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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

SOJA

COTAÇÕES E ÂNIMO EM ALTA

Safra 2009/2010 de soja deverá ser a segunda maior área da história. Relação oferta e demanda mundial está bem apertada após perdas americana e argentina

Dylan Della Pasqua - Agência Safras - Com colaboração do analista Flávio França Júnior

A soja, principal cultura de produção e exportação do Brasil, deverá ter sua posição ainda mais consolidada na temporada 2009/2010. Beneficiados por um ano de 2009 de bons preços, os sojicultores deverão apostar suas fichas na oleaginosa e voltar a expandir o plantio. A comercialização alicerçou seu cenário favorável em um apertado quadro de oferta e demanda mundial. A safra americana ficou abaixo da expectativa e na América do Sul a situação não foi diferente. A seca entre o final de 2008 e o início de 2009 comprometeu a produtividade no Brasil e, em maior intensidade, foi responsável pela quebra da safra argentina. Enquanto a oferta ficou mais curta, a disputa pela soja no mercado internacional aumentou. A forte demanda por parte da China ao longo de todo o ano garantiu a elevação gradual dos preços da soja no mercado internacional, com reflexos positivos no Brasil. Diante deste panorama, a soja deverá, mais uma vez, liderar o aumento na área plantada com grãos na safra de verão.

A área a ser semeada com soja no Brasil na safra 2009/10 deve ficar entre um intervalo de 21,914 milhões a 23,334 milhões de hectares, com média ficando em 22,624 milhões. Esse total, em caso de confirmação, representaria um incremento de 4,1% sobre os 21,755 milhões semeados na safra 2008/2009. Este deve ser o terceiro ano seguido de avanço da cultura, após os dois anos de fortes recuos ocorridos em 2005 e 2006, devendo confirmar a segunda maior área plantada na história, ficando atrás apenas dos 23,284 milhões de hectares da safra 2004/05. Patamar esse que pode até ser superado, caso algum estímulo mais forte via preço venha a acontecer nos próximos dois a três meses.

Ao se levar em consideração a estimativa de evolução estatística de produtividade em condições normais de clima, que está em 2.838 quilos/ hectare, se chegaria a um potencial inicial médio para a safra brasileira de 64,213 milhões de toneladas. Neste caso estamos falando de aumento em 12% sobre os 57,272 milhões da revisada safra deste ano e de novo recorde histórico, superando os 60,220 milhões alcançados na safra 2007/08. Para a confirmação desses resultados, ou números ainda melhores, é preciso considerar a colaboração do clima, que este ano deve ter a influência mais benéfica do fenômeno El Niño, e a confirmação de aumento no nível tecnológico das lavouras, notadamente em relação ao uso de fertilizantes.

De acordo com o levantamento, divulgado no final de julho, por Safras & Mercado, foi identificada tendência de crescimento da soja em todos os estados produtores, de uma forma até certo ponto proporcional. Mais uma vez as maiores taxas de avanço devem ser registradas nas regiões Norte, com 6,2%, e Nordeste, com 6%, em áreas de milho, algodão, arroz e pastagens. Sendo que neste segundo caso também pode haver a incorporação de algumas áreas novas. Em seguida aparece a região Sudeste, com 4,9% de incremento, com avanço ocorrendo em áreas de milho, feijão, pastagens e reforma de canaviais.

No Centro-Oeste o aumento sinalizado está em 4%, com avanços até certo ponto proporcionais de 3,5% no Mato Grosso, de 4,5% no Mato Grosso do Sul e 4,8% em Goiás. A soja neste caso deve ter avanços sobre áreas de milho, algodão, arroz e pastagens. E por último há os 3,7% de expansão projetada para a Região Sul, que apesar não possuir áreas de fronteira agrícola, deve ver a soja crescer sobre áreas de milho, feijão e pastagens.

E neste ano novamente a sinalização é para incremento na área de soja do país, a princípio, em ritmo superior ao observado nas últimas duas safras. Desta vez, diferente do observado em 2008, quando a motivação vinha preponderantemente do mercado, o direcionamento para a cultura está relacionado a uma combinação de variáveis, de onde podemos destacar os bons preços médios da safra atual. Essas cotações vêm sendo realizadas por uma quantidade maior de produtores do que na safra passada.

Em outras palavras, apesar das intensas oscilações e limitações de preços, a soja se mostra mais atrativa do que os demais produtos, como é o caso do algodão, do milho, do feijão, do arroz e da própria canade- açúcar. Além, é claro, da continuidade do movimento de incorporação de pastagens. Desse modo, então, há uma nítida tendência de termos mais um ano de recuperação da área de soja, ficando em aberto apenas a intensidade desse incremento.

Fatores de estímulo — Esse sentimento predominante de elevação de área para a soja foi definido pelo maior peso percebido dos fatores positivos em relação à decisão dos produtores sobre os fatores limitantes. Embora desta vez o sentimento esteja se formando mais pelo conjunto das variáveis do que por um fator específico, como foi o caso em 2008:

a) Preços domésticos médios melhores em 2009 – Da média brasileira de janeiro a junho de R$ 45,36/saca há avanço de 3% sobre os R$ 44,16 da média inteira de 2008 ou sobre os R$ 44,21 da média em igual período de 2008. Esse resultado levemente melhor aconteceu pela combinação de melhores taxas de câmbio, cuja média de 2009 em R$ 2,1936 supera os R$ 1,8347 do ano anterior em quase 20%. E pelos melhores prêmios de exportação, cuja média subiu de US$ 12.69 cents para US$ 46.21 cents/bushel. No lado negativo, os menores valores praticados na Bolsa de Mercadorias de Chicago (Cbot, na sigla em inglês), cuja média deste ano de US$ 10.35 está 16% inferior aos US$ 12.33/bushel de 2008. Neste caso, apesar do quadro fundamental apontando estoques globais ainda mais ajustados, os valores perderam força em função da fraqueza observada pelo lado financeiro, com a fuga de investidores das commodities agrícolas.

b) Lucratividades médias ainda positivas – Em termos médios a temporada vai caminhando ainda para resultados positivos em termos de lucratividade bruta na soja brasileira, basicamente em cima dos preços médios obtidos. O desempenho só não foi melhor porque o ano foi marcado por perdas de produtividade em função de graves problemas climáticos e porque a safra foi semeada com custos de produção maiores. De todo modo, os ganhos médios desta safra estão parcialmente avaliados entre 9% a 29%.

c) Firme interesse consumidor – Apesar do recuo da demanda observado em 2009, em decorrência da crise econômica, as perdas no setor de alimentos foram muito menores do que nos demais seguimentos da economia. Além disso, a tendência aponta para alguma recuperação dos números já para 2010, notadamente no setor de carnes, e na demanda por bioenergia.

d) Provável avanço da transgenia – Em cima da eterna luta dos produtores para compatibilização dos custos de produção, é natural esperar pelo aumento na utilização de soja modificada geneticamente. Na safra 2008/2009, a parcela de soja transgênica cultivada no país subiu de 56% para 59%. Para a safra 2009/10, a expectativa é de 62/65%.

e) Redução nos custos de produção – Embora com planilhas ainda em fase de montagem, já é possível afirmar que este novo plantio será feito com custos menores de produção, com reduções avaliadas entre 10% e 20%. Destaque para o recuo nos preços dos fertilizantes, o que deve levar a um aumento na utilização nesta nova temporada.

f) Aumento na oferta de crédito oficial – O Plano Safra 2009/10 apontou aumento na disponibilidade de recursos do crédito oficial em 38%, passando de US$ 78 bilhões para US$ 107,5 bilhões. Além disso, aumentou a oferta de crédito com juros controlados pelo Governo e o limite de financiamento para os produtores de soja de R$ 400 mil para R$ 450 mil por beneficiário.

g) Resultado financeiro médio melhor que em 2008 – Mais importante do que os preços médios estarem levemente melhores do que no ano passado, o importante é que essas boas cotações estão sendo obtidas por uma parcela muito maior da produção, em função do melhor fluxo de comercialização pelos produtores.

h) Expectativa de boa produtividade – Ao contrário da safra 2008/2009, a expectativa para 2009/ 10 é melhor para a produtividade, por conta de clima mais regular em função da presença do fenômeno El Niño e do melhor uso de tecnologia nas lavouras.

i) Falta de atratividade nas culturas alternativas – Em função de problemas na comercialização da safra 2008/2009, será possível observar recuo nas áreas das principais culturas alternativas à soja. O relatório de intenção de plantio apontou área de milho total em 12,177 milhões de hectares, 6,7% inferior aos 13,056 milhões da safra 2008/2009, com quedas esperadas tanto na safra de verão como na próxima safra de inverno. No algodão há indicação de recuo em 5,5%, passando de 850 mil para 803 mil hectares. No arroz a área deve observar praticamente estabilidade, de 2,926 milhões para 2,936 milhões. Entretanto, a área da região central, que é alternativa para a soja, deve cair, sendo compensada por aumento da área de arroz irrigado nos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. E por último, o feijão da primeira safra (safras das águas), que tem recuo estimado em 4,5%, passando de 1,444 milhões para 1,379 milhões de hectares.

Fatores limitantes — Na contramão, existem os seguintes fatores atuando no sentido de limitar esse impulso dos produtores em direção à soja:

a) Baixa produtividade média em 2009 – Depois das boas colheitas de 2007 e 2008, o rendimento médio no país caiu para 2.639 quilos/hectare, influenciado por menor uso de insumos e graves problemas climáticos.

b) Insegurança cambial – Apesar do câmbio ter atuado de forma positiva para a formação dos preços em boa parte da comercialização de 2009, a tendência neste momento (julho de 2009) é negativa para os próximos meses, diante da combinação de firme entrada de divisas no país e pela desvalorização do dólar no mercado internacional. Além disso, as incertezas e as oscilações continuarão ocorrendo, sem a garantia de que o custeio e a comercialização ocorram com a mesma taxa.

c) Endividamento segue elevado – Apesar da repactuação que vem sendo acertada com o Governo, os produtores ainda detêm pesados débitos pendentes das safras anteriores, especialmente nas principais regiões de fronteira agrícola.

d) Crédito privado ainda limitado – Embora algumas empresas sinalizem para o aumento na disponibilidade de recursos em relação a 2008, a crise internacional ainda deve manter limitações no crédito privado em relação aos padrões anotados até 2007. Além disso, é esperada a manutenção da restrição de acesso a esses recursos, com elevadas taxas de seletividade.

e) Presença da ferrugem asiática – A incômoda presença da ferrugem asiática em todas as regiões de produção é outro limitante para a cultura, em função da elevação nos custos e limitação do potencial produtivo.

f) Meio ambiente – Há a limitação de crescimento da área imposta pelo aumento do controle oficial e privado sobre a questão ambiental, especialmente no caso da região da Amazônia Legal.

g) Cenário de preços limitado para 2010 – Levando em consideração as limitações trazidas pelo cenário incerto e defensivo para a taxa de câmbio e a expectativa de forte aumento nas safras dos EUA e da América do Sul, há um cenário de preços possivelmente mais frouxos na comercialização da soja brasileira em 2010 em relação aos patamares atuais.

Semestre positivo — Mais uma vez, no início do segundo semestre de 2009, a exemplo de igual momento em 2008, o sentimento predominante é positivo em relação à soja. Embora seja importante observar que o resultado parcial se encontra um pouco pior do que o observado em 2008, em 2009 há números positivos para uma proporção maior dos produtores. Esse sentimento positivo para a soja está ligado à combinação de elevados preços médios praticados, apesar de menores do que no mesmo momento do ano passado, lucratividade bruta ainda favorável para a grande maioria dos produtores e rentabilidade também positiva, mantendo os bons ganhos de 2008.

O primeiro indicativo, e o mais visível, a ser analisado sob a ótica da remuneração dos produtores é o comportamento dos preços. Neste caso o predomínio do sentimento é positivo, considerando que as bases praticadas no mercado interno ficaram sempre muito acima das médias históricas, tanto em dólares como em reais. Apesar de um pouco abaixo das posições no mesmo período de 2008. Os preços médios parciais em julho de 2009, na posição de dólares em algumas das principais praças de negociação, se encontravam entre 72% e 77% acima da média de dez anos para a informação mensal.

Bolsa de Chicago — Não há dúvidas de que a firmeza ocorrida no mercado de futuros da Bolsa de Mercadorias de Chicago (Cbot) é o motivador central da solidez observada nos preços internos no período analisado. Tanto que entre janeiro e junho de 2009 a valorização da soja na Cbot chegou a quase 22%. No lado fundamental, esse suporte decorre do enxugamento nos estoques mundiais e norte-americanos na temporada 2008/09, em função especialmente das quebras de produção ocorridas nos países sul-americanos. E no lado financeiro, o suporte veio com a melhora dos humores em relação ao futuro da economia mundial, com a expectativa de que os primeiros sinais de recuperação possam acontecer ainda no final de 2009. Com esse embasamento, a média de preços em julho de 2009, US$ 10,35/bushel, se manteve 48% superior à média de dez anos para o período, de US$ 6,98. No ano, a média parcial também estava em US$ 10,35, muito superior aos US$ 6,63 da média geral para os últimos dez anos. Mas em linha com o observado no parágrafo anterior, os preços de julho estavam 31% inferiores a julho de 2008. Além disso, os preços de julho já haviam caído 14% sobre a média de junho. Para inverter essa curva, é preciso o seguinte: no lado de fundamentos, alguma novidade no lado climático nos EUA; e/ou no lado financeiro, a retomada de expectativa positiva para a economia mundial.

Câmbio — Já no caso da taxa de câmbio, houve uma atuação mista. A taxa média parcial de julho foi de R$ 1,97, um ganho de 5% sobre o mesmo período de 2007 e de 24% sobre julho de 2008. Portanto, atuando favoravelmente à formação do preço doméstico no comparativo de um ano para o outro. Entretanto, no decorrer do primeiro semestre de 2009, foi derretendo dos R$ 2,3066 de janeiro para o R$ 1,9652 de junho, anulando com isso parte do suporte externo. E a tendência apontava para chances de novas quedas a partir do momento em que os sinais de recuperação econômica se tornarem mais fortes.

Prêmios — Considerando o tripé de variáveis que definem os preços internos, este é outro item onde o desempenho estava sendo positivo durante todo o período, inclusive nas posições de julho. O suporte neste caso estava acontecendo pela combinação de safra brasileira e sul-americana inferior ao esperado, forte demanda externa (favorecida pela ausência da Argentina na ponta vendedora) e queda nos valores dos fretes marítimos, aliando menor demanda global e baixos preços do petróleo. A média de 2009 de US$ 58 cents/ bushel está muito acima da média histórica geral de US$ -1/ bushel. O valor de US$ 125 cents de julho é o maior do ano, já influenciado pelo escasseamento da oferta interna, e está muito acima dos US$ 20 cents em igual momento de 2008. E a tendência é de que essas bases permaneçam sólidas nos próximos meses, diante da gradual diminuição na disponibilidade de produto.

Análise da lucratividade — A segunda variável fundamental nesse contexto de decisão dos produtores está na análise da lucratividade bruta, que compara a receita com o custo de produção. E da mesma forma do observado nos dois últimos anos, o setor vem trabalhando com números positivos no levantamento parcial para 2009, com clara possibilidade de fechar o ano também nessa condição. Mas diferentemente do ano que passou, desta vez esse desempenho favorável está ligado quase que totalmente aos preços médios praticados. Isso porque a safra foi marcada por aumentos expressivos nos custos de produção, que variaram entre 20% e 27%. E por duras perdas de produtividade, que derrubaram a média brasileira dos 2.819 quilos/hectare da safra passada para 2.633 quilos.

Não por coincidência é que os piores desempenhos em termos de lucratividade aconteceram nos estados onde as perdas de safra foram maiores. Com isso, chegamos a essa metade de 2009 com lucratividade parcial positiva em 17% na região de Cascavel/PR, de 21% na região de Rondonópolis/ MT, de 26% na região de Passo Fundo/RS, de 9% na região de Dourados/MS e de 29% na região SOJA de Rio Verde/GO. Em todos os casos, considerando como base o custo operacional de produção, que é o custo total excluindo a renda dos fatores (remuneração do capital e da terra).

Análise da rentabilidade — E a última variável a ser analisada é a rentabilidade, que considera a soja como opção de investimento e compara suas variações mensais com a inflação e com outros importantes ativos financeiros existentes no país. Neste caso também há a percepção de resultados parciais positivos, em linha com o observado em junho/ 2008, mais uma vez invertendo a tendência natural de queda para o período (nos últimos dez anos, a variação foi negativa em sete). O desempenho parcial do semestre voltou a ser positivo, superando, inclusive, boa parte dos demais ativos analisados, configurando-se como a segunda melhor opção de investimento no período, atrás apenas do mercado de ações. O preço médio da soja teve variação real acumulada de janeiro a junho de 2009 de 8,62%, praticamente no mesmo patamar dos 8,80% de 2008.

Esses dois resultados são os melhores desde o recorde de 30,08% alcançado em 1999. Em Cascavel esse ganho foi de 7,53%, em Passo Fundo de 5,77% e em Rondonópolis de 10,53%. Em relação aos outros investimentos, segurar a soja e não vender foi melhor opção do que ter vendido e aplicado em CDB pré-fixado, cujo ganho foi de apenas 3,57%, ou do que o 1,65% da Caderneta de Poupança, dos -7,95% de variação do Ouro, dos -7,95% do dólar paralelo e dos -17,97% do dólar comercial. Ficando atrás apenas dos 34,46% obtidos pelo Índice Bovespa, da Bolsa de Valores de São Paulo, cuja variação foi distorcida pela recuperação parcial ocorrida depois das violentas baixas do segundo semestre de 2008.