estavam bem atrativos. Além disso, muitos produtores preferiram a exportação, deixando indústrias preocupadas com o repasse de preços aos consumidores finais", relata. Porém, na segunda semana do mês a cotação da pluma voltou a ficar mais fraca. Com o vencimento do contrato de julho em Nova York, os preços tiveram uma forte queda e os produtores voltaram-se para o mercado interno. "O aumento da oferta de safra nova também contribui para a queda nas cotações", frisa. Além disso, os lotes com teste de HVI já estavam mais abundantes. Em São Paulo, preços sinalizados entre R$ 1,62 e R$ 1,64 a libra-peso cif., na base 41-4, para pagamento em oito dias.

Seguem as boas perspectivas
Para o restante do ano de 2010, a perspectiva projetada para o mercado interno de algodão vai depender crucialmente de dois fatores: o primeiro é o volume final de oferta da safra brasileira 2009/10, e o segundo são os contratos futuros de algodão na Bolsa de Nova York. Inicialmente prevista para ficar em mais de 1,25 milhão de toneladas, as novas estimativas da safra brasileira apontam para números mais modestos, podendo ficar até mesmo abaixo de 1,1 milhão de toneladas.

Os produtores, por sua vez, tendem a responder com aumento de área. A intenção de plantio de Safras & Mercado, divulgada no dia 23 de julho, previu aumento de área em 16% para a próxima safra, alcançando 950 mil hectares, contra 820,44 mil hectares em 2009/10. O incremento no plantio deve ocorrer em todos os estados produtores. No Mato Grosso, principal produtor, o acréscimo chegará a 12,3%, com a área plantada passando de 405 mil para 455 mil hectares. Na Bahia, o salto será de 15%, com o plantio ocupando 295 mil hectares. Em 2009 a semeadura envolveu 256 mil hectares.

O segundo fator é o mercado futuro norte-americano. Se a demanda chinesa continuar aquecida, com dilapidação constante dos estoques globais existentes, o contrato de vencimento em dezembro de 2010 de Nova York pode buscar patamares mais elevados _ próximos a US$ 0,80 por libra-peso ou mais. "E se este cenário internacional coincidir com um doméstico de pouca oferta e em regime de paridade de importação, os preços internos podem acabar ficando muito elevados no período de entressafra brasileira, já a partir de novembro/dezembro de 2010", aposta Biegai.