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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

UVA/VINHO

HORA DE FECHAR AS PORTAS

Setor mobiliza-se para estancar ingresso de vinho importado no mercado nacional e manter a rentabilidade da produção

A preocupação dos produtores de vinhos com a concorrência imposta pelos importados ganhou caráter setorial. O ano de 2008 será marcado pelo início de uma das mais fortes ofensivas para impor limites ao escoamento da bebida no Brasil, que só no primeiro semestre de 2008 chegou a 21 milhões de litros. Para tentar assegurar renda às milhares de famílias que vivem da produção da uva e do vinho em todo Brasil, surgiu o Movimento em Defesa da Uva e dos Vinhos do Brasil. A ação integra diversas entidades em uma ampla pauta de reivindicações e tem atuação tanto nos gabinetes de líderes em Brasília quanto nas ruas das principais regiões produtoras.

E a reclamação tem fundamento. Se por um lado o consumidor está pagando menos pelo seu Cabernet Sauvignon, por outro, as vinícolas não sabem mais como competir no mercado de variedades finas que opera com preço do vinho de mesa. Alguns produtos nacionais já tiveram redução de 40% no valor e nem assim conseguiram reposicionamento de mercado. “Estamos vivendo um momento crítico. Ou o setor cresce ou desaparece”, pontua o diretorexecutivo do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin), Carlos Paviani. Ele lembra que o maior rigor à ingestão de álcool por motoristas imposto pela Lei Seca também deve trazer reflexo nos negócios em 2008. Segundo ele, a previsão é de queda de 9% no consumo em 2008, que deve ficar em 291 milhões de litros.

Estoques em alta — A situação é agravada pela abundância nos estoques internacionais do produto. Na safra 2008, 30 milhões de quilos de uvas viníferas foram processados como variedades comuns no Brasil, com redução de 50% em sua valorização. Para 2009, o cenário é ainda mais preocupante. Segundo estimativa do Ibravin, 150 milhões de quilos de uvas (finas e comuns) podem nem chegar à indústria. Só no Rio Grande do Sul, os estoques de passagem de vinho alcançaram 186 milhões de litros em 2007, o que, somando-se a safra de 2008 (333 milhões de litros), totaliza 520 milhões de litros. “Até julho, a comercialização foi de 91 milhões de litros, o que significa 429 milhões de litros disponíveis e uma projeção de estoques de 300 milhões de litros para o final do ano”, destaca Paviani.

Além das sobras de produto no Brasil, Argentina e Austrália também ampliaram a produção, e o Chile redirecionou boa parte de seus embarques ao Brasil. Se os mecanismos que vêm sendo pleiteados pelo setor ao Governo não derem o resultado esperado, a safra de uva e vinho deve amargar um duro ajuste de mercado. Consciente da situação, o Ministério da Agricultura deu início a algumas ações para amenizar a situação. A primeira medida – que foi implementada no final de julho – foi a utilização de leilões de Prêmio de Escoamento de Produto (PEP) para o encaminhamento dos estoques existentes no Sul do Brasil para o Norte e Centro-Oeste. O primeiro pregão negociou 99% dos 4 milhões de litros ofertados em menos de 30 minutos com valor da abertura de R$ 1,19. Outros dois leilões estão programados para este ano, mas ainda não tiveram edital publicado.

Já a subvenção do Governo à utilização de destilado de vinho para correção do teor de açúcar de safras seguintes também deve ajudar a reduzir estoques. Pelo mecanismo, a União assumiria a diferença de custo entre o destilado de vinho e o açúcar de cana (utilizado atualmente no processo), viabilizando o uso de mais 40 milhões de litros entre setembro deste ano e fevereiro de 2009.

Com relação à concorrência internacional, uma das opções mais viáveis é a regulamentação da lei 11.727 para incluir o vinho em uma lista de produtos com cobrança de imposto por unidade métrica para países de fora do Mercosul, em substituição à Tarifa Externa Comum (TEC). A adoção de uma tarifa fixa deve encarecer os vinhos de menor valor e incentivar a importação da bebida mais cara, o que atinge direto os embarques de Chile, Itália, Espanha e França. O objetivo é garantir a rentabilidade do vitivinicultor nacional e, a partir do ingresso de bebidas de maior qualidade, motivar os produtores a produzirem mais e melhor. “São formas de proteção do mercado interno sem proibir a entrada do produto”, aponta o chefe-geral da Embrapa Uva e Vinho, Alexandre Hoffmann.

Com a Argentina, a negociação inclui um acordo de divisão eqüitativa da demanda dentro do Mercosul. Um dos pontos que está em análise pelas lideranças brasileiras é a criação de um piso mínimo de US$ 22 para caixas de 12 garrafas procedentes do país vizinho. “Essas dificuldades são históricas, mas se acentuaram nos últimos cinco anos, principalmente por conta de um fator externo que foi a redução da taxa de câmbio”, complementou Hoffmann.

Uvas — A produção de uvas no Brasil em 2007 foi de 1,354 milhão de toneladas, 11,04% superior ao ano de 2006. Houve redução na produção em São Paulo (-1,19%) e em Minas Gerais (-2,62%). Nos demais Estados, ocorreu aumento na produção. O maior acréscimo foi registrado na Bahia, 34,45%, seguido por Santa Catarina (14,16%) e Rio Grande do Sul (13,04%). Do total de uvas produzidas no Brasil, 47,02% foram destinados à elaboração de vinhos.