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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

TRIGO

AS MELHORES COTAÇÕES DA HISTÓRIA

Produção global em 2009 poderá chegar ao recorde de 664 milhões de toneladas. Tendência é de que a média de preços seja até superior à de 2007/2008

Uma combinação de fatores fundamentais e externos ao mercado do trigo elevou as cotações do cereal para os maiores níveis da História no início de 2008. Com isso, o mercado brasileiro chega ao fim do ano comercial 2007/08 com uma média de preços significativamente superior à apresentada na temporada anterior. Estes reflexos altistas do mercado externo foram sentidos pela cadeia tritícola brasileira, mas minimizados pelo comportamento inverso da taxa cambial. Mesmo assim, o Governo entrou no mercado para impedir que a elevação dos preços dos derivados de trigo resultasse em repiques inflacionários. Como a Argentina reduziu o volume de exportações para o Brasil, a indústria solicitou, e a entrada de trigo do Hemisfério Norte ficou isenta da cobrança da Tarifa Externa Comum (TEC) de 10% sobre o valor do produto posto nos portos nacionais.

Num primeiro momento, a TEC foi liberada para 1 milhão de toneladas, volume que foi rapidamente registrado pelas indústrias nacionais. Com a manutenção das cotações externas em alta e sem novos registros liberados na Argentina, o Governo do Brasil foi mais agressivo na intervenção, liberando mais 1 milhão de toneladas da TEC até 31 de agosto. Além disso, isentou o Adicional de Frete para a Renovação da Marinha Mercante (AFRMM), de 25% sobre o valor do frete, e desonerou a cadeia de PIS e Cofins, ambos até 31 de dezembro de 2008.

“Estas medidas fortaleceram o impacto gerado pela valorização da moeda brasileira, reduzindo os reflexos das cotações internacionais no mercado doméstico”, salienta o analista de Safras & Mercado Élcio Bento. Com isso, a média de valorização, que nos EUA foi de 71% em relação aos 12 meses anteriores e na Argentina de 76%, ficou em 40% no Paraná e em 23% no Rio Grande do Sul. O mercado gaúcho apresentou um descolamento do paranaense, principalmente devido às perdas qualitativas geradas pelo excesso de chuva durante a colheita.

No âmbito global, as cotações inverteram o comportamento a partir de abril. Os reflexos no Brasil foram sentidos a partir de maio, principalmente após a segunda intervenção do Governo no mercado, barateando a compra de trigo importado. O pico de cotação no Paraná aconteceu em março, com uma média de R$ 780 por tonelada, valorização de 58% em relação ao mesmo período do ano anterior. No Rio Grande do Sul o teto também foi alcançado em março, com a tonelada cotada a R$ 650, 43% superior à do mesmo período do ano anterior. A taxa cambial média da relação entre real e dólar, de agosto de 2007 a julho de 2008, ficou em R$ 1,75, contra R$ 2,08 nos 12 meses anteriores – uma queda de 16%.

Disparada nas cotações — Durante a vigência do ano comercial americano, de agosto de 2007 a julho de 2008, a cotação média do trigo hard norteamericano posto no Golfo do México apresentou uma apreciação de 71% em relação a 2006/2007, passando de US$ 211 para US$ 361 a tonelada. O pico das cotações foi apresentado no mês de março de 2008, quando a tonelada fechou com uma média de US$ 446, um patamar 113% superior ao praticado no mesmo período de 2007.

Naquele momento a oferta era restrita, refletindo o período de entressafra em ambos os hemisférios. Além disso, as indústrias moageiras no mundo todo tinham necessidade imediata de compra. No lado fundamental, a quebra da safra australiana, pelo segundo ano consecutivo, e uma produção aquém da esperada no Canadá e na União Européia trouxeram os estoques finais do mundo ao menor patamar desde a década de 1970, com a relação entre estoque e consumo ficando no menor nível da História.

Por uma série de fatores, a relação mundial entre estoque e consumo atingiu o menor nível da História

Mas o cenário econômico internacional potencializou a tendência altista aos preços do trigo, já indicada pelo quadro fundamental. A crise imobiliária nos Estados Unidos elevou a entrada de investidores em commodities agrícolas. O preço do petróleo também atingiu níveis recordes, o que acirrou a corrida pelos biocombustíveis. O etanol dos Estados Unidos distorceu a necessidade de produção e a tendência de consumo do milho, inflacionando os preços das commodities agrícolas. Além de todo este cenário, a desvalorização do dólar em relação às principais moedas mundiais potencializou a alta nos preços destes produtos.

Recorde em 2009 — Para a próxima temporada, o mercado mundial deve refletir uma produção global de 664 milhões de toneladas de trigo. Com este volume recorde, mesmo com a recuperação do consumo, a relação entre estoque e consumo subirá de 18% para 21%. Porém, se as variáveis exógenas continuarem inflando as cotações, a tendência é de que a média de preços na próxima temporada seja superior à apresentada no ciclo 2007/2008.

Esta perspectiva ganha força quando se verifica preços médios acumulados de US$ 340 a tonelada no Golfo do México para trigo hard norte-americano, justamente no mês que concentra o maior volume de produção do cereal no mundo. Com isso, o mercado brasileiro terá as cotações internacionais como um dos pilares que impedem uma queda mais acentuada nos preços do cereal.

Efeito hermanos — A Argentina, principal fornecedor de trigo para o Brasil, apresentou um quadro bastante conturbado durante a última temporada. As discussões entre o setor produtivo e o governo, devido à política de aumento de tributação às exportações, causaram vários tumultos no país vizinho. A instabilidade resultou em incertezas por parte dos moinhos brasileiros.

Os registros de exportações ficaram abertos por um período próximo a 15 dias, em novembro de 2007, quando houve comprometimento de 7 milhões de toneladas de um saldo exportável estimado em 9 milhões. Do montante registrado, o Brasil recebeu 3 milhões de toneladas. A forte demanda e a alta expressiva dos preços internacionais fizeram com que o governo platino fechasse as exportações no dia 28 de novembro, para evitar o repasse inflacionário dos preços internacionais e um eventual desabastecimento interno.

Depois disso, houve várias solicitações por parte do Governo brasileiro para a liberação de mais registros. Porém, o volume liberado não ficou nos patamares dos anos anteriores. No final de julho de 2008, o governo argentino decidiu de novo reabrir parcialmente a exportação de trigo, agora para um volume de até 900 mil toneladas. A autorização para as exportações agropecuárias, anteriormente sob responsabilidade da Secretaria de Agricultura (Sagpya) passa agora pela Oficina Nacional de Controle Comercial Agropecuário (Oncca). A maior parte do volume de trigo liberado deve ter o Brasil como destino.

Nos últimos meses, foram liberadas apenas 100 mil toneladas em abril, durante os protestos do setor agropecuário, e mais 1 milhão de toneladas em maio, com metade deste volume tendo o mercado brasileiro como destino obrigatório. Os produtores argentinos apontam que, com a impossibilidade de exportar, o mercado interno não reflete os preços internacionais do cereal. Entidades agropecuárias acusam o governo de beneficiar os exportadores ao pressionar os preços limitando as vendas externas.

Esta reabertura nas exportações, tanto como o aumento do imposto de exportação para a farinha de trigo de 10% para 18%, são sinais positivos à relação com o Brasil, principal cliente do cereal argentino. No entanto, a indústria brasileira segue pedindo a equiparação do imposto de exportação da farinha de trigo ao cereal em grão, atualmente em 28%.

Para o próximo ano, o comportamento climático e o desestímulo gerado pelas taxas de exportação devem resultar numa safra argentina entre 12,5 milhões e 13,5 milhões de toneladas, contra 15,4 milhões no ano anterior. Os preços no mercado argentino têm uma correlação direta com o que ocorre nas bolsas norte-americanas. Para o Brasil, com as vantagens garantidas pelo Mercosul, além da relação cambial, o trigo argentino sempre será a melhor alternativa de abastecimento.

Quanto menor a quantidade de trigo na Argentina, maior a sustentação dos preços nacionais pela paridade de importação com o cereal do hemisfério norte, que chega aos moinhos brasileiros a um custo maior. “O recuo esperado para a produção na Argentina deve ser compensado pelo aumento do volume no Brasil, mantendo o quadro de oferta e demanda no Mercosul sem grandes alterações em relação ao ano anterior”, projeta o consultor Élcio Bento.

O futuro do mercado interno — No ano comercial 2007/2008, o Brasil produziu 3,9 milhões de toneladas, das quais 3,375 milhões foram destinadas à moagem. Este volume corresponde a 35% da quantidade processada pelos moinhos no período, equivalente a 9,575 milhões. O déficit de 6,2 milhões de toneladas (65%) foi adquirido no exterior. Para a temporada 2008/09, a safra nacional estimada é de 5,5 milhões de toneladas. Subtraindo as demais utilizações do grão, para farinha serão disponibilizadas 4,66 milhões, ou 46% da moagem estimada em 10,06 milhões. Assim, a necessidade de importação recuaria para 5,4 milhões de toneladas em grão. No entanto, tal projeção ainda depende do comportamento climático até o final da colheita.

Com a disparada das cotações internacionais, iniciada em setembro de 2007, o trigo brasileiro, colhido naquele período passou a ser a única alternativa viável para o abastecimento. A voracidade para a compra do produto nacional, em geral com ótima qualidade, colocou os produtores numa posição privilegiada para a formação de preços. Isso fez com que os preços pagos aos produtores paranaenses apresentassem uma valorização de 11% em setembro frente a agosto, em plena colheita no Estado. O produtor gaúcho, cuja colheita inicia com mais intensidade em outubro, já não encontrou o comprador com a mesma força no mercado.

A safra brasileira estimada é de 5,5 milhões de toneladas em 2008/2009, mas a projeção depende do clima

Sobreoferta — A comercialização da safra 2008/2009 inicia com um cenário muito diferente. Aproveitando o arrefecimento das cotações internacionais, com a entrada da safra nova do Hemisfério Norte, as indústrias devem trazer os 2 milhões de toneladas beneficiados pela desoneração das importações de fora do Mercosul. As últimas liberações de trigo pela Argentina também contribuem para uma maior facilidade de abastecimento.

Com isso, o produtor brasileiro inicia a colheita num momento de sobreoferta, que coloca a indústria numa posição privilegiada na formação de preços. Dentro deste contexto, o viés das cotações no último semestre de 2008 é de baixa. “O que pode amenizar esta tendência é o comportamento cambial, o retorno da TEC a partir do final de agosto e uma eventual quebra de safra no Brasil ou na Argentina. Também uma alta mais acentuada nas cotações das bolsas norteamericanas pode alterar o cenário”, projeta Bento.

O retorno da TEC é dado como certo a partir do mês de agosto. Além disso, o ano de 2009 já iniciará com a AFRMM – o que é bastante relevante, dado a alta dos fretes marítimos. Com boa disponibilidade de cereal dentro do Mercosul, a dependência de compras no Hemisfério Norte será menor e o reflexo do retorno de ambas as taxas deve ser sentido de forma menos intensa. Porém, uma eventual quebra de safra no Mercosul forçaria elevações mais expressivas no mercado doméstico.

No mercado internacional, o cenário fundamental e as variáveis exógenas indicam cotações firmes. “O comportamento cambial é de suma importância”, sublinha Bento. Na temporada 2007/2008 o mercado trabalhou com constante apreciação do padrão monetário brasileiro em relação ao dólar, o que amenizou o repasse para o país das cotações recordes no âmbito global. O Banco Central continua trabalhando com projeções de dólar enfraquecido frente à moeda brasileira. Isto se justifica pelos bons fundamentos da economia do país e pela alta taxa básica de juros reais, que atrai capital especulativo para os títulos nacionais. Por outro lado, o aumento significativo das importações e do déficit das transações correntes pode segurar quedas mais significativas e até iniciar uma tendência de alta, caso haja alguma incerteza no âmbito político econômico.

Considerando o fechamento da bolsa de Kansas (trigo hard) e da BM&F (dólar futuro) no dia 28 de julho, uma projeção de preços para o Paraná indica cotações entre R$ 550 e R$ 600 por tonelada, de setembro/ 08 a março/09. “Esta referência leva em consideração a flutuação sazonal dos preços e a correlação existente entre os preços nos Estados Unidos, Argentina e Brasil”, avalia o analista.