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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

AVES

EXCESSO DE PRODUÇÃO

Crise financeira afetou o que seria um ano espetacular para o Brasil. Mas em caso de recuperação global, 2010 poderá ser histórico

Arno Baasch - Agência Safras - Com colaboração do analista Paulo Molinari

Os resultados obtidos pela avicultura brasileira na primeira metade de 2009 demonstram que, como todos os demais, o setor foi seriamente prejudicado pela crise financeira internacional. Os números de produção, exportação e demanda sinalizaram um forte declínio frente a 2008, o que trouxe dificuldades para a cadeia. O primeiro semestre pode ser melhor analisado se for dividido em trimestres. “Com a crise advinda do ano passado, o setor passou por muitos problemas nos primeiros três meses do ano, pois além da retração sazonal da procura interna, o mercado foi pressionado pelo recuo na demanda externa, o que trouxe reflexo nos preços”, destaca o analista de Safras & Mercado, Eduardo Sarmento.

A situação apenas não foi pior devido à decisão do setor em adotar medidas de restrição à produção, reduzindo em 20% os alojamentos de pintos de corte, posição adotada de janeiro a março, para ajustar o quadro de oferta frente à menor demanda, de acordo com a nova realidade de consumo. “A União Brasileira de Avicultura (UBA) exerceu um papel relativamente bom auxiliando as empresas a fazer esse ajuste”, comenta. O reflexo da crise trouxe um menor desempenho nas exportações, que alcançaram 844,5 mil toneladas no primeiro trimestre, queda de 4,1% frente ao mesmo período do ano passado. A produção registrada no período ficou em 2,532 milhões de toneladas e a disponibilidade interna em 1,687 milhão de toneladas, com retração, respectivamente, de 6,45% e 7,6% na comparação com os três primeiros meses de 2008.

O segundo trimestre, por outro lado, indica uma leve recuperação do setor, com melhora dos embarques, que alcançaram 962,7 mil toneladas, alta de 13,99% frente aos primeiros três meses do ano. A produção, que totalizou 2,532 milhões de toneladas, indicou incremento de 3,64% ante o primeiro trimestre. Já a disponibilidade interna sofreu um recuo de 1,53% ante o período janeiro a março, de 1,53%. “Esse fator, somado ao incremento no consumo doméstico e externo, contribuiu para a recuperação do preço do frango vivo no mercado interno, pois representou um recuo na disponibilidade de oferta”, sinaliza. “De modo geral, tivemos três meses ruins, por conta da crise mundial e dos efeitos na demanda. Já nos três meses seguintes houve recuperação da demanda e da venda interna”, acrescenta.

Apesar do crescimento verificado no segundo trimestre do ano, a perspectiva de uma recuperação efetiva do setor avícola pode vir a ser novamente ameaçada pelo excesso de produção. Apostando em melhoras na demanda, especialmente no mercado externo, as indústrias deixaram de lado as medidas de contenção dos alojamentos de pintos de corte. “Houve sobra de oferta no mercado interno e o resultado foi sentido no preço do quilo do frango vivo em julho, que despencou trinta centavos em pouco mais de duas semanas no mercado paulista, passando de R$ 1,90 para R$ 1,60”, comenta Sarmento.

Exportações estáveis — Ao contrário da aposta da indústria em um incremento nas exportações de carne de frango para o segundo semestre de 2009, Safras & Mercado avalia que os embarques deverão ser mantidos por volta de 300 mil toneladas mensais. “Se a produção tiver um incremento significativo, o que é uma tendência bastante provável, por conta da expectativa de maior demanda no final de ano, possivelmente o mercado disporá mensalmente de volumes bem acima das 600 mil toneladas demandadas atualmente, o que irá configurar um quadro de elevada pressão interna”, pontua.

Outro ponto que justificaria uma previsão de produção mais elevada no segundo semestre leva em conta a capacidade instalada das empresas, que não poderia ficar ociosa por muito mais tempo, como ocorreu no primeiro semestre. “Hoje as indústrias vêm trabalhando com alojamentos de pintos de corte inferiores a sua capacidade total. Além disso, existe a questão da forte concorrência entre as empresas. Se uma deixar de produzir e a outra não, a que reduziu as atividades corre risco de perder mercado”, avalia Sarmento.

Em termos de negócios, é possível prever que a valorização cambial seguirá mantendo a receita das exportações em patamares menores na comparação com anos anteriores. “O fluxo de comércio será mais aquecido frente ao primeiro semestre, mas possivelmente os preços seguirão pressionados tanto no mercado interno, por conta da maior oferta, quanto no externo, diante do real mais forte ante o dólar”, comenta. Safras & Mercado entende que, apesar de um crescimento da produção na segunda metade do ano, alcançando 5,754 milhões de toneladas de carne, volume superior às 5,156 milhões de toneladas registradas no primeiro semestre, o Brasil sentirá os reflexos da crise financeira mundial no fechamento de 2009, com um volume total produzido de 10,910 milhões de toneladas, abaixo das 11,021 milhões registradas em 2008.

A exportação prevista para o segundo semestre poderá ficar próxima a 1,807 milhão de toneladas na primeira metade de 2009, com o país fechando o ano com embarques da ordem de 3,607 milhões de toneladas, com recuo de 1,05% sobre as 3,645 milhões de toneladas exportadas em 2008. A disponibilidade interna talvez seja o principal fator de preocupação para o segundo semestre, podendo alcançar um volume de 3,954 milhões de toneladas, superando em mais de 600 mil toneladas as 3,349 milhões de toneladas ofertadas no mercado interno no período de janeiro a junho. “Se confirmada, o setor irá ofertar no mercado interno quase 100 mil toneladas a mais de frango nos últimos seis meses do ano em relação ao primeiro semestre, o que provavelmente trará grandes dificuldades ao mercado em termos de preço” sinaliza Sarmento.

Apesar disso, a disponibilidade de frango estimada para 2009 em 7,303 milhões de toneladas ainda será menor que a registrada no ano passado, de 7,376 milhões de toneladas. “Se não fosse a crise internacional, o Brasil certamente fecharia o ano com recordes na produção e exportação, algo que poderá ser pensado a partir de 2010, caso haja uma efetiva recuperação na economia mundial”, conclui Sarmento.