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BOI GORDO

MERCADO SOB MAU TEMPO

Crise econômica afetou a demanda mundial e as exportações brasileiras e trouxe grave crise de liquidez nos frigoríficos. Mas há sinais de recuperação

Vanda Araújo - Agência Safras - Com colaboração do analista Paulo Molinari

O mercado brasileiro de boi gordo terminou o primeiro semestre de 2009 na busca da confirmação de alta de preços para a entressafra do ano. A exemplo das demais commodities, os preços praticados no período terminaram em níveis mais baixos se comparados aos do primeiro semestre de 2008, evidenciando efeitos da crise econômica mundial. “As dificuldades em relação a 2008 refletiram a queda no perfil das exportações, a crise de liquidez nos frigoríficos e a retomada da valorização cambial. Contudo, os preços do boi gordo ainda entraram o ano acima dos patamares equivalentes a 2008”, enfatiza o analista de Safras & Mercado, Paulo Molinari.

Os bons preços de início de ano tiveram justificativa no quadro de entrada de safra ainda com baixa oferta e na posição adotada pelos pecuaristas de não venderem boi diante da crise econômica mundial. “O boi atuou como uma reserva de valor neste período de crise. Os preços iniciaram o ano acima dos patamares de 2008, mas fecharam o primeiro semestre em patamares inferiores aos de 2008 devido à acomodação da demanda de exportação e a pressões sazonais de venda”, avalia o analista. Destaca que, como o primeiro semestre é um período de safra, é natural a existência de variáveis de maior pressão sobre as cotações.

No início da safra 2009 os preços do boi gordo ainda eram bastante razoáveis, mais por uma defesa de patrimônio por parte do pecuarista do que por indicadores de demanda. Ao longo do semestre, no entanto, o mercado se equilibrou e fechou junho com patamares bem inferiores aos de 2008. “A sazonalidade da safra, uma oferta de pastagem atrasada e o baixo fluxo de exportações provocaram esta acomodação dos preços internos, mesmo com um abate 15% abaixo de 2008”, explica Molinari.

De acordo com o analista, os indicadores de 2009 são completamente diferentes em relação a 2008 e o perfil para o boi gordo também é diferente. Inicialmente, a crise econômica foi aguda nos últimos nove meses, afetou a demanda mundial e as exportações brasileiras e trouxe grave crise de liquidez nos frigoríficos. Para o segundo semestre de 2009, a visão é de início de recuperação econômica, o que pode ajudar a demanda de exportação e também a demanda interna.

Mas o analista antecipa que o mercado precisará de demanda para dar suporte aos preços, mesmo porque a oferta de outras carnes, como frango e suíno, é bastante elevada e pode distorcer este quadro de consumo para a carne bovina. “A questão de mercado está na oferta menor desta entressafra 2009 e qualquer reflexo na demanda poderá impactar em alta de preços. A variável alta é bem inferior à 2008, com expectativa de preços entre R$ 84/88 à arroba base São Paulo, nesta entressafra”, visualiza o analista.

Sinais de recuperação — A expectativa, a partir do segundo semestre de 2009, recai sobre a recuperação continuada dos embarques de carne bovina. As apostas do setor estão concentradas na possibilidade de um início de recuperação do quadro econômico mundial, na desvalorização do dólar e na recuperação dos preços do petróleo. Com a atividade econômica voltando a dar sinais de recuperação, a demanda no setor carnes tende a ser favorecida.

Em junho de 2009, o embarque de carne bovina atingiu 175,3 mil toneladas, em equivalente carcaça, acima das 172 mil toneladas embarcadas no mesmo período de 2008. Foi o primeiro mês desde outubro de 2008 em que o mercado teve um número efetivamente positivo em relação ao mesmo período anterior. A carne bovina ‘‘in natura’’ puxou a recuperação com 139,3 mil toneladas embarcadas, 13 mil toneladas acima de junho de 2008.

“Este é um ótimo sinal em uma economia mundial que começa a oferecer sintomas de um segundo semestre melhor em relação ao primeiro. Uma demanda interna em recuperação e uma demanda externa voltando a comprar melhores volumes podem ajudar os preços do boi gordo”, observa o analista de Safras. Entre os blocos que devem melhorar o perfil de compras no segundo semestre figuram Chile, Rússia, Oriente Médio e Ásia. Também se espera uma recuperação nas importações de carne bovina industrializada por parte dos Estados Unidos, o que ajudaria de forma significativa a composição dos resultados das vendas brasileiras.

Centro-Oeste — Enquanto as exportações não melhoram, o ponto central para a curva de preços se concentra na oferta de boi gordo. Com uma safra 2009 discreta, é difícil acreditar que haverá uma recuperação da oferta na entressafra, pondera o analista de Safras. A dúvida, na opinião dele, é se esta queda de oferta se ajustará de forma mais fácil a uma demanda também mais acomodada. A demanda interna já acusou acomodação derivada da recessão neste primeiro semestre e não parece ser a sinalização para o segundo semestre. O confinamento será menor e uma demanda melhor do que a esperada ou uma recuperação nas exportações podem trazer realmente uma configuração de altas sólidas para o boi gordo, conjectura Molinari.

Este movimento de suporte de preços frente a uma condição de baixa liquidez na comercialização, no entanto, exigirá atitudes dos pecuaristas, se a meta for mudança de patamar nas cotações. Uma delas, segundo o analista, é promover uma comercialização mais ajustada em momentos específicos da demanda, como a virada de mês. A sazonal demanda de virada de mês continua sendo um ponto importante e fundamental para a tentativa de altas de preços do boi, principalmente tratando-se de um início de entressafra. Molinari observa, no entanto, que essa alta deve ser alavancada por uma retração da oferta.

“O perfil da oferta e demanda no início de segundo semestre revela que, para os preços do boi gordo voltarem a registrar novas altas em São Paulo, os preços no Centro-Oeste terão que também mudar de patamar”, destaca. “O estado de Mato Grosso do Sul continua contendo os preços em São Paulo e se desejar alguma melhoria geral das cotações terá que procurar patamares de R$ 77/78 à arroba nos próximos dias”, antecipa o analista.

Exportações em queda — O mercado brasileiro de carnes fechou o primeiro semestre de 2009 com receita cambial nas exportações em US$ 5,07 bilhões, 21,9% inferior à receita de US$ 6,49 bilhões de igual período de 2008. A queda é atribuída em particular à retração nos preços médios de exportação ao longo do semestre, um ajuste derivado da crise econômica e do reequilíbrio de preços após os recordes de 2008. O volume embarcado, de 3 milhões de toneladas no período, no entanto, cedeu apenas 4,7%, com perda de 150 mil toneladas neste semestre em relação ao mesmo período de 2008.

“A queda em volume foi neutralizada pelo surpreendente melhor resultado nos embarques de carne suína e na recuperação dos embarques de carne de frango. A carne bovina continua tendo o pior resultado do ano”, avalia o analista de Safras. Para o segundo semestre, ele diz que as expectativas estão atreladas ao ritmo de recuperação da economia mundial e dos principais importadores brasileiros, como Estados Unidos, Rússia e Europa. Um dos pontos negativos, na sua opinião, é o descompasso entre este ritmo de recuperação econômica e a valorização do real. Esta valorização exagerada do real poderá forçar os exportadores a elevarem os preços em dólar na exportação antes de uma devida recuperação econômica capaz de absorver preços mais altos.

Para o analista, os resultados na balança comercial do setor carnes brasileiro em 2009 refletem o quadro econômico mundial, o excesso de oferta interna e a desvalorização do real ao longo do primeiro semestre. “A pressão externa pela retração de importação nos principais consumidores, a valorização do dólar e uma pressão interna de venda devido à melhor condição cambial e altos estoques forçaram o Brasil a baixar preços na exportação e buscar o mínimo mercado possível em meio à crise”, avalia Molinari.

O aperto no crédito foi outro indicador fundamental dentro deste processo, pois levou os exportadores a buscarem as vendas no mercado à vista ou com pouco financiamento, numa situação em que o importador não estava no mercado. Diante desse conjunto de fatores, os preços médios da carne bovina cederam de US$ 4.500/tonelada, no pico da alta em 2008, para US$ 3.000 no pior momento do primeiro semestre de 2009. Na carne suína, os preços cederam de US$ 3.000 para US$ 1.900/tonelada e na carne de frango, de US$ 2.100 para US$ 1.450/tonelada entre 2008 e 2009.

Repercussão nos frigoríficos — Mas a crise econômica trouxe ajustes para o setor carnes no Brasil e no mundo e os resultados do primeiro semestre representam este conjunto de acontecimentos com reflexos no setor exportador brasileiro. Um ponto importante no entendimento do desempenho de cada segmento é o de que a recessão trouxe modificações no perfil de consumo mundial, faz questão de assinalar o analista. Lembra que em toda recessão produtos de valor agregado mais elevado perdem força no consumo e que em 2009 o reflexo negativo vai ocorrendo pelo lado da carne bovina.

Dados consolidados mostram que as exportações brasileiras de carne bovina atingiram 919,2 mil toneladas em equivalente carcaça, no primeiro semestre de 2009, volume 13,1% inferior ao de igual período de 2008. O resultado foi o pior no semestre desde 2004, quando o setor embarcou 810 mil toneladas. Além da queda no resultado em volume embarcado, a baixa nos preços médios trouxe uma razoável queda de receita cambial, com o Brasil atingindo US$ 1,81 bilhão no primeiro semestre contra US$ 2,4 bilhões de igual período de 2008, queda de 25,2%.

“Esta condição explica a situação do setor frigorífico brasileiro devido à queda de margens de operação e faturamento. Agora, espera-se que o perfil de volumes no segundo semestre se recupere em alguns segmentos, em particular na carne bovina”, diz o analista de Safras. Molinari salienta, no entanto, que ainda não há esperança de forte recuperação nos preços médios em dólar e que esta é uma situação que poderá manter comprometida as margens do setor, já que a taxa cambial que chegou a se manter acima de R$ 2,50 no início de 2009 operava abaixo de R$ 1,90/dólar em agosto. Na sua opinião, não há como o setor compensar a valorização cambial para manter margens de operação sem uma alta de preços em dólar, o que, num quadro ainda recessivo, inibe o potencial de consumo.