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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

AÇÚCAR E ÁLCOOL

RENDA RECUPERADA

Os preços futuros do açúcar na Bolsa de Nova York são os mais altos dos últimos três anos e as projeções de oferta/procura são de aperto no mercado mundial

Fábio Rübenich - Agência Safras - Com a colaboração do analista Miguel Biegai Jr.

O mercado de açúcar recuperou rentabilidade em 2008/09, amparado em grande parte na escalada dos preços futuros da Bolsa de Nova York, que no início do segundo semestre de 2009 trabalham nos patamares mais altos dos últimos três anos. O cenário fundamental altista está sendo o combustível para que a commodity registre preços que superaram até mesmo as estimativas mais otimistas do final de 2008, quando o cenário já era de recuperação, depois de um ano difícil para os usineiros em 2007. As projeções indicam que a temporada 2009/10 no mercado internacional repetirá o problema da safra anterior, quando o consumo superou a demanda, em função da acentuada queda na produção da Índia, outrora uma grande exportadora, que atualmente busca socorro nas importações para equilibrar seu combalido mercado interno.

As projeções de aperto no mercado mundial de açúcar vêm de diversas fontes diferentes. A corretora britânica Sucden recentemente elevou sua estimativa de déficit em 2009/10, previsto alguns meses atrás em dois milhões de toneladas, para quatro milhões de toneladas. Na safra anterior, o consumo já ultrapassara a produção em oito milhões de toneladas. Conforme a Sucden, depois da forte retração na produção da Índia em 2008/09, a recuperação da safra do país tende a ser limitada na próxima temporada, a qual já terá início contabilizando baixos estoques de passagem. A Índia deverá produzir 16,8 milhões de toneladas em 2009/ 10, na comparação com as 14,7 milhões de toneladas de 2008/09. Os volumes estão muito distantes da produção de 2007/08, quando o país alcançou uma safra de 26,4 milhões de toneladas.

A Sucden estima que os estoques na Índia no início da próxima temporada, em outubro, serão suficientes para pouco mais de dois meses de consumo, o que forçará o país a importar cerca de cinco milhões de toneladas de açúcar ao longo do ano comercial, comparadas com as 2,7 milhões de toneladas de 2008. Até o ano passado, a Índia era uma grande exportadora de açúcar.

A consultoria alemã F. O. Licht reduziu a estimativa de produção mundial da safra 2008/09 para 154,9 milhões de toneladas, contra a estimativa de março que apontava 157,3 milhões de toneladas, representando também uma queda de 1,5% na comparação com a produção obtida em 2007/08. Conforme a consultoria, a revisão baixista foi efetuada levando em conta os cortes nas produções da Índia, México, Tailândia e Paquistão, “mais do que compensando o aumento da produção na União Europeia”. A Licht avalia também que as perspectivas para a oferta de açúcar no mundo em 2009/10 não são muito boas.

A extensão do déficit entre oferta e demanda ficou maior que o esperado, e o cenário para a safra 2009/10 se deteriora a cada semana. As chuvas abaixo da média nas regiões produtoras de cana-de-açúcar da Índia no início do período das monções levantou dúvidas sobre a capacidade de recuperação da produção do país. Já no Brasil, a meteorologia indica que a atual safra de cana poderá enfrentar problemas no Centro-Sul em razão de questões climáticas.

Aumento na produção mundial — Para o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), a produção mundial de açúcar em 2009/10 deverá totalizar 159,9 milhões de toneladas, elevação de 11,2 milhões de toneladas na comparação com o ciclo anterior, quando a safra atingiu 148,7 milhões de toneladas, de acordo com projeção do USDA. Conforme o departamento, o consumo de açúcar deverá atingir 159 milhões de toneladas em 2009/10, aumentando 1,5 milhão de toneladas, enquanto que os estoques finais do ciclo 2009/ 10 estão estimados em 31,6 milhões de toneladas, perda de 800 mil toneladas, e as exportações, em 51,3 milhões de toneladas, aumentando 3 milhões de toneladas.

De acordo com análise do USDA, as mudanças para cima nas perspectivas de produção do açúcar em 2009/10 são motivadas pelos aumentos da produção no Brasil, que representa 23% do mercado mundial, e também na Ásia, responsável por 37% da produção mundial. A safra brasileira deverá crescer 4,5 milhões de toneladas em 2009/10, atingindo 36,9 milhões de toneladas. Já na Ásia a produção vai aumentar 5,8 milhões de toneladas, atingindo 59,2 milhões de toneladas.

Por países, as estimativas para a Ásia no ciclo 2009/10 ficaram assim: Índia (20,8 milhões de toneladas, elevação de 4 milhões de toneladas), China (14,5 milhões de toneladas, aumento de 1 milhão de toneladas) e Tailândia (7,5 milhões de toneladas, recuo de 300 mil toneladas). A produção da União Europeia (UE-27) deverá aumentar levemente em 2009/ 10, passando de 16,9 milhões de toneladas para 17 milhões. O USDA projeta que o bloco europeu importe 3 milhões de toneladas de açúcar na temporada 2009/10, tornando-se assim o maior importador de açúcar do mercado mundial.

Exportações — As exportações brasileiras de açúcar durante 2008 ficaram abaixo das expectativas iniciais, por conta dos preços relativamente baixos na comparação com os custos de produção, dos fretes mais caros, da competição com a Índia nos mercados do Oriente próximo, altos preços do petróleo e ainda a grande demanda interna para o etanol.

Conforme avaliação do USDA, os preços internacionais do açúcar caíram no final de 2008 por conta das previsões de produção superavitária a partir dos dados de produção e exportação da Índia. Outro fator que contribuiu para a baixa foi a especulação por parte de fundos indexadores. No entanto, a situação mudou bastante a partir de janeiro. Os preços foram se fortalecendo à medida em que a safra da Índia foi contrariando as expectativas. O Brasil priorizava o etanol e ofertas novas só surgiam em pequenas porções, através dos estados do Nordeste.

Em apenas um ano, a Índia passou de exportadora de quase 6 milhões de toneladas de açúcar a importadora de 1,8 milhão de toneladas. “Efetivamente, o mercado mundial de açúcar passou de superavitário a deficitário em um curto espaço de tempo, enquanto que o consumo continuou forte, contribuindo para a diminuição dos estoques mundiais”, conclui o USDA.

Recuperação única — O analista de Safras & Mercado, Miguel Biegai, observa que o mercado internacional de açúcar Renato Lopes passa por um momento que há tempos não era visto, pelo menos em termos de preço, indicado pelos contratos futuros das principais bolsas que servem de referência para o mercado interno. Um ano após o colapso dos mercados financeiros, desencadeado pela quebra do Banco Lehman Brothers, a cotação do açúcar é a única entre as commodities agrícolas que já ultrapassou com sobras os níveis de preços do período pré-crise. Em julho de 2008, o contrato de açúcar bruto para entrega em outubro do mesmo ano na Bolsa de Nova York apontava para patamares de 14 a 14,50 centavos de dólar por librapeso. Agora, em período equivalente, o contrato com vencimento em outubro de 2009 indica preços de 18,50 centavos de dólar por libra. O contrato de entrega em março de 2010, por sua vez, chegou a ficar bem próximo de 20 centavos de dólar por libra.

“Os preços internacionais do açúcar estão recebendo suporte das especulações que envolvem a necessidade de importação de açúcar de alguns países, principalmente a Índia, que passou por revezes climáticos recentes em suas lavouras, transformando a condição do país, que era de player importante na pauta de exportação mundial de açúcar, para uma posição de comprador pesado”, explica Biegai. Mas não é só a Índia que está na alça de mira do mercado internacional. Aparentemente, a China e a Rússia também podem precisar de mais açúcar do que o esperado para essa temporada, forçando ainda mais um quadro de redução dos estoques mundiais da commodity.

A necessidade de importação da Índia tem aumentado nas expectativas dos operadores do mercado internacional de açúcar. A Índia não importou quase nada de açúcar na temporada 2007/2008 e importou 1,8 milhão de toneladas em 2008/2009. As primeiras projeções de importação indiana para 2009/10 estiveram na casa de 2,5 milhões de toneladas, mas agora estão sendo previstas para um intervalo de três a quatro milhões de toneladas.

“Bolha” periga estourar — O mercado, notoriamente, gosta de “embutir” a situação mais “altista” em suas projeções, quando este está em tendência ascendente. Assim também como no sentido inverso costuma antecipar o pior cenário possível quando a tendência é baixista. E então, quando a projeção do melhor ou do pior cenário possível não se realiza, os preços retornam aos níveis anteriores, sejam eles mais altos ou mais baixos, configurando a notória estratégia de “comprar no boato e vender no fato”.

Neste momento, alguns operadores acreditam que o mercado pode ter embutido suas projeções mais altistas nos preços futuros de açúcar. Considera-se para tanto uma necessidade de importação indiana de açúcar em uma linha mais próxima de quatro milhões de toneladas do que de três milhões de toneladas. Isso justificaria a arrancada dos preços para níveis próximos a 18,50 centavos de dólar por libra (contrato outubro 2009) e 20 centavos para o vencimento de março de 2010.

Mas, alguns fatores precisam ser considerados nesse processo. Primeiro, é necessário observar que o custo de produção do açúcar no Brasil está em níveis que vão de 11,50 a 12,50 centavos de dólar por libra, dependendo muito da estrutura de custos da usina, considerando o dólar em patamares de R$ 1,85 a R$ 1,90. Portanto, cotações ao redor de 20 centavos representam níveis bastante acima dos custos de produção. Por sua vez, significam que a margem operacional do setor, neste momento, é bastante positiva para a produção de açúcar, mesmo para as usinas menos eficientes e sem considerar a remuneração advinda do etanol.

O mercado de commodities é, naturalmente, cíclico. E um dos principais motores desse movimento ondulatório dos preços das commodities é a rentabilidade obtida, resultante da venda do produto menos o custo de produção. Quando o preço remunera bem mais do que o custo de produção, é questão de tempo para que a oferta aumente, atraída pela rentabilidade. O “problema” é que esse aumento de produção dificilmente ocorre de forma a simplesmente se equilibrar com a oferta, de modo que continue permitindo uma margem operacional positiva. Normalmente, o que se vê é a produção aumentar para níveis bem superiores à demanda. E quando isso acontece, aumentam os estoques e os preços caem fortemente.

E em diversas vezes, os preços caem para níveis abaixo do custo de produção, e a rentabilidade passa a ser negativa. Aí, obviamente, a produção diminui e posteriormente, com a produção menor do que a oferta, os preços subirão de novo, iniciando novo ciclo. Deve se somar a isto o fator inerente à relação preçodemanda do açúcar, que é elástica quando os preços estão elevados. Isso quer dizer que, quando o preço do açúcar fica muito alto, a tendência é o próprio consumo apresentar alguma redução. Isso pode se dar pelas famílias consumindo menos açúcar diretamente, ou então por parte de indústrias consumidoras de açúcar, que podem até mesmo buscar alternativas ao insumo tido como principal.

Quando o preço de uma commodity sobe demais, a reação dos consumidores é buscar um substituto para esse produto. E na falta de um substituto, podem passar ao consumo de um produto de qualidade inferior. Outro fator que precisa ser observado é a atração exercida para o aumento da produção de produtos concorrentes. Não se têm muitas notícias a este respeito até o momento, mas é bem possível que os produtores de açúcar de beterraba já estejam “imaginando” que o cenário voltou a ser auspicioso para aumentar a produção de açúcar a estes patamares, ou acima. Até mesmo xarope de milho volta a ser lembrado por compradores internacionais quando os preços do açúcar estão elevados, enquanto que as cotações do milho estão pressionadas.

Demanda por etanol — Conforme projeções do USDA, o Brasil vai produzir 28,45 bilhões de litros de etanol em 2009/10, com 8,5 bilhões de litros de anidro e 19,95 bilhões de litros de hidratado, elevação de 1,25 bilhão de litros na comparação com a temporada anterior – quando o país havia obtido 9,35 bilhões de litros de anidro e 17,85 bilhões de litros de hidratado, totalizando 27,20 bilhões de litros de etanol. Segundo o departamento, apesar da crise financeira internacional, a demanda interna de etanol no Brasil em 2009/10 deve crescer para 24,5 bilhões de litros, 2,45 bilhões a mais que no ano passado, em função das vendas de veículos flexíveis e dos preços atrativos do biocombustível na comparação com a gasolina.

As exportações de etanol do Brasil em 2009/10 estão estimadas em 3,7 bilhões de litros, redução de 1,35 bilhão de litros em comparação aos 5,05 bilhões embarcados em 2008/09, por conta, principalmente, da redução esperada nas exportações diretas para os Estados Unidos. Em 2008, mais de 50% de embarques de etanol do Brasil tiveram como destino o mercado norte-americano, tanto de forma direta como através da Iniciativa da Bacia do Caribe.

No mercado brasileiro, os preços começaram a reagir no final da safra 2008/09, pegando uma carona na explosão do açúcar e na volta do petróleo para patamares acima de US$ 60 o barril. O petróleo mais caro torna o etanol mais competitivo, principalmente no mercado americano. Com os preços do etanol anidro e do hidratado se aproximando de uma linha de 90 centavos de dólar por litro, ao menos os custos de produção começaram a ser cobertos. No entanto, vai demorar ainda para o Brasil ampliar mercados para o etanol. Apesar de algumas sinalizações positivas principalmente na época da campanha presidencial de 2008, a Casa Branca foi pressionada por um senador republicano da bancada agrícola e questionada em relação à tarifa que os Estados Unidos impõem atualmente ao etanol brasileiro.