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TRIGO

A CULTURA DA PREOCUPAÇÃO

A safra de trigo 2009/2010 foi levada ao solo em meio às incertezas da cadeia produtiva com a sua comercialização. Cotação do cereal caiu 30% em um ano

Antenor Savoldi Júnior - Agência Safras - Com colaboração do analista Élcio Bento

O mercado brasileiro de trigo alcançou o final do ano comercial 2008/09 com desinteresse por parte de compradores e preços enfraquecidos. Na última semana da temporada, julho de 2009, a tonelada foi cotada a R$ 530 no norte do Paraná. No mesmo período da temporada anterior a cotação era de R$ 690, ou 30% acima. Esta retração pode ser atribuída ao aumento da quantidade produzida no Brasil, à queda das cotações internacionais e, principalmente, ao comportamento cambial. Depois de um segundo semestre de 2008 com cotações em baixa, a expectativa era que durante a entressafra as cotações se recuperassem. Esta perspectiva tinha como principais suportes a quebra da safra argentina e a desvalorização do real, ocorrida após a crise financeira internacional.

O primeiro fator abriria uma maior necessidade de compra no Hemisfério Norte. O segundo compensaria a retração ocorrida nas cotações internacionais. Este cenário parecia bem encaminhado no início de 2009. Prova disso é que, no início do ano, a tonelada do cereal era cotada a R$ 470 por tonelada no interior do Paraná, e no dia 9 de fevereiro já era negociada a R$ 550 – uma alta de 17%. Esta cotação foi mantida até meados da primeira quinzena de março, quando as cotações enfraqueceram. Esta queda teve como principal motivo a apreciação da moeda brasileira em relação ao dólar.

Conforme exemplifica o analista de Safras & Mercado Élcio Bento, isso fica claro quando se observa o comportamento das cotações internacionais. No início de 2009, o trigo hard norte-americano era cotado a US$ 6,37 por bushel. No dia 9 de fevereiro, quando o mercado nacional chegava ao seu pico em termos de cotação no ano comercial, o preço havia recuado para US$ 5,93. “De um modo geral, depois do ajuste pós-crise financeira, o trigo hard norte-americano apresentou um comportamento lateral, dentro de uma linha de suporte a US$ 5,50 por bushel e de resistência a US$ 6,00 por bushel”, mostra o analista.

Apenas em maio, quando a soja deu suporte às commodities agrícolas, a cotação saiu deste comportamento lateral. Porém, a resistência foi rompida, com o cereal norte-americano atingindo um pico de US$ 7,26 por bushel, no dia 1º de junho. Depois disso, com a entrada da safra nova e sem o suporte das outras commodities, o trigo voltou a entrar num canal de baixa. No início da terceira semana do mês de julho, encerrou cotado a US$ 5,64 por bushel, ainda dentro da linha de suporte e resistência apresentada no primeiro semestre de 2009.

Tal comportamento dos preços internacionais mostra que a justificativa para a fraqueza das cotações no âmbito interno está no outro pilar de formação de preços, o câmbio. Uma análise apenas sobre o mercado cambial mostra que no primeiro trimestre de 2009 o padrão monetário brasileiro oscilou de uma linha de suporte a R$ 2,25 por dólar e de resistência a R$ 2,40, tendo atingido o pico de R$ 2,44 no dia 1º de março. A partir daí, entrou num canal de baixa e encontrou um novo ponto de equilíbrio, entre R$ 1,90 e R$ 2,00.

Nas cotações domésticas, depois de atingir R$ 550 por tonelada na região de Ponta Grossa/PR entre fevereiro e a primeira quinzena de março, as cotações recuaram para um patamar próximo a R$ 530. Esta é a atual indicação nominal para negócios na região. No mesmo período, as cotações em dólar saíram de US$ 221 por tonelada para US$ 268, tendo atingido a máxima no dia 1º de julho de 2009, a US$ 280. Isso significa que a atual cotação em dólar (em julho/2009), caso o câmbio estivesse em R$ 2,20, estaria em R$ 590, ao invés dos R$ 530 atuais. Com o dólar abaixo dos R$ 2,00 e com os preços internacionais sem espaço para altas significativas, o mercado brasileiro de trigo se aproxima do final do ano comercial com viés baixista nas cotações.

Expectativas para comercialização — Neste quadro e em meio ao período de plantio do cereal no Brasil, a grande preocupação da cadeia produtiva é com a comercialização da próxima safra. E o número de fatores que podem interferir no comportamento dos preços durante a próxima temporada é grande, garante o analista de Safras & Mercado. O primeiro deles é a própria produção nacional, ainda altamente suscetível aos fatores climáticos. No Paraná, por exemplo, em julho, praticamente a metade das lavouras encontrava-se em fases vulneráveis à ocorrência de geadas. Além disso, o excesso de chuva que assola o maior estado produtor do cereal pode comprometer a produtividade. As lavouras do Rio Grande do Sul também terão que passar por possíveis obstáculos climáticos.

“Não podemos esquecer a frustração dos produtores com os preços recebidos, que pode resultar num menor investimento em insumos, reduzindo a produtividade”, lembra Bento. Por enquanto, tudo fica no campo da especulação. A estimativa preliminar de Safras & Mercado é de uma produção próxima a 5,7 milhões de toneladas de trigo no Brasil na temporada 2009/2010. Caso esta produção se confirme e com a consequente recuperação dos estoques de passagem, o Brasil terá que comprar cerca de 5 milhões de toneladas no mercado internacional (em grão e/ou farinha equivalente grão). No ano comercial 2008/09 o volume comprado ficou próximo a 6,2 milhões de toneladas. Porém, este será um ano em que não teremos a certeza de oferta do principal fornecedor dos moinhos brasileiros, a Argentina.

Redução argentina — Conforme a Bolsa de Cereais de Buenos Aires a área plantada no país nesta temporada ficará em 2,75 milhões de hectares, 40,2% abaixo do ano passado e a menor já registrada. No início de julho, a Bolsa de Rosário estimou a safra de trigo da Argentina de 2009/10 em 7,4 milhões de toneladas, abaixo das 8,7 milhões indicadas para o ano passado. Caso o número se confirme, com a demanda interna de 6,45 milhões de toneladas, apenas 1 milhão de toneladas estará disponível para exportação. Considerando que o país vizinho exporte mais 500 mil toneladas em farinha (equivalente grão), o Brasil terá que buscar 3,5 milhões de toneladas em outras origens.

Teoricamente, esta escassez de oferta argentina pode garantir momentos de preços mais atrativos no mercado brasileiro. Para isso, contudo, é necessário que haja uma recuperação das cotações internacionais ou uma depreciação cambial.

Com os números de fechamento de 27 de julho, a aquisição de trigo hard norte-americano seria possível abaixo das indicações nominais de preços no mercado brasileiro. A tonelada do cereal norte-americano sairia do Golfo do México a US$ 217. Com frete, impostos de importação e demais taxas, abasteceria os moinhos do Sudeste brasileiro a US$ 314. Com o dólar a R$ 1,8730, o valor corresponderia a R$ 587. Para chegar ao mesmo valor na Capital paulista, a tonelada do trigo paranaense teria que sair do Fob a R$ 516, sem levar em conta questões qualitativas e condições de pagamento.

Nesta condição, mesmo que não houvesse saldo exportável na Argentina, o Brasil se abasteceria nos altos estoques mundiais a preços que não levariam a uma necessidade de aumento das cotações domésticas pela paridade de importação. A ressalva que se faz é que no bimestre julho/agosto, o planeta recebe mais de 50% da sua produção de trigo. Por isso, a pressão sazonal de oferta derruba as cotações. Desta forma, entre setembro e maio os preços podem subir em âmbito global. Contudo, o mundo conta com estoques finais superiores a 180 milhões de toneladas em 2008/09, contra 120 milhões da temporada 2007/08. Com esta folga no abastecimento, o espaço para uma elevação mais consistente é pequeno.

Com o arrefecimento da crise financeira internacional, o atual cenário sinaliza como mais provável uma apreciação do real em relação ao dólar do que um movimento contrário. Colaboram para isso os bons fundamentos econômicos do Brasil, a ainda alta taxa de juros reais, os bons volumes de reservas internacionais e o saldo comercial positivo. Uma possível desvalorização do real dependeria de algum desajuste internacional. Além disso, em anos de sucessão presidencial, como 2010, podemos ter alguma saída de divisas.

“O rumo dos preços dentro deste ano comercial pode sentir os efeitos da quebra da safra de trigo na Argentina, mas este é um movimento secundário, pois em primeira instância as cotações dependem dos preços internacionais e do câmbio”, salienta Élcio Bento. Se existir a possibilidade de aquisições em outras origens a preços competitivos, a escassez da Argentina torna-se praticamente imperceptível no cenário brasileiro.

No ano comercial brasileiro 2008/ 09, a Argentina exportou cerca de 3,95 milhões de toneladas de trigo ao Brasil. Destas, 1,25 milhão eram da safra 2007/08 e 2,7 milhões de toneladas, da temporada 2008/09. No próximo ano comercial brasileiro, o volume adquirido da Argentina não deve superar 1 milhão de toneladas. No entanto, além da oferta a preços competitivos no Hemisfério Norte, outro fator que reduz o espaço para uma recuperação mais consistente das cotações no Brasil na próxima temporada é o aumento da produção no Uruguai e no Paraguai.

Vizinhos ameaçam — A queda da produção agropecuária argentina abriu espaços para o vizinho Uruguai, a partir de movimentos que começaram no segmento de carne bovina e são verificados também no trigo. O menor país do Mercosul mais do que duplicou a colheita do cereal na safra 2008/09 e caminha para aumentar ainda mais suas vendas do produto em todo o mundo – com a ajuda dos próprios argentinos. Muitos produtores da Argentina estão atravessando o Rio da Prata para plantar. A produção de trigo do Uruguai historicamente ficava em torno de 700 mil toneladas por safra. Na temporada 2008/09 chegou a 1,34 milhão de toneladas e na 2009/10 pode atingir 1,512 milhão. O consumo interno está estável em cerca de 450 mil toneladas. Isso resulta num saldo exportável de aproximadamente 1 milhão de toneladas, do qual grande parte pode ingressar no Brasil.

Sem retenções às exportações nem controle de preços, como na Argentina, os agricultores uruguaios estão investindo fortemente em tecnologia, e a produção de grãos só não cresceu mais porque o país sofreu com a estiagem. De acordo com dados da Diretoria de Pesquisas e Estatísticas Agropecuárias do Ministério da Agricultura uruguaio, a área plantada com trigo pulou de uma média de 150 mil hectares nas últimas quatro safras até 2006 para 193,4 mil já na safra 2006/07. Em 2007/08, subiu para 245,3 mil hectares e, no ano passado, para 460 mil hectares. Para 2009/10, o governo uruguaio prevê 550 mil hectares de área ocupados pelo trigo.

Houve uma entrada importante de produtores argentinos no país, que arrendam campos, aproveitando, além das vantagens em relação à política, o rendimento médio de 3 toneladas por hectare – acima do argentino, de 2,5 toneladas. Nos 11 primeiros meses do ano comercial brasileiro 2008/09, os uruguaios exportaram 392 mil toneladas para o Brasil.

Outro país que tem aproveitado o vácuo deixado pela Argentina é o Paraguai. Para o setor produtivo nacional e em especial para os produtores paranaenses, a oferta deste parceiro do Mercosul tem reflexos mais diretos. Os uruguaios têm mais alternativas de vendas externas. Os paraguaios, sem acesso ao mar, acabam tendo no Brasil praticamente a única saída para seus saldos exportáveis. Além disso, a colheita neste país ocorre no mesmo período que a do Paraná. A oferta paralela à paranaense e os preços altamente competitivos, principalmente após a valorização do real, acabam impedindo uma recuperação de cotações no Brasil. Na temporada 2008/09, o Brasil comprou 510 mil toneladas de trigo do Paraguai e, na próxima, mantida a projeção de uma safra de 1,232 milhão de toneladas, o montante poderá ser superior.

Conforme os cálculos do analista de Safras & Mercado, se Paraguai e Uruguai fornecerem 1,2 milhão de toneladas ao Brasil e a Argentina, mais 1,5 milhão de toneladas (grão e farinha), a necessidade de compra no Hemisfério Norte será de 2,3 milhões de toneladas. “Isso mostra que, mais do que nunca, os preços no Brasil dependerão do comportamento das cotações internacionais e do câmbio”, lembra Élcio. O atual cenário mostra que, pelo menos até o início de 2010, as cotações do trigo no Brasil ficarão abaixo dos preços mínimos estipulados pelo Governo. Isso pressupõe uma presença governamental forte na comercialização.