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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

MILHO

PRODUTOR NA CORDA BAMBA

Baixas fortes nas cotações da Bolsa de Chicago e clima adverso no Brasil prejudicaram a comercialização do milho. Área na safra 2009/2010 será menor

Carine Bidones Lopes - Agência Safras - Com colaboração do analista Paulo Molinari

A comercialização de milho foi mais sólida no primeiro semestre de 2009 devido às perdas na Argentina, à tendência de retração da safra dos Estados Unidos e a geadas e estiagem no Paraná e em Mato Grosso do Sul na safrinha. Todavia, as baixas fortes dos preços na Bolsa de Mercadorias de Chicago pressionaram as cotações na exportação, e isso prejudicou a comercialização interna no início do segundo semestre de 2009. Na safra de verão, também foram registradas perdas de produção devido à estiagem.

No início de junho, a safrinha 2009 brasileira apresentou um revés para o seu potencial de produção. As geadas ocorridas no Paraná, Mato Grosso do Sul e São Paulo provocaram perdas de produção adicionais à já problemática condição deixada pela seca de sessenta dias nessas localidades. Não se pode esquecer das perdas pela seca, que já existiam e trouxeram um diagnóstico de quedas de produção. Isso revela que o clima em junho foi um ponto fundamental na combalida safrinha de milho 2009.

Enquanto isso, o mercado internacional viveu dias de fortes oscilações de preços no milho, envolvendo indicadores econômicos e fatores relativos ao ritmo de plantio nos Estados Unidos. Ao que tudo indica, o mercado de milho para o segundo semestre de 2009 passa a ter solidez para sustentação de preços, enquanto o mercado internacional depende deste quadro de combinação de fatores econômicos unidos ao perfil de clima no meio-oeste norte-americano.

O fenômeno La Niña realmente não vem oferecendo folga para a safra 2009 de grãos na América do Sul. Inicialmente, ocorreu uma forte quebra na safra de verão, com perdas históricas no milho e na soja na Argentina, no Paraguai e, mais discretamente, no Brasil. Este fator hoje sustenta os preços internacionais dessas duas commodities. Entretanto, a característica desse fenômeno climático é de estiagens para parcela da América do Sul, excesso de chuvas no Norte do Brasil e inverno mais rigoroso. Para a safrinha 2009 de milho, a meteorologia apontava para uma estiagem no Paraná no primeiro semestre.

A estiagem confirmou-se e afetou um bolsão de plantio da safrinha no Paraná, Paraguai, sul do Mato Grosso do Sul e São Paulo. As perdas pela estiagem de verão já foram avaliadas e amenizadas pela retomada das chuvas em meados de maio em vários pontos de produção dessas localidades. Infelizmente, o período fundamental de definição de potencial de produção ocorreu em meio à seca. As lavouras de milho mais precoces sofreram na polinização com a seca, na floração e no pendoamento. As mais tardias sofreram no desenvolvimento vegetativo e no início da floração.

Retração da área — Algumas lavouras tardias de milho tinham chances de boa produção com as chuvas de maio, pois a umidade retornou em uma fase importante. Além disso, a falta de chuvas trouxe uma retração de área plantada em 14% no Paraná e 16,6% no Mato Grosso do Sul. Portanto, deve-se avaliar e não desconsiderar as perdas já evidenciadas e irreversíveis, refletidas com a estiagem de 60 dias nessas localidades. Chuvas tardias não revertem potencial de produção, e a oferta neste bolsão de safrinha está condicionada a uma retração, diante desta seca vivida no outono 2009 e pela retração de área plantada.

Todavia, a retomada das chuvas trazia uma nova preocupação, ou seja, um mês de junho com baixas temperaturas e riscos de geadas, o que é a característica do La Niña. Muito semelhante ao ano 2000, último grande impacto do La Niña sobre a safrinha, junho obteve uma previsão dos meteorologistas para temperaturas abaixo do normal e chances elevadas de geadas no Paraná.

Nos primeiros dias de junho, a primeira grande frente fria do outono/inverno chegou à região e trouxe a confirmação de ocorrência de geadas. No Paraná, Paraguai, sul do Mato Grosso do Sul e região Sorocabana, no estado de São Paulo, foram registradas geadas generalizadas por dois dias consecutivos. Algumas de maior, outras de menor intensidade. Mas, de forma geral, geadas com impactos diretos sobre as lavouras de milho. Deve-se avaliar que a genética melhorou muito as resistências e as condições de suporte das plantas a variáveis climáticas e de infestação de pragas.

Contudo, o milho não é uma lavoura de inverno como o trigo, que suporta temperaturas negativas. Portanto, não há milho resistente a geadas e não há fase da lavoura que esteja fora de risco de geadas. A única lavoura salva em relação a geadas é a que já foi colhida e armazenada. Se estiver no campo, terá, no mínimo, perda de qualidade acentuada com o evento geada. A área em que as geadas atingiram o Paraná representa de 70% a 80% da produção, tendo em vista que praticamente abrangeram todas as localidades com intensidade diferenciada.

Dificuldades na comercialização — No primeiro semestre de 2009, os preços do milho chegaram à máxima de US$ 200/tonelada, considerada ótima para um ano de crise. Porém, o mercado brasileiro vendeu apenas 2,1 milhões de toneladas até junho. Mesmo com a perfeita safrinha do Mato Grosso, o mercado seguiu considerando que o Governo teria que oferecer seus subsídios para o escoamento da safra. Não vendeu e está em plena colheita da safrinha, com dificuldades de comercialização devido à baixa expressiva nos preços externos.

A questão é que o milho está no mercado interno. Por pior que venha a ser o resultado de produção do Paraná, o compromisso de exportação não se elimina, pois existe um estoque de passagem de 2008 para 2009 em torno de 5,3 milhões de toneladas. A retenção por parte do produtor existe e pode se acentuar após o mês de outubro. Porém, é bastante difícil neste período de colheita da safrinha. Há milho e sorgo entrando no mercado e sendo comercializado dentro dos preços do cotidiano. Ou seja, por mais que exista alguma retenção de milho da safrinha, ainda há pressão de colheita e de venda. Por isso, esse perfil de preços no mês de julho e até agosto parece difícil de ser alterado sem um quadro diferenciado na exportação.

A exportação deve avançar de forma significativa a fim de enxugar rapidamente a disponibilidade interna e provocar uma mudança de postura por parte dos consumidores do mercado interno. Sem exportações, não há pressão interna e poucas chances de alta.

Os mecanismos do Governo vêm ao mercado para auxiliar a comercialização dentro de um momento pontual. O mercado brasileiro precisa assumir uma postura diferenciada e não permitir que a comercialização retome a década de 1980, quando o Governo era o principal comerciante de milho no mercado interno. O mercado interno, atualmente, começa a dispensar oportunidades de exportação, acreditando que o Governo solucionará os problemas de comercialização em qualquer momento, assim como já ocorre com várias culturas como trigo e algodão.

Há necessidade de uma avaliação mais precisa sobre dados e o que realmente o mercado tem consenso dentro do ambiente interno. Se há um órgão oficial que aponta um estoque de 9/11 milhões de toneladas de 2008 para 2009, haveria necessidade de incentivar o plantio da safrinha? Essa confiabilidade entre a informação real e as tomadas de decisão são importantes para a concepção do mercado de milho.

Recuo de área — A nova estimativa de intenção de plantio para a safra de milho 2009/10, divulgada em julho por Safras & Mercado, indica que a área poderá ocupar 12,177 milhões de hectares, o que representa um recuo de 6,7% frente à temporada anterior, de 13,056 milhões de hectares. Para a safra verão, a previsão é de que a área plantada chegue a 5,264 milhões de hectares, contra os 6,030 milhões de hectares cultivados na safra 2008/ 09, com queda de 12,7%.

Na segunda safra ou safrinha de milho, Safras & Mercado aponta uma área a ser cultivada de 4,458 milhões de hectares, 1,4% inferior aos 4,520 milhões de hectares registrados na temporada passada. Não apenas o interesse do produtor já é menor pelo milho, mas a demanda de insumos para o plantio é muito inferior ao normal. Assim, o Paraná deverá registrar retração de 17,8% na área cultivada, enquanto o Rio Grande do Sul terá 20,8% de retração e Santa Catarina, 4,3%. Nesses estados, a demanda por insumos já é mais definida no momento, devido ao plantio mais precoce, e a trajetória é de queda expressiva.

No Sudeste, as expectativas são de retrações em São Paulo em 3,3% e Minas Gerais, 4,6%. Essas localidades têm plantio mais tardio e poderá haver ainda mudanças no perfil. No Centro-Oeste, o excesso de plantio de safrinha e os atuais preços de mercado deverão afetar o plantio do verão em favor da soja. As retrações podem atingir 26% no Mato Grosso do Sul e 9,7% em Goiás.

Produção — A safra brasileira de milho deverá ficar em 49,477 milhões de toneladas, abaixo das 49,760 milhões de toneladas colhidas na temporada 2008/09. Apesar do bom primeiro semestre na comercialização interna, o momento do mercado interno de milho é bastante ruim do ponto de vista do produtor. Preços abaixo dos patamares mínimos em boa parte da região Centro-Sul, perda de expectativa com tendência de alta, fraca liquidez de exportação e uma relação de troca muito mais favorável à soja do que ao milho vêm trazendo um contexto de forte restrição ao plantio do milho neste verão 2009/10.

Há um estoque de passagem de 5,3 milhões de toneladas proveniente de 2008. Esse estoque, mesmo com as perdas de verão e safrinha/09, exige uma venda na exportação entre 7/8 milhões de toneladas em 2009, para que esse estoque venha a ser reduzido para 4 milhões de toneladas para 2010. Se as exportações não avançarem devidamente, esses estoques continuarão elevados para o próximo ano. Isso quer dizer que o setor precisa de uma correção neste patamar de estoques. Ou a exportação avança no sentido de reduzir esse quadro de sobreoferta, ou se corta o plantio de verão e safrinha no sentido de corrigir o excesso. Por esse quadro, é importante que a safrinha 2010 tenha plantio definido pelo próprio mercado. Se a trajetória for de retração de plantio, isso será favorável aos preços de mercado, à cadeia produtiva e ao plantio da safra de verão 2010/2011.

Na safra verão 2009/10 deverão ser colhidas 26,322 milhões de toneladas de milho, aquém das 28,492 milhões de toneladas registradas na safra passada. Para a safrinha, a produção estimada é de 17,139 milhões de toneladas, superior às 15,443 milhões de toneladas colhidas em 2008. A produtividade média tende a crescer na safra brasileira de milho 2009/10, ficando em 4.063 quilos por hectare, frente ao rendimento médio de 3.811 quilos por hectare da temporada passada. A produtividade média prevista para a safra verão é de 5.000 quilos por hectare, acima dos 4.725 quilos da safra 2008/09. Na segunda safra deverão ser colhidos 3.844 quilos por hectare, superior ao rendimento médio de 3.416 quilos por hectare indicados na safrinha 2008/09.