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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

ALGODÃO

A IMENSIDÃO CADA VEZ MENOR

Pela segunda safra consecutiva as lavouras algodoeiras no Brasil foram reduzidas. A crise financeira global explica a área menor

Rodrigo Ramos - Agência Safras - Com colaboração do analista Flávio França Júnior

A redução de safra 2008/09 brasileira de algodão não foi uma novidade para o mercado. O cenário pessimista para a fibra já havia sido projetado por Safras & Mercado em meados de agosto de 2008 frente à conjuntura negativa de demanda. “O ajuste na área refletiu as adversidades enfrentadas pela fibra pós-crise subprime americana, a qual tomou proporções globais solapando, sobretudo, a economia real de países desenvolvidos”, comenta o analista de Safras & Mercado, Miguel Biegai. Nesse sentido, a queda da área no Brasil não pode ser encarada como um fenômeno isolado, mas como parte da reacomodação do mercado mundial da pluma.

A produção global para a safra 2009/10 também deve cair e já foi reduzida marginalmente no relatório de julho de 2009 do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), estimada em 105,95 milhões de fardos ante os 108 milhões de fardos previstos pelo Comitê Consultivo Internacional do Algodão (ICAC, em inglês). O USDA aponta quedas para o Paquistão e a Turquia (além do relatório anterior ter mostrado reduções na China). Esse ajuste se deu em decorrência da retração do consumo mundial da fibra e pelas perspectivas de menor comércio internacional. Assim, o consumo encolheu no Paquistão, China e Tailândia, e o comércio mundial sofreu uma baixa, na casa de 1 milhão de fardos, pela redução da demanda por importação destes três países.

Preços enfraquecidos — O mercado interno de algodão no final de 2008 se deparou com preços mais fracos, em função da baixa demanda, que oscilaram entre R$ 1,12 e R$ 1,13 a libra-peso (Cif São Paulo) para pagamento em oito dias, para a fibra 41-4. “A causa do contínuo enfraquecimento iniciado em outubro se assentou, exclusivamente, por fatores temerários sobre a demanda”, destaca o analista. Nesta mesma onda pessimista, o algodão abriu 2009 com os olhos voltados a algum suporte provido pelo mercado internacional, mas Nova York vinha patinando. As chuvas que caíram nas lavouras do Centro-Oeste e Nordeste aumentaram a perspectiva de uma safra mais justa e ajudaram a deixar os preços mais firmes em janeiro, com negócios que chegaram à casa de R$ 1,20 a libra-peso.

Com a entrada do mês de março e o plantio concluído no Brasil, algumas revisões de áreas foram feitas por Safras & Mercado e o novo número não foi nenhuma surpresa aos agentes. A primeira projeção indicava uma baixa cautelosa e inferior a duas casas (9,5%). Porém, com os trabalhos encerrados, viu-se que o cenário de dificuldade de crédito, crise internacional, custos mais elevados da lavoura e incerteza quanto à recuperação da demanda colaboraram para uma retração de 20% na área para a temporada 2008/ 09.

Reação — A pluma parece ter encontrado suporte para reagir no início do segundo trimestre de 2009, precisamente entre os dias 13 e 17 de abril. “Parte da ligeira recuperação do algodão no mercado interno, mesmo que ainda tímida, foi advinda de seus próprios fundamentos”, salienta Biegai. O volume de negócios levantados ao longo da terceira semana mostrou-se consistente, bem como o resultado das exportações. A maior procura era voltada para o produto da safra velha. Para a nova, o interesse ainda estava travado, na medida em que o preço futuro, diante da conjuntura, era incerto, conforme a percepção de ambas as pontas – tanto o comprador como o vendedor. A tendência de recuperação só se firmou quando Nova York mostrou um sinal de reação “consistente”.

A aceleração das exportações brasileiras, bem como as chuvas no Mato Grosso e Bahia, também garantiram certo grau de suporte. Porém, a falta de liquidez mantinha a pressão sobre os preços, impedindo um avanço mais agressivo. De qualquer forma, o resultado positivo de Nova York e notícias sobre as condições das lavouras no Brasil forneceram a sustentação necessária para as cotações deixarem o “fundo do poço” de R$ 1,12 a libra-peso, Cif São Paulo. “Neste momento, muito próximo a 15 de maio, prazo para comprovação de venda do Prêmio Equalizador Pago ao Produtor (Pepro), o que havia de ser negociado para fins de comprovação já não pressionava mais o lado da oferta e os preços atingiam R$ 1,15 a libra-peso no final de abril”, pondera.

Em maio e junho, a dinâmica do mercado foi marcada por uma demanda ainda cautelosa e preços sem sinal de reação, exceto pelo bom humor da Bolsa de Nova York. O produtor passa a ser pressionado pela entrada da safra 2008/09, além de aguardar as definições para o Pepro da temporada 2009/2010. “Em meio a esta turbulência enfrentada para a cultura, como paliativo, o ano trouxe notícias importantes e possíveis quebras de paradigmas”, salienta Biegai.

Algodão adensado — O interesse em reduzir custos e aprimorar técnicas trouxe à tona um maior número de propriedades e associações que têm pesquisado sobre o algodão adensado. Além disso, a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) liberou novos tipos de sementes para os produtores, as geneticamente modificadas. “Mesmo assim, ainda é muito prematuro e insuficiente para gerar efeitos consideráveis para o curto prazo”, esclarece o analista. “De qualquer forma, os resultados prévios de colheita do tipo adensado já demonstram melhores resultados com as novas regulagens das plataformas.”

Em julho de 2009, a colheita prosseguia no país e, com isso, a pressão sobre o produtor. “Sendo atenuada apenas pela expectativa de quebra de produção e perda de qualidade em função do excesso de umidade nas principais regiões”, frisa. A movimentação altista de Nova York também era vista com otimismo, pois possibilitaria uma perspectiva melhor para os preços no curto prazo. Já a expectativa de entrada da safra no Brasil aparecia como fator limitante e deixava o mercado travado. O volume de negócios domésticos ainda seguia baixo. A indústria se mostra ligeiramente abastecida, entrando no mercado apenas para aquisições que visavam a satisfazer as necessidades imediatas. E este cenário encontrava vendedores ainda retraídos, o que se traduz em uma movimentação morosa. Os preços apresentaram ligeiras oscilações, ainda sem força para romper a linha entre R$ 1,18 e R$ 1,19 a libra-peso, Cif São Paulo, para pagamento curto.

Área menor — A área a ser plantada com algodão no Brasil deverá recuar 5,5% na safra 2009/ 10, saindo de 849,864 mil hectares para 802,800 mil. A estimativa faz parte do levantamento de intenção de plantio de Safras & Mercado, divulgado em julho de 2009. “Se confirmada, a trajetória de redução no cultivo do algodão dos últimos anos será mantida”, comenta Biegai. Em 2007/08, o plantio ocupou 1,084 milhão de hectares.

O levantamento aposta em queda generalizada de área nos principais estados produtores. Minas Gerais deverá sofrer o maior corte, de 13,3%. O principal estado produtor, o Mato Grosso, deverá apresentar decréscimo de 7% na área a ser plantada, caindo de 376,540 mil para 350 mil hectares. Na Bahia, segundo no ranking nacional de produção, a queda na área seria menos acentuada, de 2,9%: plantio de 270 mil hectares contra 278 mil hectares no ano passado. “Apesar de ser um tanto prematuro estipular taxativamente uma área a ser cultivada com algodão na safra 2009/10 no Brasil, algumas linhas gerais já podem ser traçadas em relação à tendência de plantio”, destaca. E ela se configura cada vez mais para um novo recuo de área plantada.

O cenário é bastante diferente do mesmo período de 2008. “Basta lembrar que, em julho de 2008, os preços do algodão no mercado externo eram mais altos”, justifica. O contrato de dezembro/08 apontava US$ 0,70 a libra-peso, enquanto o dezembro/09 agora está em US$ 0,61 a libra-peso. “Mas os preços externos estavam em um processo acelerado de recuo, que culminaria em uma retração para uma linha de US$ 0,40 a libra-peso, em função da crise financeira internacional”, observa.

No mercado interno, as cotações também eram mais elevadas do que agora. O produtor brasileiro era remunerado em patamares de R$ 1,25, enquanto em 2009 alcançaram níveis de R$ 1,18 a librapeso. “Porém, o quadro atual difere do do ano passado justamente pelo fato de que, no momento, os preços, embora pontualmente mais baixos, estão vindo em uma tendência de baixo para cima e não de cima para baixo, como ocorria no ano passado”, completa o analista.

Esta condição traz uma certa confiança aos produtores de que a safra 2009/10 pode ser de melhor remuneração. “O sentimento que se observa é de que o pior já passou”, acredita. O mercado já chegou ao fundo do poço e busca uma recuperação, enquanto que em 2008 ainda não se sabia onde terminaria a crise. Mas, mesmo assim, a tendência em termos de plantio é de uma nova queda de área, embora menos intensa do que no ano passado, quando chegou a mais de 20%. “Mas este número ainda pode mudar para as próximas semanas, caso ocorra uma alta nos preços no mercado externo”, finaliza.