A Granja do Ano – 34 anos da melhor prestação de informações e serviços ao profissional do campo.

Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

CAFÉ

À ESPERA DE DIAS MELHORES

Oscilações bruscas nos últimos meses nos mercados, após período até de "bolha", perfazem a realidade que o cafeicultor enfrenta

A volatilidade é comum nas bolsas de café pelo mundo. Mas os primeiros sete meses de 2008 foram de exagero no que se refere às bruscas oscilações nos preços da commodity. Lógico que isso não foi privilégio só do café, pois ocorreu com todas as commodities pelo mundo, reflexo de mudanças na economia americana e mundial e dos fortes deslocamentos de “montanhas” de dinheiro dos fundos pelas bolsas. O mercado começou o ano sacudido pela crise americana, que envolvia o sistema de crédito imobiliário, mas sinalizava algo pior. Concomitantemente, tornou-se mais visível o aperto na oferta de commodities, e o crescimento palpável na demanda por alimentos e energia na Ásia, especialmente, com destaque para a China e Índia, contribuiu para ganhos nas bolsas e mercados mundiais.

Os grandes fundos, com os temores com a economia americana, começaram a deslocar seus recursos de mercados financeiros para as commodities. Enxergaram esses fundamentos positivos nas commodities, com apertada relação de oferta e demanda, e entraram com muita intensidade nas bolsas. Em fevereiro, essa movimentação foi responsável por fortes elevações nos preços do petróleo e outros produtos, levando o café a ter também uma disparada nos mercados futuros, tanto para o robusta na Bolsa de Londres quanto para o arábica em Nova Iorque.

Para completar, a desvalorização do dólar em relação a outras moedas, ao euro especialmente, completou o cenário para a elevação nas cotações. Como as commodities são dolarizadas, há essa “correlação inversa” entre o dólar e os preços dos produtos nas bolsas. Se o dólar cai, como ocorreu, há a necessidade natural de compensação no preço da commodity, que sobe para manter a relação anterior com o câmbio. Se o dólar sobe, a tendência é de queda dos preços do produto.

Uma “bolha” para piorar — Entretanto, o problema foi que os preços exageraram na subida. Foram além de fundamentos, além do razoável. E criou-se o que analistas normalmente chamam de “bolha”. Uma “bolha sem justificativa”, nas commodities em geral, como diz o analista de Safras & Mercado Gil Barabach. E uma bolha ora ou outra faz o que ela foi feita para fazer: estoura. E então, depois de bruscas altas, os preços despencaram em março. E, como comenta Barabach, da mesma forma que, quando o mercado subiu, ele subiu demais, quando caiu, também foi exagerado. No café, os fundamentos apontam para os estoques mais baixos da história quando encerrou a temporada 2007/2008 (julho a junho). Isso é fator de suporte aos preços inegavelmente.

Após as fortes perdas de março, mais precisamente entre março e junho, o mercado internacional de café manteve-se oscilando dentro de margens mais estreitas, tomando como base o café arábica na Bolsa de Nova Iorque. Foi o período em que o café se grudou nos referenciais externos, a outras commodities, variando de acordo com o que ocorria com o petróleo e como estava o dólar. Outro fator que manteve o mercado mais equilibrado teve a ver com a entrada da safra nova, que atrasou e chegou mesmo ao mercado com mais força somente em julho.

Havia lá em março o suporte aos preços porque o país estava com estoques baixíssimos, os menores da história. Por outro lado, a expectativa com a entrada de uma safra maior este ano do Brasil e da sazonal pressão com a colheita a partir de maio foi fator baixista que se equilibrou com a oferta apertada às vésperas da chegada desse café novo. A Companhia Nacional do Abastecimento (Conab) estima que o Brasil deve colher 45,5 milhões de sacas em 2008, contra 33,7 milhões de sacas ano passado. O mercado, entretanto, trabalha com números bem superiores a esses.

Junho chegou e trouxe uma nova virada para o café. As cotações em determinado momento voltaram a disparar. Altas para o petróleo e outros mercados, queda do dólar contra o euro e o atraso na colheita no Brasil foram algumas das “desculpas” para tal movimento altista. Ao final de junho, o segundo contrato na Bolsa de NY estava em 153,20 centavos de dólar por libra-peso, com valorização de 12,9% na comparação com o último pregão da bolsa em 2007, quando o segundo contrato fechou em 135,65 cents/lb.

Barabach avalia que aquela “bolha” do começo do ano atrapalhou a trajetória linear de alta para o café, diante da tendência de sustentação com os baixos estoques internacionais. “Isso é um paradoxo”, observa o analista. Porque na época os preços subiram muito, mas isso resultou no estouro da bolsa e nas fortes quedas subseqüentes. “Por outro lado, atrapalhou essa trajetória, mas se não houvesse a bolha a máxima de preço em NY não seria tão alta como foi”, aponta Gil Barabach.

Na seqüência, julho foi de correção para baixo nos preços. A colheita evoluiu finalmente com clima seco e favorável no Brasil e as cotações caíram no mercado internacional seguindo ajustes para baixo nos preços do petróleo e outras commodities, além de alguma reação do dólar contra outras moedas. Tanto que o mês de julho fechou com o segundo contrato em NY a 143,15 centavos de dólar por libra-peso, reduzindo o ganho no ano para 5,5%.

Daqui para frente, Barabach indica que o mercado tem chances de no final do ano ganhar maior força altista. Os estoques ainda serão baixos e as atenções se voltarão para a safra de 2009 no Brasil, que diante do ciclo bienal da cultura cafeeira será de baixa produtividade, acirrando o problema do aperto na oferta em relação à demanda mundial.

Produtor sofre com câmbio — O vilão para o produtor brasileiro de café continua sendo o dólar. Mesmo que o acumulado do ano seja positivo para o arábica na Bolsa de Nova Iorque, no Brasil as comparações dos preços do café no mercado físico são negativas, por causa da desvalorização da moeda americana em relação ao real. Em 31 de julho, o dólar comercial estava em R$ 1,563, acumulando queda de 12% no ano – o fechamento de 2007 havia sido em R$ 1,777.

Mesmo com o cafeicultor tentando segurar a oferta e contando para isso com abundantes financiamentos governamentais para a colheita e estocagem, os preços em reais no ano estão mais baixos. Em 31 de julho, o arábica bebida dura tipo 6 estava cotado a R$ 247 a saca no sul de Minas Gerais, tendo assim uma baixa em torno de 5% no comparativo com o final de 2007, que foi de R$ 260. Os produtores aguardam agora pela realização de leilões de Prêmio Equalizador Pago ao Produtor (Pepro), que podem garantir uma remuneração melhor, trazendo uma meta mais alta de preço. E esperam que em breve o mercado comece a ligar-se no fato de que, se a safra deste ano é maior, em 2009 o país terá novamente uma produção menor, e os estoques não se recuperaram agora em 2008 o suficiente para isso.

A estimativa é de que o Brasil colha 45,5 milhões de sacas em 2008, contra as 33,7 milhões do ano passado