A Granja do Ano – 34 anos da melhor prestação de informações e serviços ao profissional do campo.

Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

LEITE

MARGEM DO PRODUTOR ENCOLHE

O preço está bom e as exportações em alta. Mas os custos e o câmbio são desanimadores

O céu de brigadeiro para o setor produtivo de leite, que marcou 2007, começou a toldar-se com nuvens mais escuras logo nos primeiros meses de 2008, deixando os produtores apreensivos. Os bons ventos foram se dispersando e com eles foram as boas margens do produtor. Mas é bom atentar para alguns fatos que se destacaram nesse cenário da cadeia produtiva do leite e que apontam para o futuro próximo do setor.

Em primeiro lugar, é preciso observar que desde o ano passado, a pecuária leiteira mundial vem passando por significativas transformações e que importantes países produtores ou estão com sua produção estagnada ou mostram recuos. Rodrigo Sant’Anna Alvim, presidente da Comissão de Pecuária de Leite da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), observa que enquanto isso o consumo segue firme numa curva levemente ascendente, registrando um crescimento entre 3% e 4%. Ou seja, um cenário de retração de oferta para uma demanda aquecida. A expectativa de preço do leite no mercado internacional é que se mantenha nos próximos anos com pouca variação nos US$ 3.400 a US$ 4.500 a tonelada do produto em pó.

O consumo segue firme numa curva levemente ascendente com crescimento entre 3% e 4% ao ano

Alvim nota que o Brasil vem sabendo aproveitar as oportunidades que o mercado apresenta. Em 2007, a produção cresceu em torno de 10% e neste ano a previsão das lideranças é de que fique ao redor de 4%. Tal situação tem-se refletido no preço pago aos produtores, cuja média situou-se entre R$ 0,75 e R$ 0,80 o litro, em 2007, mantendose neste ano em torno dos R$ 0,76. Para o dirigente, o destaque no cenário de 2008 que sinaliza perspectivas para os próximos anos são as exportações brasileiras de lácteos que se mantêm bem aquecidas. É positivo para o Brasil, por inseri-lo no mercado internacional, que é difícil e altamente competitivo. Mas devido ao câmbio e à elevação dos custos de produção, as margens do produtor caíram, avalia.

Exportações em alta — No quadro das exportações em 2008, verifica-se que o Brasil nunca exportou tanto leite. De janeiro a junho, foram US$ 238,2 milhões (em 2007, no mesmo período, US$ 90,8 milhões). Ou seja, o faturamento nesses seis primeiros meses do ano já está próximo do que foi alcançado em todo o 2007 (US$ 299 milhões). A previsão da Conab é de que as exportações chegarão aos US$ 550 milhões. “O saldo de nossa balança comercial de janeiro a junho deste ano é 549% maior do que o de janeiro a junho do ano passado. Moral da história: é um resultado fantástico, exportamos mais que o dobro, só que o produtor não está numa situação sequer igual ao primeiro semestre do ano passado”, diz. Ele acrescenta que o problema é o aumento do preço dos insumos. Estes representam praticamente 60% do custo total da produção leiteira, que são as rações (soja e milho, que tiveram aumento expressivo) e o sal mineral, que subiu mais de 100% nos seis primeiros meses deste ano.

Com isso, a margem do produtor despencou, mesmo com o preço do leite estando num bom patamar e não obstante o incremento das exportações. Diferentemente do ano passado, quando o país bateu recorde de exportação (quase US$ 300 milhões) e o produtor, pelo menos no primeiro semestre, aferiu uma renda que há muito tempo não conseguia. “Este ano a questão cambial não tem permitido isso. A supervalorização do real obrigou as indústrias a reduzirem um pouco o preço pago pelo leite. Precisaram baixar seu custo de produção para continuarem a exportar”, explica.

Captação de leite — Mesmo que o índice de Captação de Leite do Cepea (ICAP-L/Cepea) tenha apontado redução na captação de leite nos últimos meses, o fato é que, em relação a 2007, a captação é superior. Tomando o mês de maio deste ano, a captação é 27% superior que a do mesmo período de 2007. Essa é uma questão que merece a atenção do setor, segundo Alvim. “Apesar de tudo, o índice de captação de leite no país está aumentando muito, veja o exemplo de maio. Aumenta a oferta, o consumo interno não aumenta na mesma proporção e temos de exportar. Felizmente os preços internacionais estão muito superiores que dois anos atrás, mas mesmo assim a questão cambial não cria uma situação favorável para o produtor melhorar sua receita, como no ano passado.”

Em sua análise, Alvim não vê uma tendência de queda de preços. Estes tendem a se estabilizar no patamar atual, “pois, se cair, quebra o setor produtivo de leite do país”. A questão não é o preço pago ao produtor, mas sim custo de produção, pois os preços praticados são muito interessantes, se comparados a períodos anteriores. “Se compararmos os preços pagos em junho de 2008 em relação a junho de 2007, são muito superiores, pois estamos com a média nacional hoje em torno de R$ 0,76 contra R$ 0,65.” Ele ressalva que o problema do setor hoje não é o preço do leite, mas sim os custos de produção.

Leite é um bom negócio — Além do incremento das exportações, ultimamente a cadeia do leite tem chamado a atenção graças aos investimentos de grandes grupos econômicos na compra de laticínios. Isso mostra que o leite é um bom negócio. “A questão é: como fica o produtor? Ele vai ser inserido nesse bom negócio, ou mais uma vez, por ser o elo mais fraco da cadeia, ficará à margem desse processo? Qual a saída para o produtor aproveitar esse bom momento?”, indaga.

No seu entender, com certeza a saída para o produtor é organizar-se. Os produtores não devem ter um relacionamento individualista. “Se olharmos para os principais países produtores de leite, a cooperativa é a solução para defender comercialmente o segmento produtivo. É preciso que os produtores se organizem da porteira para fora da fazenda”, assinala. Ainda mais ante uma indústria que a cada dia se agiganta por meio de fusões, incorporações e ganham um poder enorme. “Essa é uma briga que dia a dia se torna mais desigual. Então, frente a essas grandes indústrias muito bem organizadas, ou os produtores se organizam e ganham força, ou vão pagar um preço muito caro por isso.”