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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

ARROZ

APOSTAS NUMA NOVA SAFRA DOURADA

A alta recorde no mercado internacional e a elevação das exportações a níveis nunca vistos alçaram as cotações a patamares históricos na safra 2008/2009

Rodrigo Ramos - Agência Safras - Com colaboração do analista Élcio Bento

O resultado da safra 2008/2009 foi bastante positivo para o arroz, graças ao ajuste apresentado neste ano comercial, o qual resultou numa média de preços superior a R$ 30 por saca de 50 quilos no Rio Grande do Sul. “Podese enumerar uma série de fatores que corroboraram para a recuperação, depois de um triênio toneladas para 1,983 milhão (708 mil toneladas a menos) e a menor quantidade comprada no exterior diminuíram o suprimento nacional em 533 mil toneladas: de 15,25 milhões de toneladas para 14,71 milhões.

“A principal mola propulsora para a elevação dos preços, no entanto, foi a alta recorde no mercado internacional”, frisa Bento. Tomando-se como exemplo o cereal tailandês, no mês de março de 2008 a média de preços do arroz branco 100%, segunda qualidade, Fob Bangkok, ficou em US$ 567 por tonelada, já acumulando uma valorização de 47% em relação aos US$ 385 por tonelada de janeiro. No mês de abril de 2008, a cotação saltou 70% em relação a março, indo para US$ 962,60. O mercado brasileiro, historicamente, não tem uma correlação significativa com o mundial. “No entanto, um solavanco de tal intensidade não tinha como passar despercebido”, pondera. Com temor de desabastecimento global, muitos exportadores travaram ou taxaram as suas vendas externas.

Com liquidez financeira e uma forte demanda, os principais fornecedores do Brasil, os parceiros do Mercosul, diversificaram as suas vendas. Assim, para se abastecer com cereal importado, era preciso pagar mais, tanto os engenhos quanto atacadista e varejista. Neste contexto, os preços domésticos tinham suporte via paridade de importação. A alta exagerada no âmbito global também contribuiu para que a cadeia produtiva do cereal alcançasse o seu principal objetivo: exportar maiores volumes, principalmente de produto beneficiado. “Desta forma, o arroz nacional também tinha sustentação pela paridade de exportação”, salienta.

Estoques de passagem — No início da temporada, em março de 2008, com 1,983 milhão de toneladas de estoques de passagem, dos quais 1,512 milhão nos armazéns do Governo, o setor estava preocupado com o futuro da comercialização das 12,14 milhões de toneladas a serem colhidas. “O temor era de que não houvesse espaço nos estoques do Governo para retirar o excesso de oferta do período da entrada da safra e, com isso, os preços recuassem demasiadamente”, explica o analista. Esta situação poderia trazer prejuízos significativos aos produtores, que tinham plantado com os maiores custos de produção da história. “O início do ciclo comercial 2008/09 não era nada promissor, com a média de preços no primeiro mês da temporada em R$ 22,71 por saca de 50 quilos”, lembra.

Porém, a alta recorde dos preços internacionais, resultado do temor de desabastecimento global, mudou a dinâmica do mercado doméstico. O ceticismo em relação ao comportamento das cotações se transformou em otimismo e expectativa de valorização. Assim, os orizicultores utilizaram os Empréstimos do Governo Federal (EGF) para saldar compromissos imediatos e seguraram o arroz para aproveitar momentos mais atrativos de venda. Já em abril a saca havia ultrapassado o patamar de R$ 30. O pico foi apresentado em outubro (R$ 35,78).

Liquidez — O desequilíbrio no quadro de oferta e demanda mundial – e seus reflexos sobre o mercado nacional – fez com que o Governo mudasse a sua posição. Com os produtores na defensiva, mesmo num período de plena colheita, as indústrias sentiam dificuldades em se abastecer. “Por isso, os estoques públicos passaram a ser ofertados para equilibrar a oferta à procura”, comenta Bento. Em momentos em que as cotações esfriavam, o setor produtivo pedia a suspensão das vendas públicas. No final do ano comercial, os estoques públicos, que iniciaram o ciclo comercial em 1,512 milhão, eram de apenas 612 mil toneladas. Para o analista, o governo, em sintonia com a cadeia orizícola, teve uma participação importante, tendo disponibilizado os recursos no início da colheita e, quando as cotações ameaçavam os indicadores de inflação, desovou estoques.

Exportações em alta — O destaque da temporada 2008/09, sem dúvida, foi o volume exportado, que somou 790 mil toneladas, com o Brasil conseguindo colocar um volume adicional de 460 mil toneladas no mercado mundial em relação ao ano comercial 2007/08 (330 mil toneladas). “Mais que quantitativos, os ganhos nas vendas externas foram em relação à qualidade do produto negociado”, salienta o analista. As exportações eram concentradas basicamente em arroz quebrado, mas na temporada 2008/09 a situação internacional permitiu que o cereal beneficiado no Brasil chegasse à vitrine externa. “Abrir uma válvula de escape é fundamental para dinamizar o mercado brasileiro”, acredita.

A crise no abastecimento global possibilitou esta abertura e o setor soube aproveitar o momento. Com um mercado mundial altamente comprador, as principais origens das aquisições brasileiras (Argentina e Uruguai) passaram a ter várias opções de venda. Assim, as cotações no Brasil passaram a ter suporte de alta pela paridade de importação e de exportação.

Num segundo momento, quando as cotações internacionais esfriaram (devido à crise financeira internacional), as internas foram imunizadas pela desvalorização do padrão monetário local, que manteve o arroz nacional competitivo no mundo e impediu um ingresso mais abundante de produto importado a preços mais baixos. Para se ter uma ideia, o Brasil importou 590 mil toneladas na temporada, pagando uma média de US$ 378 por tonelada (base casca). O total gasto com a aquisição de arroz importado foi de US$ 222,86 milhões. Na temporada anterior (2007/08), o volume adquirido foi de 1,07 milhão de toneladas (+81%). Em dólares, no entanto, o volume gasto foi apenas 18% superior.

Maior superávit — Uma análise dos últimos 13 anos mostra que o maior volume do arroz comprado pelo Brasil foi na temporada 1998/ 99, com 2,008 milhões de toneladas e um desembolso de US$ 571 milhões. Coincidência ou não, excetuando-se o ciclo 2007/08, quando o mercado mundial como um todo operava com preços recordes, o maior nível médio pago pelas importações foi exatamente no ano 1998/99, de US$ 284 por tonelada.

Com aquisições externas mais caras, o volume importado no ano comercial 2008/09 foi menor e, desta forma, a balança comercial do cereal apresentou o seu maior superávit da história (com 200 mil toneladas). A oferta total de arroz na temporada – com estoques de 1,983 milhão de toneladas, 12,140 milhões de toneladas de produção e importações de 590 mil toneladas – foi de 14,713 milhões de toneladas. A demanda foi de 13,79 milhões de toneladas, com um consumo interno de 13 milhões de toneladas e exportações de 790 mil toneladas. “Isso mostra que, com o auxílio do escoamento via vendas externas, o Brasil reduziu seus estoques iniciais em 1,06 milhão de toneladas, mesmo com uma produção que superou a anterior (11,485 milhões de toneladas) em 655 mil toneladas”, explica Bento. Esta redução dos estoques públicos e privados deu o suporte fundamental para que as cotações se recuperassem. A média do ano comercial 2008/09 no mercado gaúcho, referência para o nacional, ficou em R$ 30,90 por saca de 50 quilos.

A atual temporada iniciou com 924 mil toneladas em estoques, que somados a uma produção de 12,7 milhões de toneladas, resultam numa oferta de 13,623 milhões de toneladas. O consumo interno é estimado em R$ 13,05 milhões de toneladas. Desta forma, sem comércio internacional, a oferta doméstica atenderia a demanda, restando um saldo de 573 mil toneladas. “Tais estoques cobririam apenas 16 dias da necessidade nacional”, lembra Bento.

Próximo à sucessão presidencial, o analista acha pouco provável que o Governo corra o risco de deixar o abastecimento do cereal tão ajustado. Além disso, a formatação atual do mercado brasileiro pressupõe movimentos nas duas pontas do comércio internacional. “O que fica claro é que, depois de ser um exportador líquido do cereal na temporada 2008/09, no atual ciclo comercial o Brasil precisará importar mais que vender para não sofrer uma nova retração em seus estoques de passagem”, prevê.

Num exemplo hipotético, para manter os estoques nos mesmos patamares em que iniciou o ano, o volume comprado no exterior terá que superar o vendido em 350 mil toneladas. Nos três primeiros meses do ano comercial, contudo, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, o volume exportado foi de 332 mil toneladas e o importado, de 275 mil toneladas. “A necessidade de inverter este saldo positivo de 57 mil toneladas pode resultar em pressão sobre as cotações”, destaca.

Dólar domina atenções — A importância do comércio internacional sobre o abastecimento e, consequentemente, sobre as cotações, aumenta a importância da relação cambial. No início deste ano comercial (2009/10), a saca de 50 quilos do arroz em casca era cotada a R$ 29,74. Depois de operar acima do patamar de R$ 30 por saca no primeiro bimestre de 2009, o mercado respondia ao ingresso de uma produção estimada em 12,7 milhões de toneladas. Mesmo assim, o reflexo da retração das cotações internacionais, motivadas pela crise financeira, era anulado pela depreciação da moeda brasileira em relação ao dólar.

No início de setembro de 2008, para comprar um dólar era necessário R$ 1,64. No dia primeiro de março de 2009, a relação era de R$ 2,44. “O padrão monetário brasileiro depreciado encarecia as importações e mantinha o produto nacional competitivo no mercado externo”, explica Bento. Por isso, a retração apresentada no primeiro trimestre de 2009 era esperada e respondia à pressão sazonal do ingresso da safra.

A partir de abril e, com mais força entre maio e junho, quando já se esperava que a pressão sazonal perdesse força, a blindagem cambial contra a retração das cotações internacionais foi rompida pela apreciação da moeda brasileira em relação ao dólar. Com isso, os preços no mercado doméstico, que deveriam começar a responder ao quadro de oferta e demanda ajustado, intensificaram a tendência de baixa.

No dia 3 de junho, a saca do arroz em casca era cotada a uma média de R$ 25,09. Neste mesmo dia, o dólar comercial valia R$ 1,9220. “As cotações na moeda americana provam que a desvalorização do cereal no mercado nacional tinha como motivador o fator cambial”, adverte. No início do ano comercial, a saca correspondia a US$ 12,18. Quando tocava o fundo do poço a R$ 25,09, no início de junho, eram necessários US$ 13,05 para comprar a mesma saca (+7,14%).

Governo em campo — Para conter a trajetória baixista, com as cotações no mercado gaúcho abaixo do preço mínimo de referência para a temporada 2009/10, o Governo incrementou seu arsenal de recursos. Assim, e com a relação cambial mostrando um novo ponto de equilíbrio próximo a R$ 1,95, os preços do arroz iniciaram uma escalada, saindo de um patamar próximo a R$ 25 por saca e atingindo R$ 28. Na divisa norte-americana, a saca chegou ao nível de US$ 14,50.

Mas, no final do mês de julho, a recuperação das cotações perdeu força e voltou a trazer incertezas entre os produtores. “Mais uma vez, entretanto, o enfraquecimento das cotações é apenas em reais”, lembra Bento. No dia 10 de julho, a saca era cotada a US$ 14,11 e R$ 28,09. No dia 24, a US$ 14,80 e R$ 27,94. Para o analista, o quadro de oferta e demanda nacional sinaliza claramente uma tendência de preços superior a R$ 30 por saca no decorrer do ano comercial 2009/2010. “E, dentro do cenário atual das principais variáveis formadoras de preços (cotações internacionais, câmbio e expectativa de manutenção de estoques reduzidos), não há por que pensar de maneira diferente”, aposta.

Importações determinam preços — A alta dependência de importações é mais um fator que corrobora esta perspectiva de cotações em alta na entressafra. Porém, mais que o reflexo quantitativo, o que conta para a formação de preços no mercado interno é o valor com que este produto chega ao Brasil.

Na temporada 1996/97, por exemplo, a demanda brasileira por compras internacionais foi de 1,865 milhão de toneladas (base casca). Estas compras foram realizadas a uma média de US$ 13,40 por saca. Naquele período, estava em vigor o regime de bandas cambiais, com uma média de R$ 1,020 por dólar. Então, no padrão monetário nacional, as compras foram realizadas a R$ 13,70 por saca na média do ano comercial. No Rio Grande do Sul, a média ficou em R$ 11,35. Outro exemplo de que alto volume de compra externa não é sinônimo de preço interno elevado é a temporada 1998/99. Foram compradas, naquele ciclo comercial, 2 milhões de toneladas, a uma média de US$ 14,20 por saca. A relação cambial era de R$ 1,26 por dólar, ou seja, cada saca custou em média R$ 17,90. No mercado gaúcho, a média foi de R$ 16,80.

No ano comercial 2003/04, novamente o Brasil precisou de um maior volume de importações, buscando no mercado internacional um montante de 1,6 milhão de toneladas a um preço médio de US$ 9,95 por saca – abaixo das cotações das temporadas consideradas anteriormente. Entretanto, a relação cambial havia subido para R$ 2,97 por dólar, ou seja, a saca no Fob fronteira era cotada a R$ 29,55 por saca. No mercado gaúcho, fechou a R$ 35,32 por saca. Outro exemplo ocorreu no ano comercial 2008/09. Naquele período, o volume comprado no exterior foi de apenas 590 mil toneladas. A média da relação cambial ficou em R$ 1,93. A alta recorde dos preços internacionais fez com que cada saca fosse comprada a uma média de US$ 18,90, ou R$ 36,50.

Os exemplos mostram a importância da paridade de importação na formação de preços domésticos. E esta depende dos preços internacionais e da variação cambial. Os primeiros não demonstram força para quedas mais expressivas, pois a relação estoque/ consumo mundial do arroz ainda é baixa. Já a análise do mercado cambial é mais complicada. “Contudo, numa situação de melhora no cenário financeiro global, com as taxas reais de juros no Brasil em alta e com a balança comercial favorável, hoje é mais fácil imaginar um cenário com o dólar abaixo de R$ 2 do que acima”, frisa Bento.

O sentimento é de que o comportamento cambial pode reduzir a intensidade da alta que se justifica pelo atual quadro de abastecimento interno. De qualquer forma, não deve resultar em queda nas cotações durante a entressafra. Vale lembrar que 95% do abastecimento nacional é provido pela produção interna. A postura no momento da comercialização é que determina o efeito multiplicador dos preços destes 5% do abastecimento sobre as cotações domésticas. “Por tudo isso, especialmente pelo bom desempenho das exportações, tudo leva a crer que teremos mais um ano positivo para a cadeia orizícola nacional”, projeta. Para o analista, as melhorias estruturais, como as que têm possibilitado o escoamento via exportações, merecem destaque e devem continuar.

Desta forma, o país deixa de ver os parceiros do Mercosul como vilões da rizicultura brasileira e passa a se apresentar ao mercado internacional como membro de um bloco com mais de 2,5 milhões de toneladas exportáveis. Em temporadas como a atual, em que existe uma necessidade de importações superior à de exportações, o Brasil pode manter os mercados conquistados no exterior, com as compras no Uruguai, Argentina e Paraguai completando o quadro nacional. “Isso tudo garante um maior dinamismo, cujos resultados positivos já podem ser sentidos”, finaliza.