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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

BIODIESEL

O FUTURO ESTÁ NO MERCADO LIVRE

Com a adoção das negociações livres em vez dos leilões, como no caso do etanol, o Brasil pode gerar biodiesel suficiente para adotar o B10

Lessandro Carvalho - Agência Safras - Com colaboração do analista Miguel Biegai Jr.

O mercado de biodiesel brasileiro segue caminhando a passos moderados. Já poderia estar mais avançado em termos de tamanho, demanda obrigatória, flexibilizações tributárias e de mercado. Já poderíamos estar falando em um mercado com demanda obrigatória de B5 devido à grande capacidade instalada atualmente no país, e também com negócios ocorrendo de forma livre entre usinas e compradores. Por outro lado, se considerarmos o período de crise por que o mundo passou entre o segundo semestre de 2008 e o primeiro semestre de 2009, o fato de vermos o mercado operando em B4 leva à conclusão de que também a situação de momento não é tão ruim.

De acordo com o analista de Safras & Mercado Miguel Biegai Jr., os leilões foram importantes para solidificar o mercado e o setor criar canais de recebimento do produto. Mas é chegado o momento de se pensar em mercado criando seus próprios canais de escoamento de venda do biodiesel. E isso só se consegue com negociações livres, como já ocorrem no etanol. Essa medida terá que ser buscada para o médio e longo prazos, avalia Biegai.

O B10 é considerado o alvo principal do Governo brasileiro para o longo prazo. Com esse montante de produção de biodiesel, a necessidade de importação de diesel mineral, ou de petróleo leve, para produzir diesel no país poderia ficar bastante reduzida, fazendo com que o país passe a trabalhar efetivamente na autossuficiência de petróleo. Produção de biodiesel próxima aos 4 milhões de metros cúbicos no Brasil, em teoria, pode começar a formar um mercado de exportação regular de biodiesel, pensa o analista.

O mercado de exportação é particularmente interessante, na medida em que as necessidades internas estiverem sendo razoavelmente cumpridas. Biegai avalia que os estoques mundiais de petróleo ainda devem durar cerca de 40 anos, mas o custo de extração do óleo só tende a aumentar de agora em diante, gerando suporte para os preços. Os grandes poços terrestres do Oriente Médio, dos EUA e da Rússia já são explorados há décadas, e os poços remanescentes ficarão cada vez mais restritos à exploração submarina, cujos custos são elevados. Além do aumento de custo, há também o fator de insegurança do mercado. A grande maioria das reservas mundiais está localizada em regiões de forte instabilidade política ou religiosa, onde conflitos, sabotagens e terrorismo são a regra e não a exceção, diz o analista.

Devido a isso, o mundo todo está canalizando as atenções para fontes de energias renováveis, e uma das principais é a bioenergia, defende Biegai. Os dois principais combustíveis derivados do petróleo, a gasolina e o diesel, podem ser perfeitamente substituídos por álcool etanol e biodiesel, respectivamente, produzidos a partir de uma ampla gama de produtos de origem vegetal, ou até mesmo animal, como no caso do biodiesel de sebo bovino. A energia elétrica será cada vez mais suprida por fontes renováveis, como energia eólica, solar concentrada ou fotovoltaica. A energia nuclear também terá especial destaque nos próximos anos. Mas a energia necessária para movimentar automóveis de todos os tamanhos terá que continuar sendo na forma líquida, pelo menos por mais umas duas décadas. Como o diesel fóssil é a energia líquida mais consumida no mundo, é natural que o biodiesel seja o combustível que tem um enorme potencial de expansão de mercado, comenta o analista.

Para o Brasil, a era da bionergia só tem a trazer benefícios. Trata-se do país que tem o maior conjunto de vantagens comparativas e maior abundância de insumos necessários para a produção de energia renovável: terra, água, e sol o ano inteiro. Mas esta expansão, apesar das vantagens comparativas do país, está condicionada em boa parte à estratégia e à gestão do crescimento deste setor para os próximos anos. E isso necessariamente passa pela adoção do mercado livre de negociação, no médio prazo.

Cotação do óleo em queda — As cotações do óleo de soja, principal insumo utilizado pelas indústrias de biodiesel no Brasil, estão nos menores patamares em dois anos no mercado interno no começo do segundo semestre de 2009. Segundo sondagens diárias realizadas por Safras & Mercado, a cotação do óleo de soja, posto São Paulo, está em cerca de R$ 1.600 a R$ 1.650/tonelada. Cotação inferior a essa só foi vista pela última vez no primeiro semestre de 2007. No primeiro semestre de 2008, o óleo de soja chegou a custar quase R$ 3.000/tonelada. Não por acaso, os contratos futuros de óleo de soja na Bolsa de Chicago também estão em patamares bastante baixos.

Na atual conjuntura, algumas usinas de biodiesel estão se beneficiando desse cenário de queda nas cotações internas de óleo de soja. No período de formação e fixação dos preços de entrega do biodiesel, em leilões promovidos pela Agência Nacional do Petróleo (ANP), as cotações do óleo estavam em níveis mais altos, se aproximando da linha de R$ 1.900/ tonelada. Isto, de certa forma, influenciou a fixação dos preços de abertura dos leilões em R$ 2,36/litro.

Segundo Miguel Biegai, para as indústrias que adotaram a “controversa” estratégia de comprar óleo de soja somente no mercado físico spot, para fabricação do biodiesel, está havendo uma captação de lucro maior do que a prevista. É que os preços fixados de venda de biodiesel (em uma média de R$ 2,30/ litro) foram determinados levando em conta que as cotações do óleo de soja no terceiro trimestre de 2009 poderiam ficar ao redor de R$ 1.900 a R$ 2.000/tonelada no mesmo período. Como o preço do óleo de soja tem recuado desde então, a margem operacional tem ficado amplamente positiva.

Esta estratégia, porém, tem seu reverso, pondera Biegai. Adquirir o produto unicamente no físico spot implica assumir 100% do risco de alta dos preços para o período. Assim como o mercado caiu, dando um lucro maior do que o esperado (em caso de manutenção dos preços), também poderia ter subido vertiginosamente como ocorreu no segundo semestre de 2007 e primeiro semestre de 2008, causando enorme prejuízo para a usina. “Quem travou preços a mercado futuro, não aumentou o seu lucro, mantendo-o relativamente estável. Mas também não correu riscos para o caso do mercado subir”, avalia o analista de Safras. Para Biegai, a melhor estratégia é combinar as duas ações, mantendo ao menos uma parte “travada” em futuros e dólar, para garantir alguma remuneração, ao mesmo tempo em que outra parte deve ser reservada para operações de aquisições a mercado físico spot, para o caso dos preços caírem.