A Granja do Ano – 34 anos da melhor prestação de informações e serviços ao profissional do campo.

Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

FEIJÃO

PREÇOS HISTÓRICOS

Bom momento vai levar os produtores a ampliar a área da primeira safra em 10,62%. O problema é a possibilidade de 'bolha' nos preços

O ano de 2008 tem sido de recordes para o feijão. A redução da produção na primeira safra 2007/2008 levou o mercado além do que se previa. Nesse sentido, o reflexo foi um primeiro semestre de 2008 marcado por pressão inflacionária constante do feijão e importações recordes do tipo preto. Historicamente o recorde de preço era de R$ 144 para o tipo carioca, relativo a 11 de março de 2003. Contudo, em janeiro de 2008, no auge da crise de oferta do feijão, a saca de 60 quilos chegou a ser negociada no mercado atacadista de São Paulo (Bolsinha) por R$ 297,50.

O ano marcou também um novo recorde para as importações do grão. Com isso, o consumidor brasileiro de feijão-preto experimentou neste inverno um toque oriental em sua feijoada. A divulgação das importações do tipo preto em junho não trouxe novidades. Como era de se esperar, foi outro mês de importações recordes. Dessas importações, historicamente atípicas, o que mais impressiona é o salto do primeiro semestre de 2008 em comparação com o mesmo período do ano anterior.

Com um horizonte de mercado e preço bom, “as previsões para a próxima safra são muito otimistas e, nesse sentido, é preciso se precaver e evitar uma ‘bolha’ no mercado provocada pelo excesso de oferta”, afirma o analista de Safras & Mercado, Rafael Poerschke. Muito se discutiu às vésperas do Plano Safra 2008/2009 sobre como poderia afetar a área de feijão na temporada e em quais Estados estariam localizados tais efeitos. Mas pouco se fala que os preços anteriores determinam a safra seguinte. Uma primeira safra com aumentos entre 5% e 10% na área cultivada, como se espera, pode acarretar uma redução da intenção de plantio para segunda e terceira safras e conseqüentemente trazer preços próximos ao preço mínimo de R$ 80 por saca.

A coerência dessa afirmação está na volatilidade dos preços do feijão no mercado interno. Uma primeira safra com reduções de área, como foi o caso deste ano, trouxe os preços a patamares recordes na História do feijão. Se em 2008/2009 a primeira safra crescer tanto como é esperado, é fato que os preços despencarão logo em meados de dezembro de 2008. É preciso que o produtor abra seus olhos para essa possibilidade e trate de se precaver fazendo alguns contratos para entrega de parte de sua produção com preços razoáveis para que se garanta a rentabilidade – mantendo estável a variável tempo.

Plano Safra frustrante — É fato que os preços estão convidativos e também é fato que a primeira safra deve crescer. Contudo, o novo Plano Safra frustrou boa parte dos pequenos produtores, que esperavam um pouco mais. Mas, de outro lado, o mercado corre o risco iminente de que grandes produtores continuem a dedicar uma porção de seus pivôs ou de terras para o feijão em função dos preços atraentes mesmo que os “comparando aos patamares de preço praticados atualmente, o preço mínimo tenha soado como piada”, diz Poerschke.

Esses preços altos se traduzem em insatisfação de varejistas em relação ao repasse de preços ao consumidor. “Que consumidor está satisfeito pagando R$ 6 pelo quilo de feijão? Esse preço é irreal e pode ser um indicativo de uma ‘bolha’ no mercado brasileiro. É preciso muita atenção ainda para que a realidade não caia por terra”, de acordo com o analista de Safras & Mercado. Após o Índice de Preço ao Consumidor Amplo (IPCA) registrar deflação em abril e maio, no mês de junho a tendência foi revertida pelas novas altas nas cotações do feijão no mercado interno.

A produção de feijão nos últimos cinco anos tem demonstrado alto padrão cíclico em seu comportamento. Preços mais altos em uma safra tendem a estimular o plantio para a próxima, e a expansão da fronteira agrícola em busca de uma maior rentabilidade se traduz em um excesso de oferta. Conseqüentemente, os preços caem e, por sua vez, pressionarão a área para a próxima safra trazendo novamente preços mais convidativos e assim sucessivamente.

Nesta situação, o feijão em janeiro disparou e atingiu a média histórica de R$ 242,69. Como reflexo houve um aumento em 4,5% na área da segunda safra 2007/2008 a fim de equilibrar a oferta – que não foi suficiente para refletir como pressão sobre os preços. A expectativa para a primeira safra 2008/2009, com o feijão cotado no mês de julho, em média, a R$ 188,36, é uma forte puxada de área para cima. Assim, o mercado aguarda um retorno da área aos patamares próximos de 2006/2007, ou seja, um aumento de 15% na primeira safra 2008/2009. Contudo, no mercado existe uma limitação de sementes de alto rendimento para ofertar a todos os cooperados e produtores de alguns Estados, além do elevado custo das mesmas.

Aumento de área — Os produtores brasileiros deverão cultivar 1,459 milhão de hectares na primeira safra da temporada 2008/09, com aumento de 10,62% sobre o ano passado, quando o plantio ocupou 1,319 milhão de hectares, segundo projeção de intenção de plantio realizada por Safras & Mercado. O levantamento indica produtividade de 1.022 quilos por hectare em 2008/ 2009, contra 1.004 quilos no ano anterior. Se a projeção inicial se confirmar, a produção da primeira safra deverá crescer, pulando de 1,339 milhão de toneladas para 1,491 milhão de toneladas.

Os produtores deverão cultivar 1,459 milhão de hectares na primeira safra2008/09, aumento de 10,62%

Ainda, outro fator positivo nessa perspectiva de menor concorrência, é a desvalorização do dólar. Isto atua como inibidor de competitividade interna para algumas commodities, mas, por outro lado, barateia a importação de determinados insumos. A expectativa, entretanto, repousa nas condições climáticas favoráveis para que se inicie o plantio. Mas a atual perspectiva não é boa. As chuvas incidem em volume satisfatório apenas no Centro-Sul, podendo ocasionar uma redução da área em cima da projeção atual. Contudo, ainda é muito cedo para se afirmar uma redução em função de falta de chuva no período de plantio do feijão. O produtor deverá esperar nesse mês de agosto boas chuvas para poder semear a leguminosa.