A Granja do Ano – 34 anos da melhor prestação de informações e serviços ao profissional do campo.

Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

AÇÚCAR E ÁLCOOL

RENTABILIDADE AMARGA

Diminuição dos preços mundiais e o câmbio desfavorável encolhem os ganhos do açúcar. Já o etanol vive fase da demanda doméstica aquecida

O mercado de açúcar acumulou depreciação na rentabilidade em 2007/ 2008. Para os usineiros, a queda nos preços, iniciada em 2006, foi pouco sentida, pois a grande maioria antecipou negócios e fixações. Na primeira metade da safra 2007/2008, apesar de muitos terem antecipado posições, houve uma maior repercussão sobre a receita com a exportação em virtude da queda dos preços mundiais do açúcar. As exportações de açúcar renderam aos usineiros US$ 4,77 bilhões entre janeiro e novembro de 2007, o que correspondeu a uma queda de 12% sobre igual período do ano anterior. Além da menor arrecadação, outro aspecto negativo sobre a receita dos usineiros foi a valorização do real em relação ao dólar, diminuindo significativamente a receita.

Conforme avaliação do analista de Safras & Mercado Gil Barabach, o motivo para a queda nos preços internacionais do açúcar foi a mudança de conjuntura. Entre 2004 e 2005, o mundo produziu abaixo da sua necessidade, em virtude da quebra na safra da Índia. Os estoques foram caindo, com situação atingindo seu momento mais crítico no início de 2006. Os preços dispararam e a Bolsa de Nova Iorque (Ice Futures US) atingiu o maior patamar em 25 anos, quase tocando em 20 centavos de dólar por libra-peso. O que se viu em 2007/08, principalmente na primeira metade do ciclo, na verdade, é resultado do que aconteceu nesse período. A receita dos exportadores de açúcar cresceu muito com o preço em alta, o que motivou investimentos. Em 2006 o mundo já havia produzido acima da sua necessidade, mas o excesso foi utilizado para recompor estoques baixos. Já o excedente de 2007 teve um impacto maior sobre o comportamento do mercado.

A queda do preço do açúcar foi causada pela conjuntura internacional dos últimos anos

Os preços já haviam caído ao final de 2006, por conta dos cenários de aumento da produção. Em 2007 apenas intensificaram essa linha declinante. Em dezembro de 2006, o preço médio do primeiro contrato de açúcardemerara negociado na bolsa novaiorquina girava em torno de 11,71 centavos de dólar por libra-peso, caindo para 10,18 centavos um ano depois, o que corresponde a uma baixa de 13%. Agora, em 2008, depois de subir para expressivos 15 centavos, o preço futuro do açúcar bruto voltou para níveis mais realistas, ao redor de 12 centavos.

Ao longo da safra 2007/08, o pior momento para o preço foi o mês de julho, quando pressionado pela abundante oferta brasileira e pelo cenário de excesso de oferta global, o demerara norte-americano foi negociado em média a 8,87 centavos de dólar por libra-peso. Depois até houve um esboço de reação, mas sem força suficiente para um ganho mais consistente. A desvalorização do dólar em relação a outras moedas ajudou a limitar as perdas, em certos momentos até ajudou a dar fôlego à reação nas cotações. Se não fosse a inflação do dólar, repassada para o preço do açúcar, muito possivelmente o açúcar bruto não se sustentaria acima da linha de 10 centavos de dólar por libra-peso.

Excedente prossegue — As últimas projeções não são muito boas para o açúcar. O mercado internacional enfrenta, às vésperas do início do ciclo mundial 2008/ 2009 (outubro-setembro), um grandioso superávit entre oferta e demanda, na ordem de 20,8 milhões de toneladas, comparadas com o excedente de 14 milhões de toneladas há um ano e com o volume de 4,7 milhões de toneladas contabilizado em 2006 no mesmo período, conforme estimativas da consultoria alemã F.O Licht. A consultoria afirma que os dados indicam que os exportadores de açúcar terão que enfrentar excedentes de oferta no mercado internacional por mais “dois ou três anos”.

Além disso, a Licht crava que “as esperanças de que os excessos de açúcar seriam absorvidos pela crescente produção de etanol comprovadamente se tornaram apenas esperanças”. Mesmo que a produção internacional de açúcar apresente uma retração em 2008/ 2009 depois de quatro anos de aumento, ajudando de alguma forma a diminuir os níveis de estoques, “não há motivos para euforia, uma vez que existe um considerável volume de oferta para ser comercializado”, finaliza a Licht.

O mercado interno de açúcar seguiu o comportamento internacional. A abundância de produção e a concorrência externa garantiram tranqüilidade para o abastecimento local, o que justificou a linha de queda das cotações. Em dezembro de 2006, o açúcar cristal era negociado em Ribeirão Preto/SP a R$ 37,16 a saca, mas fechou o ano de 2007 com preço médio de R$ 23,62 por saca. Em 2008, com o andamento da safra sucroalcooleira no Centro- Sul revelando uma expressiva preferência pelo combustível, que abocanha 60,49% da cana-deaçúcar moída, os preços reagiram, principalmente pela queda na produção da região nesta safra 2008/2009, em torno de 10% na comparação com julho do ano passado. No final de julho, o preço do açúcar cristal estava valendo cerca de R$ 28, uma recuperação até certo ponto inesperada no início do ano, uma vez que a safra está em pleno andamento.

Volatilidade anormal — O principal formador e indicador de preço do açúcar no mercado internacional está andando em uma autêntica montanha-russa neste ano. O contrato futuro com vencimento em outubro da ICE Futures US foi um prodígio em termos de valorização em junho. O papel valorizou mais de 25% no período. Isso depois de cair 16,6% em março e de subir 13% na primeira metade de abril, perdendo tudo na segunda metade do mês. Em maio, houve um tombo, com queda de 12%.

Em março, quando o contrato andava na casa dos 15 centavos de dólar por libra, estava claro que o preço era irreal, muito além do que os fundamentos de mercado permitiam naquele momento. “Nenhuma alteração profunda no quadro de abastecimento mundial ocorreu em tão pouco tempo para justificar preços acima de US$ 15 cents/librapeso nos contratos mais curtos de Nova Iorque”, salienta o analista de Safras & Mercado Miguel Biegai. “Fundamentos são fundamentos, e uma hora ou outra eles serão respeitados. Por mais que se fale que os fundamentos estão sendo esquecidos, a verdade é que eles estão apenas temporariamente adormecidos. Mas, cedo ou tarde, eles voltam a comandar o mercado, ou no mínimo impor certos limites para a especulação exagerada”, alerta Biegai. A queda dos preços se aprofundou a partir da segunda quinzena de maio, com as cotações tocando em 10 centavos no início de junho.

Diferentemente das movimentações técnicas que fizeram o mercado ter tanta volatilidade nos últimos meses, dessa vez há componentes fundamentais agindo no açúcar. O primeiro é a expectativa de uma safra de açúcar menor para este ano, em relação ao esperado. Com a quebra da safra do milho nos Estados Unidos, as cotações do cereal estão em alta, reduzindo consideravelmente as margens de rentabilidade dos produtores de etanol norte-americanos. Estas margens, estreitas como estão, podem fazer com que a produção de etanol nos Estados Unidos seja menor, obrigando distribuidoras e compradores nos Estados Unidos a aumentarem suas importações de etanol brasileiro.

Baixa mundial — A produção mundial de açúcar em 2008/2009 deverá totalizar 161,7 milhões de toneladas, baixa de 3,7 milhões de toneladas na comparação com o ciclo anterior, de acordo com projeção do USDA (Departamento de Agricultura dos EUA). O consumo deverá atingir 160,8 milhões de toneladas, aumentando 4,6 milhões de toneladas, enquanto que os estoques finais do ciclo 2008/2009 estão estimados em 41,5 milhões de toneladas, perda de 3,5 milhões de toneladas, e as exportações em 51 milhões de toneladas, crescendo 772 mil toneladas.

De acordo com análise do USDA, o recuo esperado para a safra mundial de açúcar em 2008/ 09 poderia ser mais acentuado, não fosse a maior produção esperada para o Brasil (33,7 milhões de toneladas, com ganho de 1,6 milhão de toneladas ante o ano anterior). O USDA lembra que o Brasil representa 20% do mercado internacional de açúcar, mas a Ásia fica com quase 40%. Nesse continente, o USDA espera uma queda de 5 milhões de toneladas na safra açucareira, para 63,1 milhões de toneladas.

A área nesta safra saltou de 7 milhões para 7,8 milhões de hectares, principalmente por causa das novas usinas

Etanol sem surpresas — No álcool, o quadro ficou dentro do esperado em 2007/2008. O etanol brasileiro perdeu espaço externo, em virtude do aumento da produção e menor dependência externa dos Estados Unidos. Apesar do álcool ser voltado principalmente para o mercado interno, é importante o fluxo externo, especialmente no início da safra, pois ajuda a escoar o excedente de produção, reduzindo o efeito sazonal da oferta. Parte da culpa do preço ter despencado na entrada da safra é da fraca performance externa. O aumento da oferta, motivado pelo crescimento da safra de cana, juntamente ao menor interesse pelo açúcar, elevou consideravelmente a produção interna de álcool, derrubando a cotação do produto. O litro do álcool hidratado chegou a ser negociado em média a R$ 0,60 no mês de agosto, pressionado pelo excesso de oferta.

E as perdas só não foram maiores em virtude do aquecimento da demanda interna. O crescimento da frota de carros flex e a vantagem do álcool em relação à gasolina foram fundamentais para aquecer o consumo interno, o que ajudou a absorver a larga produção, permitindo, inclusive, que os preços esboçassem reação, terminado o período de moagem da cana no Centro-Sul. Em dezembro, o álcool hidratado já valia R$ 0,75 ao litro, em julho, foi negociado a R$ 0,85.

Na avaliação do USDA, o Brasil deve produzir 26,7 bilhões de litros de álcool combustível (etanol) na safra 2008/2009, sendo 8,35 bilhões de litros de anidro e 18,35 bilhões de litros de hidratado, acréscimo de 4,31 bilhões de litros na comparação com o ano passado. Cerca de 30 novas usinas de álcool estão iniciando as operações nesta safra 2008/2009, com uma área cultivada de cana-de-açúcar estimada em 8,05 milhões de hectares, 12% superior na comparação com os 7,19 milhões de hectares de 2007/2008.

Já as exportações de etanol poderiam chegar a 6 bilhões de litros neste ano, não fossem as dificuldades logísticas, nos portos principalmente. Qualquer volume de exportação acima de 5 bilhões de litros já representará um considerável enxugamento da oferta interna e conseqüentemente de suporte de preços para o etanol. E se o etanol obtiver preços mais vantajosos, menor será a oferta de açúcar já para esta safra 2008/ 2009.

Assim, teoricamente, os operadores do mercado futuro de açúcar já estão precificando esta menor oferta de açúcar no mercado internacional. Não só do Brasil, como também, possivelmente da Índia, que dá indicações de reduzir a oferta de açúcar dos estoques internos para o mercado externo. Assim, este último ponto de entrada para os compradores vai dando toda a indicação de que realmente ficou para trás. A tendência, agora, pode ser a do mercado engatar um período de euforia e buscar novamente patamares acima de 14 centavos para os contratos curtos.

Recorde da cana — Conforme o primeiro levantamento de avaliação da safra de cana-deaçúcar da safra 2007/2008 da Companhia Nacional do Abastecimento (Conab), a indústria brasileira vai esmagar entre 558,1 milhões e 579,8 milhões de toneladas na safra 2008. A colheita total de cana também é a maior da História e está estimada entre 607,8 milhões e 631,5 milhões de toneladas, ou 8,8% a 13,1% superior à produção anterior, de 558,5 milhões de toneladas. Além da quantidade da matéria-prima que será transformada pela indústria, serão destinadas 49,6 milhões a 51,7 milhões de toneladas de cana para outros fins, como sementes e mudas, cachaça, rapadura e alimentação animal. De acordo com a Conab, os principais motivos para o crescimento são o clima favorável, os investimentos no melhoramento tecnológico das unidades de processamento e o plantio de variedades mais produtivas.

O crescimento desta safra também se deve ao cultivo de novas áreas. A extensão total saiu de 7 milhões para 7,8 milhões de hectares, resultado, na sua maioria, da instalação de novas usinas, sobretudo em pastagens. A canade- açúcar começou a ser moída em abril nos Estados do Centro-Sul, responsáveis por cerca de 90% da produção total. Pela projeção da Conab, o Brasil vai fabricar neste ano entre 26,4 bilhões e 27,4 bilhões de litros de álcool, 14,9% a 19,4% a mais que em 2007. Desses, 4,2 bilhões de litros deverão ser exportados, a maioria (2,5 bilhões de litros) para os Estados Unidos. A justificativa está no aumento da mistura do álcool à gasolina naquele país e no consumo interno, onde as frotas de veículos flex-fuel crescem a cada ano. No Brasil, essa categoria representa 85% das vendas de carros novos; já são mais de 5 milhões de unidades em circulação.

O USDA estima as exportações de etanol do Brasil na safra 2008/ 2009 em 4,8 bilhões de litros, elevação de 1,17 bilhão de litros na comparação com os 3,63 bilhões de litros embarcados em 2007. Mais de 3 bilhões de litros terão como destino os Estados Unidos, inclusive via Caribe, como conseqüência dos altos custos da matéria-prima utilizada para a produção de etanol no país, que é o milho. Chuvas excessivas no Estado de Iowa, um dos maiores produtores de milho norteamericanos, prejudicaram a safra do cereal, puxando os preços para o alto, tornando as importações de álcool brasileiro mais competitivas, mesmo com a tarifa de US$ 0,54 por galão. Conforme o USDA junto a fontes da indústria, o custo de produção do etanol no Brasil está estimado em US$ 1,6 por galão.

Os investimentos estrangeiros no setor sucroalcooleiro brasileiro já respondem por cerca de 56 milhões de toneladas, ou 11,5% da cana-deaçúcar moída, conforme dados da safra 2007. A participação dos investidores externos na produção de etanol está estimada em 10%, aproximadamente 760 milhões de litros de álcool hidratado e 1,5 bilhão de litros de anidro.

O Grupo Tereos é o maior investidor estrangeiro no setor, com cinco usinas em funcionamento, que moeram 12 milhões de toneladas de cana-de-açúcar em 2007, seguido pela Louis Dreyfus (sete usinas com moagem de 11,5 milhões de toneladas de cana).