A Granja do Ano – 34 anos da melhor prestação de informações e serviços ao profissional do campo.

Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

ARROZ

CENÁRIO POSITIVO

Os preços internos são os melhores dos últimos quatro anos. Aumentou o consumo mundial, e a área deve crescer no Brasil em 2008/2009

O mercado brasileiro de arroz encerrou o primeiro semestre de 2008 com a maior média de preços praticada desde 2004. “Mesmo com a relação real/dólar em níveis semelhantes aos do momento da mudança do regime cambial, em 1999, este comportamento no Brasil vem sendo garantido por um maior equilíbrio entre as pontas de oferta e demanda e pelas cotações internacionais”, explica o analista de Safras & Mercado Élcio Bento. O ano comercial 2008/2009 iniciou com 1,895 milhão de toneladas em estoques, principalmente públicos. A produção foi de 12,140 milhões de toneladas. Assim, a oferta doméstica fechou em 14,035 milhões de toneladas. Na temporada anterior, os orizicultores nacionais colheram 11,485 milhões de toneladas. “Entretanto, os estoques contavam com 2,84 milhões de toneladas, fechando uma disponibilidade interna de 14,325 milhões”, lembra.

Isso mostra que, mesmo com um aumento de 655 mil toneladas na quantidade produzida na safra atual, o volume de grãos disponíveis foi de 290 mil toneladas a menos que na anterior. “Ou seja, os fundamentos domésticos já sinalizavam para uma tendência de alta”, frisa. Os agentes demoraram um pouco para perceber a situação de ajuste e foram surpreendidos pela explosão dos preços externos. No começo da temporada, o setor produtivo discutia junto ao governo uma alternativa para segurar a saca de 50 quilos acima do mínimo de R$ 22, já que os estoques públicos eram os maiores dos últimos seis anos e a produção a ser colhida também era superior.

“A grande pergunta que pairava era de que forma o Governo enxugaria a sobreoferta, com grande parte de seus armazéns lotados”, destaca. A decisão foi pela liberação de recursos, no início da safra, através de Empréstimos do Governo Federal (EGF) que garantiriam fôlego financeiro aos produtores e impediriam o excesso de mercadoria entre março e abril, bimestre que concentra mais de 75% da oferta nacional. O Governo disponibilizou ainda verbas para outros mecanismos de garantia de preços mínimos. “Contudo, justamente no momento em que o Brasil colhia de forma mais intensa, foi surpreendido pela alta exagerada no mercado internacional”, explica.

Contra a maré — Historicamente, o comportamento doméstico era pouco sensível às oscilações internacionais. “Isto porque a produção brasileira e importações garantiam o abastecimento”, afirma Bento. Sem grandes “solavancos” globais, os preços do arroz nacional tinham apenas a paridade de importação com os vizinhos do Mercosul pesando na sua formação. No entanto, a retração dos estoques globais nos anos 2000, somada a fatores exógenos ao cereal, resultou em altas recordes no âmbito externo, abrindo mercados para os potenciais fornecedores brasileiros e, até mesmo, para exportações do Brasil.

Para se ter uma idéia do ajuste que ocorreu no quadro de oferta e demanda nos últimos anos, na safra 2001/2002 os estoques do cereal no planeta atenderiam 37% do consumo. Seis temporadas depois, o atual ano comercial (2007/2008) encerrará com esta relação em 18%. Do lado da procura, o forte crescimento econômico de países em desenvolvimento e o interesse por biocombustíveis potencializaram a elevação. “Para fechar os fatores altistas, tivemos o avanço das demais commodities e a desvalorização do dólar em relação às principais moedas, que inflacionou as cotações, referenciadas no padrão monetário norte-americano”, enumera. Resultado: o “mercado de compradores” abruptamente tornouse “de vendedores”, levando os preços internacionais a engatarem uma escalada. Na Tailândia, por exemplo, o arroz branco 100% FOB Bangcoc partiu de US$ 182 por tonelada no ano comercial 2001/2002, atingindo um pico de US$ 1.038 por tonelada na terceira semana de maio (+470%).

Alta global estimula vendas externas — Uma alta desta magnitude teria reflexos no Brasil mesmo em uma situação de sobreoferta. No lado comprador, torna-se inviável adquirir cereal de fora do Mercosul e abrem-se novos mercados com preços atrativos para os grandes fornecedores brasileiros – a Argentina e o Uruguai. “Assim, com o temor de desabastecimento global, o excedente no Mercosul passou a ser foco de uma demanda voraz de muitos países, a valores elevados”, lembra o analista. O reflexo no Brasil foi sentido de duas formas:

Primeiro, pela elevação da paridade de importação. Com possibilidade de vender para outros destinos, os parceiros do Cone Sul elevaram suas cotações aos níveis pagos em termos globais. “Isso reduz o volume e encarece as importações brasileiras”, lembra. “Neste contexto, o país deve internalizar 800 mil toneladas no ano comercial 2008/ 2009”, acrescenta. A segunda maneira pela qual os preços internacionais refletem no âmbito doméstico é pela possibilidade de escoamento da produção via exportação. O Brasil fechou contratos de vendas ao exterior (em especial de beneficiado), enxugando a oferta nacional e possibilitando a formação de patamares também pela paridade de exportação.

Estima-se que a cadeia orizícola brasileira possa colocar 700 mil toneladas do cereal no exterior neste ano comercial. “Se este montante for efetivamente fechado, juntamente com um incremento de 50 mil toneladas esperado no consumo, o resultado seria uma elevação de 270 mil toneladas na demanda”, comenta. Assim sendo, os estoques finais recuarão 760 mil toneladas comparados ao ano comercial 2007/2008, fechando em 1,135 milhão de toneladas. A relação estoque/consumo ficará em 8,73%, contra 14,63% do ano anterior, 22,14% de 2006/2007 e 26,5% de 2005/2006.

A estimativa é de que o Brasil possa exportar 700 mil toneladas do cereal neste ano comercial

Exportação deve se manter no foco — Para o vice-presidente de mercados da Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz), Marco Aurélio Marques Tavares, o foco do Brasil tem que ser a exportação. “Assim como no frango, precisamos montar um pool de indústrias para vender”, relata. Segundo ele, a exportação por container é viável e de fácil operacionalização. “Fomos sondados até pela Rússia”, ressalta, acrescentando que o país precisa aproveitar o patamar externo elevado.

Um corretor de mercados internacionais entrevistado pela Agência Safras acredita que o Brasil é um exportador de ocasião. “Venderemos sempre que tivermos oportunidade”, pondera. Para ele, os grandes importadores estão procurando outros mercados, como o Mercosul, em virtude de problemas de produção na Ásia. “A migração da população da área rural para a cidade, em países como a China e a Tailândia, também é responsável pela redução na oferta”, justifica. Na sua visão, o país precisa aproveitar o espaço até a entrada da safra nova no Hemisfério Norte, a partir de agosto e setembro. Como o Brasil era somente importador até pouco tempo, o corretor acha difícil se manter como vendedor tradicional. “Penso que ainda não ficaremos exportadores efetivos, mas torço para isto ocorrer, pois seria uma porta de saída para o nosso produto”, salienta.

Credibilidade é tudo — Para o Brasil se manter como exportador, há uma série de requisitos necessários, que vai além de políticas para estimular estas negociações. “Tem que ter credibilidade, pois o mercado não perdoa a falta dela”, lembra o corretor. O mais importante é ter regularidade de exportação. O exemplo vem do setor algodoeiro, que muitas vezes precisa cumprir contratos firmados com outros países e perder dinheiro, em função de cotações internas mais aquecidas. Tal operação serve para manter estes mercados abertos, cuja linha de confiança é tênue. Há também a necessidade de se aumentar a produção, a fim de ter estoques superiores à média necessária para a segurança alimentar. “Além disso, o país precisa ter uma qualidade uniforme de produto definida e investir em infra-estrutura, para melhorar a logística de portos e rodovias”, finaliza o corretor.

Para tentar suprir as dificuldades portuárias, o Governo Gaúcho assinou no dia 19 de maio um contrato para a transformação do silo da Companhia Estadual de Silos e Armazéns (Cesa) em um terminal de exportação no Porto de Rio Grande. A obra recebeu investimento de R$ 469,5 mil. A expectativa é de que os arrozeiros tenham uma alternativa para escoar 600 mil toneladas por ano.

Perspectivas boas — Para o segundo semestre, a tendência é de que os preços fiquem mais comportados. “Devem seguir a sazonalidade normal, cujo viés é de alta”, comenta Bento. O temor de desabastecimento mundial foi sentido internamente, com o varejo se abastecendo para se antecipar a uma elevação mais acentuada. “A subida exagerada nos preços externos poderia levar a um maior escoamento via exportações, deixando o quadro de oferta e demanda brasileiro mais apertado, pois os potenciais fornecedores de nosso mercado também sofreriam o assédio dos grandes importadores do cereal”, explica.

Para atender o aquecimento das compras do varejo, o setor industrial entrou de forma mais agressiva e encontrou os produtores retraídos, já que grande parte deles teve acesso aos Empréstimos do Governo Federal (EGF) para fazer caixa e não tinha pressa em vender. Diante desta postura dos elos da cadeia, os preços foram obrigados a se ajustar à nova realidade, indo de R$ 23,33 pela saca de 50 quilos na média de março no Rio Grande do Sul até um teto de R$ 35,39 no dia 20 de maio (+52%). “O comportamento doméstico e mundial fez com que o mercado acelerasse o abastecimento entre abril e maio”, ressalta.

Passado o pânico em relação à oferta mundial e com a proximidade da nova safra global, as cotações ficaram mais comportadas e as negociações no Brasil, que já haviam encontrado equilíbrio dentro da conjuntura internacional, se estabilizaram e ameaçaram uma leve queda. Para ele, a redução dos leilões do Governo, depois de atuar para segurar o repasse inflacionário da valorização do grão, fez com que o mercado voltasse a se ajustar e os preços gaúchos encontrassem um patamar de estabilidade próximo a R$ 32 por saca de 50 quilos, balizando as demais praças brasileiras.

Calmaria reduz negócios — Em julho, o mercado passou por um momento de estagnação. “Isto porque, no transcorrer das semanas, se percebeu que não haveria falta do cereal, mas o varejo já estava estocado”, justifica o analista de Safras. As indústrias, que entraram comprando com força nos meses de abril e maio, estão, aparentemente, abastecidas. Por outro lado, os produtores vendem apenas o necessário para o pagamento de parcelas do custeio agrícola e aguardam cotações mais atrativas no pico da entressafra.

Sem pressão das duas pontas, os valores do arroz em grão devem manter a estabilidade até o momento em que houver necessidade de compra por parte das indústrias. Teoricamente, o viés das cotações deve ser de alta, se for mantida a limitação de vendas de estoques públicos a apenas um leilão mensal, de 50 mil toneladas. Com o quadro de produção e demanda ajustado, a relação estoque/consumo recuará para 8,73%, o menor desde o ano comercial 2003/2004. Um limitador para uma alta mais acentuada é a possibilidade de importação. Porém, pondera Bento, se o mercado internacional continuar nos níveis atuais, a paridade de importação seguirá elevada, sem exercer grande pressão sobre os valores de comercialização nas praças produtoras do Brasil.

“Se os preços mantiverem o comportamento sazonal apresentado nos últimos 13 anos, a tendência é de que as cotações cheguem ao final de 2008 entre R$ 38 e R$ 40 por saca de 50 quilos no Rio Grande do Sul”, prevê o analista. A movimentação do comércio global (importações e exportações) pode maximizar ou reduzir esta perspectiva altista doméstica. Estas variáveis dependem, em grande parte, do que ocorrerá nas cotações internacionais.

Abastecimento mais folgado — O cenário fundamental sinaliza um quadro mais folgado para o abastecimento mundial. A oferta total (estoques + produção) está estimada em 510 milhões de toneladas (beneficiado) e a demanda total em 451 milhões de toneladas, resultando em estoques finais de 82 milhões de toneladas, contra as 77 milhões de toneladas anteriores. A relação estoque/ consumo subirá de 18% para 19%. Em tese, este quadro justificaria preços mais baixos em relação à temporada anterior. “Contudo, existe uma série de fatores exógenos ao mercado que inflou as cotações no ciclo comercial anterior e devem continuar inflacionando agora”, aposta o analista.

De junho de 2007 até o dia 25 de julho de 2008, o dólar depreciou-se 19% em relação ao euro. “O padrão monetário que serve de referência para a formação dos preços mundiais de arroz enfraquece em relação às principais moedas mundiais, fazendo as cotações subirem”, justifica. O crescimento demográfico e econômico é outro fator que contribui para a alta. Além do consumo ascendente do cereal, a liquidez financeira gera demanda por fundos de commodities. “O petróleo em níveis recordes também tem reflexos diretos sobre a elevação”, lembra.

O diesel é matéria-prima para muitos insumos utilizados na agricultura. Além disso, a elevação do custo deste combustível voltou a dar dinamismo para a produção de biocombustíveis, em especial ao etanol de milho e de óleo de soja. De julho de 2002 ao mesmo mês de 2008, o petróleo valorizou 492%, batendo o recorde de US$ 148,41 o barril no dia 11/07 deste ano em Londres. Com o aumento no milho e soja, o arroz precisa seguir o mesmo comportamento. “Caso contrário, perde área e produz menos que a necessidade de consumo”, frisa. As cotações internacionais deverão seguir em níveis muito superiores à média histórica, sustentando a perspectiva de preços firmes no Brasil.

Os produtores deverão ampliar a área em 3,4% por causa dos preços sustentados

Área deve aumentar — As cotações sustentadas devem levar os produtores a apostarem no arroz na próxima safra brasileira. A área a ser plantada deverá crescer 3,4% no país na temporada 2008/2009, passando de 3,056 milhões de hectares para 3,161 milhões de hectares. A previsão faz parte do levantamento de intenção de plantio, divulgado em julho por Safras & Mercado. A produção nacional do cereal poderá chegar a 12,632 milhões de toneladas, com aumento de 4% sobre o ano anterior. “Além dos preços praticados na comercialização da atual safra, o aumento da área dependerá do nível das barragens nas lavouras de irrigado”, destaca Bento. Um incremento maior deve ser limitado por questões ambientais e pelos preços em alta de outras culturas com maior liquidez.

De um modo geral, o cenário continua positivo para orizicultores e indústrias. No entanto, o orizicultor precisa manter a sensibilidade na hora de negociar, para não sobreofertar o mercado e nem abrir a necessidade de aumento de leilões por parte do Governo para equilibrar o quadro doméstico. Para ele, trabalhar com preços médios, sabendo que as cotações atuais cobrem o custo de produção, e escalonar as vendas nos próximos meses são alternativas conservadoras, que podem impedir eventuais surpresas por mudanças no cenário internacional.