A Granja do Ano – 34 anos da melhor prestação de informações e serviços ao profissional do campo.

Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

CITROS

UM NOVO CICLO ECONÔMICO

Em relação às temporadas anteriores, 2008/2009 é marcada pela imprevisibilidade

A agricultura, de um modo geral, tem ciclos de preços, que podem durar anos e que geralmente alternam valores altos e baixos. Na citricultura não costuma ser diferente. E a safra 2008/2009 é o início de um novo, e imprevisível, ciclo para o mercado. O setor da citricultura paulista começou a crescer entre 1970 e 1980, em decorrência de fortes geadas na Flórida e a conseqüente falta de matéria-prima nos Estados Unidos. A partir de 1990, com a recuperação dos pomares da Flórida e a expansão da atividade em São Paulo, a produção total de laranja nos dois Estados teve um aumento significativo. Segundo dados da Associação Brasileira dos Exportadores de Cítricos (Abecitrus), em 1997, somente São Paulo produziu 428 milhões de caixas de 40,8 quilos. Juntamente com as 244 milhões da Flórida no mesmo ano, a produção totalizou 672 milhões – considerada recorde até hoje não superado.

A entrada do século 21 marcou o setor com uma crise gerada por fatores como a falta de tratos culturais nos pomares paulistas, problemas de preços na década anterior, aumento da incidência de pragas e doenças e a expansão da cultura de cana-deaçúcar em detrimento dos pomares. Todo esse cenário impulsionou a alta de preços para o produtor, que perdurou até 2003, quando o preço do suco de laranja no mercado internacional sofreu uma forte redução e, em junho de 2004, a Bolsa de Valores de Nova Iorque marcou um recorde de baixa nos contratos do suco de laranja concentrado e congelado, o que não se via desde 1974.

Este ciclo em que a citricultura entrará na próxima década é bem menos previsível que os anteriores, pois a fase de furacões sobre a produção da Flórida acabou na safra passada (2007/2008), o que ameaça o domínio do Brasil no mercado externo. Segundo Flávio Viegas, presidente da Associação Brasileira de Citricultores (Associtrus), a demanda é crescente e os estoques foram reduzidos nos últimos quatro anos. “A oferta está caindo, os dois grandes produtores, São Paulo e Flórida, estão tendo a produção de laranja reduzida e os preços do suco ao consumidor estão aumentando continuamente”, relata.

A Secretaria de Agricultura de São Paulo indica uma safra de 368 milhões de caixas, mas a Associtrus prevê quebra da safra de 20% a 30%

Suco made in Brazil — A citricultura no Brasil está voltada à produção do suco de laranja, destinado à exportação. Cerca de 90% das vendas externas são controladas pelo setor industrial, que tem forte participação no processamento de citros na Flórida, segundo maior produtor mundial, depois de São Paulo. É que as indústrias de citros brasileiras também têm participação (são acionistas) em processadoras de suco americanas. O setor industrial está dominando toda a cadeia produtiva, ao produzir a própria fruta e se associar aos grandes engarrafadores. Com isso, foi criado um segundo mercado virtual, o de suco de laranja, que funciona como um parâmetro para definir os preços praticados no mercado interno e externo.

“Os preços do suco concentrado, na bolsa norteamericana ou no mercado físico, passaram a ser meros referenciais para a remuneração dos citricultores (o suco de laranja concentrado, matéria-prima para o suco final, é usado como referência na bolsa de valores). O Brasil tem um prejuízo enorme, porque as empresas exportam o suco para empresas que elas mesmas controlam no exterior. O preço tem sido muito inferior ao preço de referência.”, esclarece Viegas. “O registro de exportação no Porto de Santos é baseado no suco concentrado e não supera US$ 1.500/tonelada. Isto representa cerca de 60% do valor de referência do mercado de suco concentrado. São divisas e impostos que deixam de entrar no país. Historicamente, a partir do início da década de 1990 houve uma grande concentração na indústria, uma mudança radical no setor. Antes, esse preço de Santos representava 28% a 30% do preço final do suco e hoje isto é menos de 15%.”

Para o presidente da Associtrus, a solução para este problema seria uma melhor organização dos produtores. “Sempre o perdedor é o produtor. Via de regra, toda cadeia produtiva de setores menos organizados transfere renda para os setores mais organizados”, reclama.

Expectativas — A estimativa de crescimento tem gerado uma grande polêmica, pois enquanto a Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo indica uma safra de 368 milhões de caixas, a estimativa da Associtrus é inferior: “A nossa estimativa é de que a quebra da safra seja de 20% a 30% a menos em relação a esse número. Essa nossa estimativa ficou fortalecida pelo relatório do USDA (Departamento de Agricultura Americano), em que se afirma que poderá ficar na faixa dos 300 milhões de caixas”, justifica Viegas. Se confirmada esta previsão, pode-se chegar ao preço médio de R$ 10,38 a caixa, de acordo com o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da Universidade de São Paulo. Ainda de acordo com o órgão, este valor está sendo pago pelas indústrias para citricultores que não tenham contratos.

Este é o segundo maior valor desde 1995, quando o preço era de R$ 1,66 e considerado acima dos preços já estabelecidos em contratos antigos, variáveis ao Julio Soares câmbio atual, entre R$ 4,80 (US$ 3) e R$ 12,19 (US$ 7,5). No entanto, 5% abaixo dos R$ 10,93 praticados em julho de 2007. De acordo com a Abecitrus, em 2007 os números de exportação brasileiros alcançaram o patamar de 1,391 milhão de toneladas e renderam quase US$ 2,4 bilhões, aumento de 6,8% e 55%, respectivamente, em relação à safra anterior. As atuais cotações internacionais do suco de laranja estão muito abaixo do esperado e têm sido fonte de preocupação para as indústrias brasileiras. Ainda assim, os produtores esperam repetir os ótimos resultados do ano passado.

Greening — Para a Abecitrus, a citricultura brasileira iniciou uma nova era com a chegada da doença greening nos pomares paulistas. Pelas características envolvidas esta é a maior ameaça já sofrida pela citricultura do Brasil. “Devido à severidade da doença, existe legislação específica que determina a obrigatoriedade dos citricultores em eliminar plantas afetadas”, explica Cícero Augusto Massari, gerente-técnico do Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus). “Cabe às secretarias de agricultura dos Estados onde a doença já tenha se manifestado (São Paulo, Minas Gerais e Paraná) adotar medidas que garantam o cumprimento da legislação, ou seja, fiscalizarem os pomares cítricos”.