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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

LEITE

NO OLHO DO FURACÃO

Indústria brasileira perde competitividade no mercado internacional e abre lacuna para importações

A produção leiteira não ficou imune à crise econômica mundial. Do ‘‘boom’’ de 2007 e 2008, impulsionado pelo aumento de 4% no consumo mundial de leite, o segmento voltou a ser assombrado pelo fantasma das importações, que vem, inclusive, merecendo especial atenção do Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), após reivindicações da classe ruralista. Sem crédito, os países importadores cessaram suas compras pressionando as cotações para baixo. A tonelada de leite em pó, que antes custava, no mundo, US$ 4.000 durante o primeiro semestre de 2008, valia apenas US$ 2.000 em julho de 2009, condição ainda agravada pela valorização do real frente ao dólar. No Brasil, a mesma tonelada não saía por menos de US$ 3.800, de acordo com informações de Rodrigo Alvim, presidente da Comissão Nacional de Leite da Confederação de Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

A inversão minou a competitividade da indústria brasileira e abriu margem para as importações. “Considerando apenas o primeiro semestre (de 2009), nossa balança comercial láctea está deficitária em US$ 50 milhões, sendo que de janeiro a junho de 2008 registrávamos superávit de US$ 238 milhões”, informa Alvim. Segundo ele, boa parte das compras tem origem na Argentina e no Uruguai. Nos primeiros seis meses de 2009, os argentinos exportaram ao Brasil 38 mil toneladas, 16 mil a mais que o negociado em todo o 2008. Os uruguaios mais que dobraram os embarques: de 4,5 mil toneladas em 2008 para 11,6 mil somente na primeira metade de 2009. Os parceiros de Mercosul se aproveitaram da tarifa menor para escoar excedente, porém o produto chegou sob suspeita de dumping. “Em abril, por exemplo, foi enviado ao Brasil leite em pó a US$ 1.390 por tonelada, bem abaixo da média internacional de US$ 2.200”, relata o dirigente.

Com a Argentina já se chegou a um acordo. Os desembarques de leite em pó em nossos portos foram limitados a 3.000 toneladas mensais, como informa Marcelo Pereira de Carvalho, diretor-executivo da Agripoint, e o preço não pode ser inferior aos US$ 2.200/tonelada. Os mesmos termos são estudados com o Uruguai. O MDIC também cancelou as licenças automáticas, pelas quais mais de 30 mil toneladas aguardavam liberação. “Agora, as importações são liberadas caso a caso e para o leite de fora do Mercosul é aplicada a Tarifa Externa Comum (TEC) de 27% e, em alguns casos, antidumping de 16%”, explica Carvalho. Alvim defende a consolidação da TEC em 30% às nações extrabloco. “Atualmente, entradas originadas da União Europeia são tributadas em 27% (lista de exceção), acrescidas de 14,8% de direito antidumping”, avalia. O recente surto de importações desestimulou os produtores.

Mercado interno — Com a reviravolta, 2009 começou, para o produtor, com custos elevados em 10%, preços 20% menores e queda de produção, reduzindo o índice de captação de leite (ICAP-L) em 7% no primeiro quadrimestre, atribuído também à estiagem do Sul e ao excesso de chuvas no Norte e Nordeste. Desde então, as quedas foram sucessivas com pequena recuperação no ICAP-L apenas em julho, de 0,86%. Um sensível aumento na busca por alimentos elevou a procura por leite, que junto com a queda da oferta e o aumento de preço do UHT puxou os preços pagos ao produtor para cima. “O problema é que os reajustes não chegam ao produtor com a mesma intensidade que atingem laticínios e varejo. Ele é o primeiro que baixa preço e o último que recebe aumento”, destaca Jorge Rubez, presidente da Leite Brasil. Em junho e julho de 2009, o preço do litro teve aumento de 6% e 7%, respectivamente, enquanto o UHT subiu 11%. Em abril/maio o derivado bateu em 24%, enquanto ao produtor a valorização foi de 6%.

De acordo com dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq), em julho de 2009, a média calculada nos estados da BA, GO, MG, SP, PR, RS e SC ficou em R$ 0,77/litro, e no levantamento da Scot Consultoria, em 0,74/litro. “Desde o início do ano o produtor teve reajuste de 26%”, revela Rafael Ribeiro, consultor da Scot. O problema é o alto custo de produção. “O produtor está pagando R$ 0,70/ litro”, analisa Rubez. Difícil é saber o que o futuro reserva. “Ninguém sabe o que esperar e o período de safra está chegando. Torcemos para que a intensidade da crise econômica diminua. É a maior dos últimos 50 anos”, avaliou, em julho de 2009, Rodrigo Alvim, da CNA.

Marcelo Carvalho, da Agripoint, diz que a grande alternância vivida dificulta previsões mais concretas, mas vê uma luz no fim do túnel. “Teremos mais leite no final do ano, após um primeiro semestre bastante fraco. O final de 2009 e início de 2010 serão complicados em termos de preços. A atenuante é que devemos ter soja e milho em cotações mais aceitáveis”, conclui Carvalho. Rubez acredita em estabilidade quanto ao produtor e que a tendência são preços entre R$ 0,70-0,75/litro.