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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

CAFÉ

NOVA REALIDADE À VISTA

A crise financeira internacional atingiu o mundo do café, que agora busca se ajustar às circunstâncias globais

Lessandro Carvalho - Agência Safras - Com colaboração do analista Gil Barabach

O mercado internacional de café apresentou diferenças marcantes nas últimas duas temporadas comerciais. A mais visível talvez seja, naturalmente, o tamanho da produção. Só no Brasil a queda projetada para 2009 é de 17%, diante do ciclo bienal da cultura, que alterna anos de safra maior com temporadas menos produtivas (este é de safra de baixa produção). Mas, segundo o analista de Safras & Mercado Gil Barabach, a mais determinante diferença advém do reflexo da crise financeira. A “hecatombe” financeira ganhou contornos mais dramáticos em setembro de 2008, ainda nos primeiros meses da temporada comercial 2008/09 (julho-junho). E isso foi determinante para os rumos do mercado, independentemente de qualquer outro fator fundamental, comenta Barabach. Agora, enquanto o mundo tenta se reerguer do baque financeiro, uma nova temporada se inicia para o café.

Para Barabach, do ciclo passado, fica o impacto da larga produção mundial. E ela era para ser maior, já que as projeções preliminares apontavam para uma safra global acima das 140 milhões de sacas de 60 quilos. Não alcançou tal dimensão devido aos problemas na Colômbia e na América Central, devendo totalizar, com base nos números do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), algo como 134,7 milhões de sacas.

O problema com os cafés “lavados” – produzidos na Colômbia e América Central – levou a duas consequências diretas sobre o mercado, analisa Barabach. Primeiro, que a quebra da safra dessas origens diminuiu a produção e por isso reduziu o excesso projetado de café para o ciclo produtivo. A segunda consequência é que resultou em uma valorização dos lavados em relação aos demais cafés, com prêmio do café colombiano disparando. Como resultado, houve uma maior procura pelo produto brasileiro, o que alavancou as exportações nacionais ao longo do primeiro semestre de 2009, ressalta o analista de Safras. “Pena que a maior procura não se transformou em incremento proporcional na receita, com os cafés naturais brasileiros sendo negociados com muita desvalorização se comparados aos cafés lavados colombianos”, lamenta Barabach.

Mas, por conta da crise mundial, o mercado de café só começou a refletir essa realidade de oferta mais apertada bem no final da temporada, em torno de abril/maio. Ao final da temporada 2008/09, os estoques não subiram aos patamares esperados inicialmente e predominava a sensação entre as indústrias de escassez, de possível falta de produto, pondera Barabach.

Mercado baixista — A temporada 2009/10 iniciou com toda essa bagagem do ciclo anterior. Em alguns casos, como na questão financeira mundial, a situação ainda não está bem resolvida, propõe o analista. Já o quadro fundamental para o mercado de café é mais positivo. A quebra na safra brasileira, com produção projetada em 42,5 milhões de sacas frente aos 50,9 milhões do ano passado, sustenta essa leitura, que projeta aperto na oferta para o final da temporada, diante dos baixos estoques de passagem, diz Barabach.

Os números do USDA se alinham com essa ideia de oferta ajustada, indicando 127,4 milhões de sacas para o ciclo 2009/10 no mundo, o que corresponde a uma queda de 5% em relação ao ano anterior. Os estoques de café devem cair a 35,3 milhões de sacas ao final da temporada, recuo de 12% sobre o ano anterior. Enfim, o USDA ratifica esse quadro de aperto na oferta, destacado na variação negativa dos estoques, afirma o analista.

Tudo parecia bem com essas sinalizações altistas dos fundamentos para os preços. Mas não foi e não é bem assim o rumo dos acontecimentos com o café. “O curto prazo é amplamente marcado pela pressão sazonal”, avalia Barabach. A chegada da safra nova do Brasil por si só já pressiona para baixo as cotações internacionais. “A safra é menor, mas chegou sem proteção. Ao contrário de anos anteriores, o produtor comprometeu com vendas menos de sua produção antecipadamente. Assim inicia a temporada, em que a necessidade de caixa aumenta por conta das despesas com colheita, com potencial de venda reprimido e precisando negociar”, aponta Gil Barabach.

Boa parte dos produtores não aproveitou os melhores momentos para a venda antecipada da safra, como no “repique” de preço de maio. “Ou por acreditar em algo mais em termos de preço, ou mesmo em função da limitação de tempo, visto que o movimento de alta foi breve, com o mercado logo sentindo os efeitos negativos do avanço da oferta de café novo”, comenta Barabach. Também não houve grande agressividade do lado dos compradores, ressabiados e cautelosos por conta dos desdobramentos econômicos da crise. “A verdade é que houve um maior interesse de venda na entrada de safra, diferentemente de anos anteriores”, comenta.

Contrassenso — “Pode até parecer um contrassenso que, em um ano de baixa produção e superado o pior momento da crise mundial, a situação no mercado de café aparentemente tenha piorado para o produtor”, pondera o analista de Safras. Mas o fato é que, depois da pressão da colheita e do avanço da oferta de produto novo no mercado, os operadores deixam de olhar para a safra vigente e começam as conjecturas em torno da safra nova. E não é demais lembrar que dentro da lógica bienal o país colherá uma safra grande em 2010. A questão toda volta a ser o clima, só que agora a atenção se concentra na quantidade e na regularidade de chuvas sobre as áreas cafeeiras.

Barabach aponta que em anos que antecedem uma safra grande, a pressão sazonal se alonga por mais tempo e os preços reagem na entressafra de forma menos expansiva, em virtude da produção grande que se aproxima. E esse parece ser o caso do mercado de café, que tem potencial de alta na entressafra, por conta dos estoques baixos. A valorização pode ser limitada, justamente, pela grande safra que será colhida no próximo ano. Ainda assim, Barabach conclui que em 2009 as variáveis financeiras esboçam reação, enquanto a oferta de café tende a cair. “Enfim, uma configuração mais favorável ao avanço das cotações do café.”