A Granja do Ano – 34 anos da melhor prestação de informações e serviços ao profissional do campo.

Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

FLORESTAMENTO

TOMBO DAS ALTURAS

Setor florestal, bastante dependente das exportações, foi um dos que mais sofreram com a crise financeira internaciona

A crise financeira mundial atingiu em cheio o setor florestal. Os prejuízos desde outubro de 2008, quando os efeitos da turbulência começaram, até agosto de 2009 desestabilizaram este segmento da economia brasileira que conta com as exportações como principal fonte de receita. Somente o segmento de madeira processada mecanicamente assistiu no primeiro semestre à queda de 51% na receita em dólar dos embarques de madeiras selecionadas.

Para se ter uma ideia da situação, dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) e da empresa de consultoria STCP Engenharia de Projetos, responsável por organizar os números do setor, mostram uma retração de 54% nas vendas externas de madeiras selecionadas de janeiro a abril, passando de US$ 898 milhões para US$ 413 milhões no período. O compensado tropical foi o que apresentou o maior recuo, atingindo 67% no primeiro quadrimestre do ano.

As condições ficam ainda piores quando se leva em consideração também a desvalorização cambial. Desde 2004, quando o processo se intensificou, o setor vem reduzindo as exportações, que representaram 80% do mercado de madeira processada até maio de 2008. Este índice foi baixando conforme a desvalorização do dólar frente ao real se mantinha e agora as vendas externas representam apenas 45% da comercialização. “Estamos preocupados, pois esta situação desfavorável obrigou muitas empresas a fechar as portas e já perdemos muitos associados. Creio que para o segundo semestre não deverá ocorrer grandes mudanças. E para 2010, não temos condições de projetar absolutamente nada”, desabafa Jesiel Adam de Oliveira, superintendente-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (Abimci).

Mercado interno, a esperança — Oliveira espera que o mercado interno possa amenizar a crise. Para ele, os programas do Governo Federal de incentivo à construção civil podem ajudar, porém são insuficientes para resolver todos os problemas. “As empresas que fabricam e comercializam portas de madeira devem sentir alguma melhora no segundo semestre, pois houve muitas construções que iniciaram no ano passado e agora só faltam ser finalizadas”, explica o executivo.

Mesmo com a perspectiva de uma melhora, ele alerta que a crise também afetou a construção civil, estagnada desde maio. “Estamos pleiteando junto ao Governo Federal que haja redução de IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) para os produtos do nosso setor, assim como ocorreu com o automobilístico, para incentivar o mercado interno a partir do segundo semestre. Mas até agora não houve uma resposta”, destaca Oliveira. O superintendente afirma que a justificativa do Governo é de que não há como atender todos os setores da economia, e por isso o valor do IPI para os produtos oriundos de madeira processada deverá ser mantido.

Assim como o setor de madeira processada, o de base florestal também apresentou recuo na receita com as exportações no primeiro semestre de 2009 devido à crise. O impacto neste segmento foi a retração de 17% de janeiro a junho, provocada pela queda no preço da commodity desde outubro de 2008. Em relação ao segmento de papel, a redução de consumo levou à baixa de 18% na receita com as vendas externas. “É difícil estimar o fechamento da receita deste ano, que dependerá do aumento da demanda de produtos no segundo semestre e também de melhor precificação. E, sem dúvida, o impacto da valorização do real é um fator preocupante”, afirma Elizabeth Carvalhaes, presidente da Associação Brasileira de Celulose e Papel (Bracelpa).

A receita com os embarques no primeiro semestre caiu mesmo com um volume maior exportado. Neste período, o volume do embarque de celulose cresceu 18%, passando de 3,3 milhões de toneladas para 3,9 milhões de toneladas. O de papel não conseguiu repetir o mesmo desempenho e registrou queda de 7,4% nos primeiros seis meses em relação ao mesmo período do ano anterior – de 1 milhão de toneladas para 960 mil toneladas.

Esses números refletem alguns dos efeitos da crise em empresas do setor não apenas brasileiras, mas de outros países também. As paradas voluntárias e o fechamento de fábricas de celulose e papel na Escandinávia – região que mais sofreu com a retração da economia neste setor – somadas à demanda de empresas produtoras de papel na China por celulose de melhor qualidade influenciaram as exportações de fibra de eucalipto do Brasil.

China salvadora — A China, por sua vez, foi responsável em não causar um estrago ainda maior nas contas brasileiras. No primeiro semestre de 2009, o volume de exportações de celulose do Brasil para o país asiático cresceu 118% em relação ao mesmo período de 2008, passando de 638 mil toneladas para cerca de 1,4 milhão. No mesmo intervalo, a receita das exportações registrou aumento de 42%, passando de US$ 358 milhões para US$ 511 milhões (Fob). Na comparação do primeiro semestre de 2008 com o de 2009, a participação da China nas exportações brasileiras saltou de 20% para 34% do total. “Se esse crescimento for contínuo e crescente, será positivo para a economia nacional. Mas ainda estamos avaliando o cenário”, ressalta Elizabeth. Para ela, houve, de fato, a busca por celulose de melhor qualidade, uma vez que o mercado chinês é um gigantesco consumidor de papel e não produz celulose de fibra curta com a qualidade da brasileira.

Nos próximos anos, o setor investirá para produzir 20 milhões de toneladas de celulose por ano e, assim, superar a produção da China. As metas de investimento serão estabelecidas de acordo com a nova demanda mundial no pós-crise. Na avaliação da Bracelpa, o Brasil tem condições de ser um fornecedor de primeira linha do mercado chinês, mas isso só ocorrerá se houver uma parceira entre o Governo e as empresas para garantir competitividade.

Segundo Elizabeth, para disputar novos mercados com seus principais concorrentes, o Brasil terá de superar seus próprios limites a fim de garantir a competitividade dos produtos. “Cada dólar fará a diferença na base de custos e no fechamento de um contrato. Isso significa que o esforço de crescimento do setor não deverá ser apenas das empresas, pois o Governo Federal terá um papel decisivo”, alerta a dirigente. As oportunidades para as empresas brasileiras neste cenário envolvem questões como modernização das políticas industriais e das relações trabalhistas, medidas para regulamentação fundiária e expressivos investimentos em infraestrutura e logística, entre outros itens. Para que também tenham isonomia em relação à concorrência, será fundamental a desoneração dos investimentos e das exportações – hoje, da ordem de 17% –, além da aprovação da Reforma Tributária.