A Granja do Ano – 34 anos da melhor prestação de informações e serviços ao profissional do campo.

Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

FRUTAS

É PRECISO DESCASCAR O ABACAXI

Elevação do consumo passa por adoção de técnicas de pré-preparo e fracionamento de frutas ofertadas ao mercado

A fruticultura brasileira vive um momento de conquistas. Depois de obter um status sanitário de primeiro mundo e adotar rigorosos critérios para aquisições externas, o principal desafio do setor produtivo é ampliar o consumo. Segundo o Instituto Brasileiro de Frutas (Ibraf), a meta é elevar entre 6% e 8% a demanda interna, que hoje é de 61 quilos por habitante/ano. E a melhor forma de atingir essa marca é apostar alto em estratégias que facilitem a vida do consumidor. Um dos segmentos que mais têm se expandido com base nessa idéia é o de sucos, polpas, néctares e drinques à base de frutas, que representam mais de 1 bilhão de litros/ano.

O processamento cresceu 14% ao ano na última meia década e deve se manter em alta, com destaque para a água-de-coco, que lidera com ganho de 23%. A demanda nacional é de 4 litros por habitante de variedades concentradas e de 2 litros dos produtos prontos para beber, néctares e drinques. “São produtos que têm fácil manejo e não são perecíveis. Diferente das frutas in natura, não precisam manipulação. Vão da geladeira para a boca”, justifica o presidente do Ibraf, Moacyr Fernandes. E ganhar espaço na mesa do consumidor nunca esteve tão fácil. Afinal, as pessoas estão conscientes da necessidade de adoção de hábitos mais saudáveis. Contudo, para aproveitar todo esse potencial, é preciso oferecer ao cliente um produto seguro, barato e atrativo.

União — Além de “descascar o abacaxi” para o cliente, o produtor e a indústria necessitam de organização. Boa parte da safra brasileira de frutas ainda é vendida por consignação ou passa pelas mãos de atravessadores que pouco agregam ao setor. Esse sistema ainda conta com uma logística que torna as frutas caras ao consumidor, sem que isso traga renda ao campo. Uma das opções apontadas é a união em cooperativas e consórcios de produtores, que lhes permitam ganhar escala e, com isso, adquirir maior poder de barganha e igualdade de condições entre pequenos e grandes fruticultores.

Estimativa do Ibraf indica que apenas 40% das frutas produzidas no Brasil chegam ao mercado, seja para consumo in natura seja para industrialização. Os 60% restantes não saem do campo, ou seja, ou acabam perdidas no pomar, ou são consumidas de forma aleatória por meio da produção doméstica e comércio informal. Para garantir ganho no consumo per capita, o setor desenvolve ações diversas como o programa de substituição de pomares (que torna as árvores mais produtivas), de fomento e educação alimentar e de estímulo à utilização de frutas na merenda escolar. “A sociedade precisa se conscientizar de que a fruta é um alimento e não deve ser vista apenas como um complemento”, salientou.

O Brasil tem hoje pelo menos 30 grandes pólos de produção de frutas, espalhados de Norte a Sul, em 2,2 milhões de hectares. O país é o terceiro maior produtor de frutas do mundo, com 41,9 milhões de toneladas, depois da China e da Índia, o que movimenta US$ 9,5 bilhões por ano com frutas frescas, atingindo um patamar superior a 12,2 bilhões de dólares incluindo as castanhas, nozes e os produtos processados. São Paulo lidera o ranking como maior produtor de laranja, limão, tangerina, goiaba, caqui e abacate, ficando em segundo lugar em banana, uva, pêra, pêssego e figo. No caso da laranja, por exemplo, os pomares paulistas responderam por 14,7 milhões de toneladas das 18 milhões de toneladas produzidas no país. A região Sudeste teve ainda participação expressiva na produção de abacaxi, sendo que Minas Gerais respondeu por 608.170 toneladas de um total de 3,4 milhões de toneladas de frutas colhidas no mesmo período.

A incógnita do setor hoje está relacionada à evolução da comercialização no segundo semestre do ano. A volta da inflação pode obrigar o produtor a reajustar os preços das frutas, principalmente de variedades como o melão, a manga e a uva. Contudo, isso não deve ter reflexo de imediato no bolso do consumidor. Por questões típicas e sazonais dos pomares, a fruticultura deve refletir esse novo cenário apenas no primeiro semestre de 2009, puxada pela safra da maçã, do pêssego e da ameixa. No entanto, o presidente do Ibraf garante que ainda é cedo para traçar projeções, já que o Governo tem ferramentas para conter a inflação e de se valer delas para evitar a disparada dos preços.

Exportação — As exportações estão retomando o patamar de crescimento médio. No primeiro semestre de 2008, o ganho atingiu 15%, sendo que entre 65% e 68% são remetidos aos países europeus. “A desvalorização do dólar é danosa para o mercado, mas nem tanto porque negociamos muito em euro”, explica. O bom potencial torna o Brasil superavitário na balança comercial da fruticultura. Mesmo com registro de importações de variedades como a pêra, nectarina, ameixa, pêssego. As aquisições estão cada vez mais rigorosas, principalmente com relação ao controle sanitário. No mês de março, o Ministério da Agricultura suspendeu a aquisição de frutas chilenas em função da presença do ácaro Brevipalpus chilensis em algumas cargas. “Esse rigor garante que as frutas virão com o nível de proteção e garantia que o Governo exige”, salientou.

Apesar de não terem trazido contratempos para a maioria das frutas, as condições climáticas de 2008 atingiram em cheio o cultivo da maçã na Região Sul. A ocorrência de frio fora de época (em plena reta final de frutificação) em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul obrigou a antecipação da colheita e reduziu a estimativa de produção. A previsão da Associação Brasileira dos Produtores de Maçã (ABPM) é de que a safra renda 832 mil toneladas, frente à média histórica de 1 milhão de toneladas/ano. A redução da produtividade ocorreu principalmente em função do menor tamanho das frutas, já os pomares tiveram 30 dias a menos de ciclo. Mas o tempo também trouxe compensações em relação à qualidade. Mais saborosas, as maçãs tiveram incremento de 33,15% no preço e retomaram o patamar praticado em 2006.