A Granja do Ano – 34 anos da melhor prestação de informações e serviços ao profissional do campo.

Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

FEIJÃO

PRODUTIVIDADE É O SEGREDO

O produtor não aumentará a área, mas vai produzir mais. E o mercado está pagando acima do preço mínimo do Governo

Laura Ruschel - Agência Safras - Com colaboração do analista Rafael Poerschke

A movimentação da safra 2009/ 10 já começou. Agora, a preocupação dos produtores fica com a quantidade a ser plantada. Em 1988 a área cultivada com feijão ultrapassou os 5 milhões de hectares no Brasil. De lá para cá a produtividade da cultura mais que dobrou, sua área recuou 55% e a produção cresceu. Essa tendência fornece uma pista do caminho a ser seguido pelo produtor na próxima temporada.

O preço, por outro lado, não é o mais alto que o mercado já viu Mas sua média (do tipo 2) é superior ao preço mínimo garantido pelo Governo. É um cenário complexo que aguarda uma decisão difícil, visto o risco dessa cultura. O ciclo de negócios para essa temporada diante disso não está bem definido. O recuo previsto de mais de 300 mil hectares no Centro-Sul na área de milho pode fazer alguns agricultores apostar no feijão. Porém, essa temporada não foi excelente do ponto de vista produtivo. As quebras de safras descapitalizaram parte dos agricultores e não há perspectiva de alteração abrupta no consumo.

O preço de julho de 2009 do feijão carioca tipo 1 acumula uma desvalorização de 24% no ano, cotado a uma média de R$ 97,93. Para o tipo preto o cenário não difere, além de ser mais agudo. Os R$ 88,17 pagos em média pela saca de 60 quilos (base atacado) acumulam uma retração de 31% em 2009. Segundo o analista de Safras & Mercado Rafael Poerschke, a tendência dos preços no curto prazo é positiva, pois tendem a encontrar suporte na sazonalidade da safra e se firmar a partir de meados do terceiro trimestre de 2009. “Porém, para a próxima temporada a consistência dessa recuperação é dúbia entre os agentes de mercado”, completou o analista. O fator preponderante de suporte em curto prazo está baseado em uma terceira safra que representa 22% do total das três safras brasileiras. Nesse sentido, esse comportamento histórico vai ao encontro de uma demanda que tem trabalhado com estoques muitos curtos. A necessidade de garantir preço no segundo trimestre tende a elevar a procura de atacadistas.

Quanto ao consumidor, os índices de inflação historicamente demonstram um consumo mais aquecido no segundo semestre. Porém, as alterações de renda do consumidor final e preço do bem são pouco elásticas em relação à quantidade consumida. A única mudança significativa só ocorrerá com uma maior redistribuição da renda no país, processo que caminha em marcha lenta. Essa (re)acomodação do mercado pode garantir que a leguminosa recupere parte da desvalorização até que a safra nova entre no mercado em meados de outubro/novembro.

Produtor planeja 2010 — Em meio à colheita da terceira safra que toma corpo em Minas Gerais, São Paulo e Nordeste, o produtor de feijão faz as contas para o plantio da próxima temporada. O bom preço mínimo (R$ 80), a dinâmica cíclica da cultura e a alta dependência das condições climáticas são os primeiros indícios de como será a Safra das Águas de 2009/ 10. Demais fatores fundamentais como comércio internacional e consumo são de pouca importância na medida em que a leguminosa depende exclusivamente de uma oferta interna e com uma demanda que cresce em ritmo moroso e marginalmente ano a ano. A média de preço do primeiro semestre de 2009 atingiu R$ 100,97, superior ao preço mínimo garantido pelo Governo. A avaliação parece ser positiva, porém a baixa liquidez do mercado no primeiro semestre levou a uma redução da margem de comerciantes e atacadistas. Mesmo com uma temporada de preços 50% inferiores à média de janeiro/julho de 2008, a comercialização foi prejudicada.

A perspectiva de uma tendência de baixa consistente levou compradores a adotar uma postura de aquisições apenas para necessidades imediatas. O varejo também seguiu a mesma estratégia, trabalhando com estoques curtos a fim de evitar a elevação do preço médio, evitando grandes aquisições frente a uma tendência baixista de preços. “Diante desse cenário, o produtor vai pensar duas vezes antes de aumentar horizontalmente sua área na temporada que se avizinha, ou seja, deverá prezar mais pela qualidade dos insumos, sementes e cuidados com a lavoura”, afirmou Poerschke. Calcando assim o crescimento de sua produção na produtividade e não no aumento da área, que muitas vezes pode ser prejudicada pelo clima ou mesmo pela extensão que diminui os cuidados dependendo do nível de tecnologia de plantio, colheita e cuidados adotados. E os dados da cultura comprovam essa tendência de ganhos em produtividade, em todas as culturas. Já as importações apresentaram uma forte queda no primeiro semestre de 2009 depois de haver batido recorde em 2008. Nesse sentido, o equilíbrio da oferta no mercado interno garantiu o suprimento inibindo importações, principalmente, da China.

Do ponto de vista do consumo, é esperada uma projeção de crescimento marginal. A tendência é positiva, porém seu ângulo de inclinação é muito tímido e baseado na ascensão social de algumas famílias, aumento do emprego pós-crise e programas assistenciais do Governo. Diante do atual cenário e com uma produção praticamente estável, os produtores são novamente reféns das circunstâncias e da própria decisão de quanto irão produzir nessa temporada.

Mais produção, menos área — Finalmente, o saldo para a primeira safra 2009/10 brasileira aponta uma retração de 4,53% na área atingindo 1,378 milhão de hectares ante 1,443 milhão da temporada anterior. Contudo, a produção deverá crescer 1,83% e atingir 1,4 milhão de toneladas em função da recuperação da produtividade na Região Sul e Sudeste. As secas que atingiram essas regiões rebaixaram a produção de primeira e segunda safras. Caso não se repita esse fenômeno, e vislumbrando um futuro de condições normais, a produtividade deve compensar a retração da área prevista para a primeira safra 2009/10.

Esse equilíbrio só pode ser alterado caso o Governo decida reajustar, para cima, o preço mínimo vigente de R$ 80 ou alterar os valores de programas assisteciais, inibindo assim o recuo da área em algumas regiões. Também é preciso atenção para o atual cenário do milho no mercado interno, pois o mesmo pode influenciar positivamente no plantio da leguminosa, atenuando a queda de área prevista nas regiões Centro-Oeste e Sul em 2009/10. Verificado esse cenário e mantida a expectativa dos produtores, é preciso cautela na hora de plantar e adquirir insumos. A próxima temporada pode reservar mais um período de preços sob pressão de oferta, além de um primeiro semestre com baixa liquidez caso se repita a conjuntura de 2008/09.