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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

BOI GORDO

PREÇOS E GANHOS NAS ALTURAS

Mas os custos de produção preocupam. Estudo aponta que, desde 2003, a arroba se valorizou 27,22%, enquanto o Custo Operacional Total subiu 63,19%

Os seis primeiros meses de 2008 foram de preços recordes e de alta rentabilidade no mercado brasileiro de boi gordo. Em São Paulo, praça de referência na comercialização, a arroba chegou a quase R$ 100 no período – bateu R$ 96 de máxima em junho –, patamar bem acima da média mais alta do ano passado, de R$ 73,17 a arroba, em dezembro. “O primeiro semestre foi de excelente demanda interna, de altas históricas em pleno período de pico de safra e de boa liquidez. Por outro lado, foi também um período de alta recorde de custos, com o bezerro dobrando de preço e com os grãos em alta constante”, comenta o analista de Safras & Mercado, Paulo Molinari.

De acordo com o analista, a demanda interna sólida, sustentando preços recordes na carne bovina, foi um fator importante no período, contrabalançando com a forte perda nas exportações. “O rebanho muito ajustado à demanda também deu solidez à comercialização, mesmo a preços muito altos”, observa. Como fatores negativos no período o analista cita a valorização do real, a elevação de preços dos insumos e a alta acentuada de preço do bezerro. “A valorização do real é um problema no momento em que reduz a competitividade externa brasileira”, diz Molinari.

O mercado brasileiro de boi gordo também enfrentou a alta do fosfato, vacinas, medicamentos e de insumos para a alimentação animal, itens que elevaram de forma substancial os custos de produção no semestre. “O bezerro subiu acentuadamente de preço, mas a relação de troca ainda se manteve relativamente equilibrada”, pondera o analista de Safras. Lembra que a pecuária brasileira manteve investimentos estagnados nesta década de 2000 no segmento de produção. Os preços do bezerro ficaram paralisados em R$ 350/ 400 cabeça, por quase sete anos, sendo o foco principal desta estagnação.

Durante esse tempo, os criadores não elevaram o número de nascimentos nos seus plantéis devido aos baixos preços, mas as exportações brasileiras de carne bovina cresceram de forma significativa – de 500 mil para 2,5 milhões de toneladas nesta década – enquanto a demanda interna também cresceu, o que levou os abates nacionais a saltarem de 20 para 35 milhões de cabeças/ano. “Tivemos um maior número de abates com baixo ritmo de nascimentos. O rebanho brasileiro parou de crescer e ainda encolheu, resultando na crise atual, de falta de animais de reposição”, diagnostica o analista de Safras, para quem a situação poderá se agravar em 2009.

Na opinião dele, o mercado, agora, dependerá dos prazos da pecuária para recompor a oferta, situação que levará pelo menos três anos para voltar à normalidade. “A pecuária ainda terá três anos de suor e lágrimas. Este ano, o setor vive a crise do bezerro. No ano que vem, será a crise do garrote e no ano seguinte, a do boi magro”, sentencia o analista, observando que a pecuária tem um ciclo longo e difícil e que somente agora a alta do bezerro está incentivando os criadores a reterem matrizes.

Molinari diz que a relação de troca boi x bezerro é a pior desde 2002, mostrando uma curva para baixo de 2 bezerros x 1 boi gordo e que, além do fator reposição, o mercado enfrenta escassez de boi gordo para abate. De acordo com o analista, a tendência é de que comece a haver uma recuperação dos nascimentos de animais a partir do ano que vem e de 2010, com a oferta de animais de reposição mostrando recuperação somente a partir de 2011.

Renda não acompanha custos – O quadro de abates menores teve reflexo também no atacado da carne bovina. Com o boi mais caro e uma demanda capaz de absorver volumes maiores, o atacado da carne bovina em São Paulo terminou praticando preços de até R$ 6,00 x R$ 5,00 nos cortes casados de traseiro e dianteiro, patamares também recordes para o período. “O boi magro em alta e os custos mais elevados de alimentação para o confinamento contribuíram para uma contenção das vendas via Contratos a Termo e uma estimativa mais conservadora em termos de volume de confinamento passou a ser delineada para este ano”, comenta Molinari.

Pelas suas previsões, serão confinadas cerca de 2,87 milhões de cabeças em 2008, desempenho 18% superior ao de 2007, mas ainda pequeno perto das necessidades de mercado, de demanda interna e de exportação, para esse segundo semestre. O analista chama a atenção para o fato de que o confinamento em 2008 dispõe de variáveis que dificultam a decisão por parte do confinador, entre as quais a elevação de custos. Explica que, inicialmente, os preços em alta constante no boi e a chance de viabilizar a venda em um Contrato a Termo ou em uma operação de hedge, na BM&F, motivam o confinamento, e por isso a procura por boi magro cresceu, mas que, por outro lado, os custos de produção estão elevados em 2008. O boi magro está caro e de difícil obtenção, enquanto o bezerro também enfrenta alta explosiva de preços.

Deverão ser confinadas cerca de 2,87 milhões de cabeças em 2008, número 18% superior a 2007

No caso da alimentação, a elevação de preços também é acentuada. Milho, farelo de soja, caroço de algodão, sal mineral e fosfato comprometem margens de operação, o que fez com que nem todos os confinadores conseguissem absorver lotes de boi magro na proporção esperada ou programada para este ano. Pesquisa da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da USP, mostra que, apesar da valorização de 3,35% no preço da arroba do boi gordo no primeiro trimestre, a renda do pecuarista não cobriu os custos de produção da atividade. Um dos fatores da elevação dos custos foi a alta nos preços do suplemento mineral usado na alimentação do rebanho, de 8,57% em março, acumulando 48,25% no ano. Este item, sozinho, representou 18,42% dos custos totais da pecuária nos três primeiros meses de 2008.

O estudo também mostrou que de março de 2003 a fevereiro deste ano houve uma defasagem de mais de 30% dos custos de produção em relação à valorização da arroba. Enquanto o Custo Operacional Total subiu 63,19%, a arroba teve valorização de 27,22%. “Não há motivos para comemorar, mas para se preocupar”, alerta o presidente do Fórum Nacional da Pecuária de Corte da CNA, Antenor Nogueira, prevendo o agravamento da situação deste cenário para 2008 caso o Governo não tome providências. “Apesar dos preços recordes, o primeiro semestre foi delicado para o setor carnes brasileiro e continuará merecendo atenção”, arremata Molinari. Destaca que as perdas na safra de milho no Brasil e na safra de soja, nos Estados Unidos, focam preços recordes para 2008/2009 e exigem cotações compatíveis em toda a cadeia produtiva para manter o equilíbrio e as margens de operação.

O analista bate na tecla de que o ciclo da pecuária é de dificuldade de oferta e diz que a curva de preços do boi gordo somente se corrigirá com o crescimento da oferta de animais para abate. “Apesar do maior confinamento em 2008, a situação de oferta continua difícil para esse segundo semestre. Portanto, se a demanda continuar firme e as exportações se recuperarem, há espaço para novos recordes de preços nas próximas semanas”, visualiza o analista de Safras.

Exportações: menos volume, mais faturamento – Enquanto o boi gordo traçou uma curva de correção de preços firmes, o setor carnes conseguiu compensar parte das altas no primeiro semestre na exportação e no mercado interno. Nos cinco primeiros meses deste – janeiro a junho –, as exportações brasileiras de carne bovina geraram receita cambial de US$ 1,98 bilhão, 7,2% acima do recorde de 2007. O volume exportado, no entanto, somou 881 mil toneladas, em equivalente carcaça, inferior ao de 1,14 milhão do mesmo período de 2007. “Estamos perdendo em volume, mas ganhando em receita. Não temos volume para exportação, mas temos compradores que estão aceitando preços bastante altos. Este perfil deve prosseguir no segundo semestre com alguma melhoria de volume”, prospecta o analista de Safras.

A queda no volume exportado no semestre teve justificativa numa combinação de fatores, como restrições por parte da Europa, câmbio em nova valorização e alta acentuada dos preços do boi gordo. O analista ainda prevê fortes dificuldades na exportação de carne bovina diante dos baixos abates decorrentes da pouca oferta de boi, mas destaca que há um ponto positivo nesse aspecto. “Será um período difícil para os frigoríficos, mas de retomada dos investimentos por parte do criador”, observa, frisando que a alta do boi gordo no mercado interno e a valorização do real têm forçado os frigoríficos a elevarem os preços de venda no mercado externo.

Os exportadores buscam a meta de US$ 4.000/tonelada, quase o dobro do início da década. Como não há sobreoferta externa e os demais competidores também têm preços altos, o Brasil ainda se mostra competitivo externamente, porém com baixa oferta disponível, o que limita o volume de vendas. O Brasil detém a posição de maior exportador mundial de carne bovina, porém a valorização do real e a alta de preço do boi reduziram o volume exportado no primeiro semestre em 300 mil toneladas em equivalente carcaça.

Mesmo liderando o ranking, existem alguns mercados em que a carne brasileira ainda tem dificuldade de entrar, seja por barreiras fiscais ou sanitárias, entre os quais o México, Estados Unidos, China, Índia e Japão. A retomada do comércio com o Chile, tão desejada por pecuaristas e exportadores, está prestes a acontecer. Em outubro, uma missão chilena virá ao Brasil avaliar as condições sanitárias dos Estados que até 2005 estavam habilitados a exportar carne bovina in natura para aquele país e poderá, inclusive, ampliar a área do Brasil autorizada a exportar carne bovina para o país andino. Atualmente, apenas o Rio Grande do Sul possui plantas autorizadas a vender carne bovina para o Chile.