A Granja do Ano – 34 anos da melhor prestação de informações e serviços ao profissional do campo.

Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

BIODIESEL

EXPECTATIVA DE ALÍVIO OARA PRODUTORES

Obrigatoriedade do B3 mexeu com o setor e deverá melhorar o mercado nos próximos meses. Mas o setor ainda carece de pesquisas

Ao entrar no período de mistura obrigatória de 3% de biodiesel ao diesel (B3), a partir de julho, as empresas do setor logo começam a sentir efeitos mais positivos no mercado. E o cenário nos meses finais de 2008 deverá ser bem melhor do que o observado no primeiro semestre do ano. O marasmo e desânimo dos primeiros seis meses de 2008, particularmente nos meses de março e abril, representaram a “fase crítica” para o setor de biodiesel no país. Foram observados preços (contratados em leilão) excessivamente baixos, preços do óleo de soja muito altos (chegaram a custar R$ 3.000,00/tonelada em São Paulo) e volumes de entrega restritos aos 2% obrigatórios.

Agora, o cenário é um tanto diferente. A demanda mensal, desconsiderando as sazonalidades e as características regionais, deve saltar para 100 mil metros cúbicos mensais contra 65 mil a 70 mil metros cúbicos por mês registrados no período crítico de janeiro a junho (afora as aquisições da Petrobras para formação de estoques estratégicos). No entanto, a tendência é de aumento de consumo de diesel no segundo semestre, em relação ao primeiro semestre. Historicamente, a economia brasileira como um todo fica mais aquecida no segundo semestre. Isto implica maior circulação de bens, mercadorias e serviços e, portanto, maior consumo de diesel. Então, não é de todo errado estimar uma demanda mensal de 100 a 120 mil metros cúbicos de biodiesel no país.

Preço melhor - Além do aumento do consumo, um outro fator de melhora no cenário é o preço de entrega desse biodiesel. Os leilões de abril tiveram cotações bem melhores do que no ano passado, graças, em parte, aos prejuízos amargados no primeiro semestre. Forçosamente ou não, as empresas deixaram de lado algumas estratégias agressivas de “demarcação de território”, o que possibilitou uma média de preços de entrega mais elevada.

O terceiro fator, embora de forma relativa, é a queda de preços do próprio óleo de soja. De um mercado com cotações ao redor de R$ 3.000,00/tonelada (Cif/SP) em março, os preços recuaram nos meses seguintes a patamares de R$ 2.100,00/tonelada. Mas este é um fator relativo porque, mesmo com os preços atuais sendo consideravelmente mais baixos do que há meses, ainda assim são muito elevados em níveis históricos. O preço médio do óleo de soja oscilou durante vários anos entre R$ 1.000 e R$ 1.500,00/tonelada. Portanto os atuais níveis estão pelo menos o dobro dos patamares em que o mercado está acostumado a trabalhar.

Mas preços “altos” do óleo de soja são uma coisa a que as usinas precisam se acostumar. Ao menos enquanto precisarem adquirir boa parte do óleo necessário para produzir biodiesel, nos próximos anos, e também enquanto dependerem fortemente do óleo de soja como insumo principal. Em função disso, nos próximos anos, aqueles que conseguirem “se livrar” do nervoso mercado de óleo de soja, ou ao menos reduzir significativamente sua dependência deste insumo em especial, serão as empresas que passarão a se destacar no mercado.

Pesquisa é fundamental - Há problemas conjunturais, de curto prazo, sendo enfrentados pelo “nascente”, porém promissor, mercado de biodiesel no Brasil. Um relativo excesso de oferta em comparação à capacidade instalada das usinas neste ano e, possivelmente, em boa parte de 2009, é talvez um dos problemas mais imediatos com que o setor se depara. Menos mal que o aumento da mistura para o B3, além de outras medidas, amenizou a situação de forte competição e agressividade entre as usinas.

O retorno dos preços para patamares mais racionais observados nos últimos leilões de biodiesel pode significar uma tentativa de acomodação de mercado entre as principais usinas, mesmo que seja uma trégua temporária forçada pela elevação pesada dos custos de produção. Outro problema de curto prazo, que precisa ser resolvido, é a implantação da cultura do hedging (proteção contra flutuação de preços) entre as usinas. Algumas das usinas que descendem de empresas que já trabalhavam com esmagamento de soja, comercializando farelo e óleo, já detinham alguma profissionalização na área de hedging e gerenciamento de riscos.

Mas é notório que a maioria tinha receios em relação a utilizar mecanismos de mercado futuro, para se proteger da volatilidade do mercado externo de óleo de soja. O receio advém principalmente do desconhecimento de ferramentas de gestão de risco. E é simples assim. Mas, depois dos amargos prejuízos, ao que parece, esta área passará a ser encarada com mais seriedade pelo setor. Entre as usinas de açúcar, por exemplo, a cultura de hedging está encravada no setor, o que tem ajudado as mesmas a evitar prejuízos muito sérios em épocas difíceis e aproveitar mais e estender os períodos de boas margens de preços.

Lições da cana - E é do setor sucroalcooleiro que vêm mais algumas preciosas lições que devem e podem ser usadas, ainda que adaptadas, pelas usinas de biodiesel. Uma delas é a verticalização, visando à redução de custos. Muitas usinas operam com áreas arrendadas ou próprias para o plantio de cana-deaçúcar, situadas em um raio de distância de poucos quilômetros. Logisticamente, isto traz grandes vantagens comparativas. No biodiesel, este modelo não é de todo implementável, devido à necessidade de utilização de percentuais de agricultura familiar para operar na “fatia maior do bolo” nos leilões do Governo. Mas não há dúvida de que uma parte das empresas vai mesmo para esta tendência, até onde possível. E uma possível tendência de usinas, ou grupos de usinas de etanol, comprando distribuidoras e redes de postos de combustíveis no Brasil (a exemplo do caso Cosan-Esso), é um dramático exemplo de foco verticalizante na ponta de venda do etanol, das usinas para os consumidores finais.

Mas a grande lição mesmo passada pelo setor sucroalcooleiro é no que diz respeito aos investimentos continuados na pesquisa, visando a aumentar a produtividade de suas lavouras de cana. Dos 1.200 a 1.500 litros de etanol por hectare no início do Proálcool, até os 7 mil a 8 mil litros atuais, houve muita pesquisa. Por isso, a cana é imbatível em termos de eficiência bioenergética, atualmente. Durante muitos anos, o grande foco das pesquisas no Brasil foi a obtenção de proteína, massa para farelo e ração, e com menor ou muito pouco rendimento para óleo. Agora que o óleo virou o centro das atenções, o produto ficou valorizado devido à incapacidade de atender à demanda hoje existente.

Devido a isso, urge a necessidade de intensificar os esforços em pesquisa científica para aprimorar e otimizar a produção de óleos vegetais, na maior quantidade e no menor custo possível. Isto deve ocorrer para que o biodiesel, assim como o etanol, desbanque seu concorrente fóssil (diesel), não só em relação ao apelo ambiental, como principalmente ao apelo econômico, que sempre acaba falando mais alto e viabiliza grandes investimentos.

Concorrência do etanol? – Agora, com a nova onda de elevação dos preços do petróleo nos últimos anos, muito mais causada por um choque de demanda do que de oferta, reavivou-se o interesse pelo etanol, que passou a ser cada vez mais competitivo com os preços da gasolina em alta. E rapidamente, resolveu-se o entrave da resistência dos consumidores com a invenção do motor flex-fuel. O petróleo continuou subindo, e o etanol se tornou cada vez mais consumido. Em apenas cinco anos, o Brasil conseguiu mudar radicalmente o perfil de consumo de combustíveis em veículos leves e, desde fevereiro de 2008, já se consome mais etanol do que gasolina no país. Um salto que levará muito tempo para ser alcançado por outros países.

Na esteira desse movimento, o biodiesel também passou a se tornar interessante alternativa para substituição ao diesel, destinado a motores de alta potência. Mas a falta de óleo vegetal no mundo, em parte devido ao seu caráter também alimentício, fez com que os preços do insumo (principalmente o óleo de soja) subissem rapidamente. Diferentemente do etanol de cana, a produtividade de óleo/hectare praticamente não conseguiu melhorias significativas nas últimas três décadas. Resultado: sua competitividade em relação ao diesel é muito fraca atualmente. A produção de biodiesel no mundo vai sobrevivendo graças às políticas de incentivos e demandas obrigatórias via adição ao diesel.

Para reverter esse quadro, os produtores de biodiesel terão que trilhar um caminho parecido com o que os sucroalcooleiros fizeram: pesquisa, pesquisa e mais pesquisa, para melhorar a produtividade no campo. Mas aumentam cada vez mais os comentários sobre o desenvolvimento de motores de alta potência para ônibus, caminhões, etc., utilizando-se etanol. As questões técnicas são mais complexas do que a mudança da gasolina para o etanol, ou do diesel para o biodiesel. Mas estão longe de serem inviáveis. Uma das principais diferenças estaria na taxa de compressão e no grande volume de etanol necessário para um caminhão rodar com esse combustível, ao invés do diesel. Isso exigiria tanques maiores e talvez até mesmo alguns aditivos.

A idéia só ainda não “pegou” fortemente no mercado porque o diesel ainda é barato na comparação de preço x rentabilidade energética. Mas esta vantagem está se estreitando a cada ano e comentase que falta pouco para que surjam os primeiros caminhões leves movidos a etanol a serem ofertados em série. Se a tendência do diesel continuar sendo a da elevação dos preços, e a do etanol com preços mais baixos e aumento da rentabilidade de produção de etanol x hectare (fala-se em produção de até 10 mil a 12 mil litros em 2012, com novas variedades de cana), há a forte possibilidade de surgir, em breve, um veículo pesado de transporte utilizando etanol, homologado para uso e comercialização no Brasil.

Com os sucessivos recordes da cotação do petróleo, o biodiesel e o etanol se tornaram interessantes alternativas