A Granja do Ano – 34 anos da melhor prestação de informações e serviços ao profissional do campo.

Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

CITROS

CADEIA DESAJUSTADA

O Brasil é o maior produtor de suco de laranja, mas a concentração e a verticalização do setor têm eliminado citricultores a cada safra

O Brasil ganhou o status de maior produtor mundial de citros e o de maior exportador de suco de laranja nas décadas de 1970/80. Dominava mais de 80% desse mercado, baseado numa citricultura tocada por pequenos e médios produtores altamente capacitados. Essa classe média do campo promoveu a geração e distribuição de renda e emprego nas regiões citrícolas. Os municípios apresentavam os maiores Produtos Internos Brutos (PIBs) e Índices de Desenvolvimento Humanos (IDHs) do país. Mas tudo é cíclico no agronegócio e não poderia ser diferente na citricultura. De acordo com o presidente da Associação Brasileira de Citricultores (Associtrus), Flávio de Carvalho Pinto Viegas, a partir do início da década de 1990, a recessão afetou a Ásia (um mercado em crescimento para o suco brasileiro), a indústria cartelizou-se e iniciou um processo de concentração e verticalização da produção.

“Apesar do ambiente favorável, como crescimento do mercado, queda de produção na Flórida e condições para que o Brasil aumente sua posição de controle deste mercado, a citricultura brasileira está vivendo um de seus momentos mais dramáticos”, adverte Viegas, também presidente da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva da Citricultura e diretor do Departamento de Agricultura da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo (Fiesp). É preciso entender o que aconteceu no início dos anos 1990 para analisar o panorama atual. O dirigente lembra que a etapa mais importante desse processo foi marcada pela venda, em 1993, da Frutesp, empresa controlada por uma cooperativa de citricultores, que dava transparência ao mercado e assegurava ao citricultor participação na renda da cadeia produtiva.

O processo foi agravado em 1994 pela decisão do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) de suspender, mediante um acordo, o processo sobre a cartelização do setor. Esse acordo nunca foi cumprido e foi encerrado em 2000, apesar de uma nova denúncia de cartel ter sido apresentada em 1999 na Câmara Federal e encaminhada ao Sistema Brasileiro de Defesa da Concorrência, onde gerou um novo processo de investigação, que ainda está na Secretaria de Desenvolvimento Econômico.

“O mais grave é que, ironicamente, o acordo proibiu, como era de interesse da indústria, o contrato de participação que havia no setor e assegurava uma negociação coletiva do preço da laranja, mediada pelo Governo e balizada pelos preços do suco no mercado internacional”, explica Viegas. “A alegação do Cade era de que a negociação entre citricultores e a indústria feria as leis da defesa da concorrência e que os próprios citricultores demonstravam descontentamento com o contrato.” Então, as indústrias assinaram, entre si, um contrato mediante o qual fixavam as participações de cada uma no mercado de suco de laranja, dividiam os citricultores, combinavam os preços pagos aos produtores e de venda do suco, estabeleciam regras de compensação em caso de necessidade de ajustes, descreve.

Mercado interno — Assim, segundo o presidente da Associtrus, iniciou-se o processo de concentração e verticalização da indústria de suco de laranja. O processamento de citros concentra-se hoje em quatro empresas (Cutrale, Fischer, Louis Dreyfus e Citrovita) e suas parcerias estratégicas com os grandes engarrafadores (Coca-Cola e Pepsi, entre outros). As empresas, segundo Viegas, têm o controle do setor, desde a produção da fruta até o suco na embalagem final na prateleira do supermercado. Estas empresas controlam também cerca de 50% do processamento de citros na Flórida, o segundo maior produtor mundial de suco.

A situação pesou no bolso de quem produz. A remuneração dos citricultores, que, em valores atualizados, era de US$ 4,5 por caixa de 40,8 quilos (livre de colheita e frete) até meados da década de 1990, caiu para um patamar de US$ 2,5. Além disso, o crescimento dos custos devido às doenças e pragas que apareceram nos últimos anos elevaram as despesas de um patamar inferior a US$ 2 por caixa para o nível atual de custo de US$ 8 por caixa. “Os baixos preços provocaram uma brutal transferência de renda dos produtores para a indústria e impediram que os citricultores renovassem os seus pomares. E, por outro lado, impuseram-lhes perda de produtividade e acúmulo de dívidas, o que provocou a expulsão da maior parte dos pequenos e médios produtores do setor”, garante. Só no estado de São Paulo, desde meados da década de 1990, mais de 20 mil citricultores foram obrigados a abandonar o setor e muitos outros serão inviabilizados se nada for feito.

Mercado externo — Segundo Viegas, o mercado mundial de suco de laranja está dividido. A América do Norte, abastecida pela Flórida, sofre uma grande redução da demanda causada pelo aumento de preços (margens) imposto pelas indústrias e, como consequência, houve um aumento dos estoques. Nos demais mercados, abastecidos pelo Brasil, apesar da crise, a demanda está estável e os estoques estão decrescentes e muito baixos.

Preços despencam — Para a pesquisadora do Cepea/Esalq Margarete Boteon, na temporada 2009/10, novamente, a safra ficará abaixo do potencial produtivo e está estimada em 300 milhões a 310 milhões de caixas. No ano agrícola anterior, chegou a 428 milhões de caixas, segundo dados da Associação Brasileira dos Exportadores de Cítricos (Abecitrus). A Flórida, livre dos furacões que prejudicaram a produção em safras anteriores, deve superar as 244 milhões de caixas da safra passada, ameaçando a liderança brasileira.