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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

MILHO

São tempos de altas recordes

Retração de área nos EUA e queda de safra americana levaram o bushel pela primeira vez a mais de US$ 7. Safrinha é cada vez mais relevante no Brasil

O primeiro semestre de 2008 registrou um movimento bastante especulativo em termos de preços, tanto no mercado interno quanto no mercado externo. Houve altas recordes do milho na Bolsa de Mercadorias de Chicago (Cbot), superando os US$ 7/bushel, sob o impacto de uma retração de área e quebra de produção nos EUA. No Brasil, os preços tentaram seguir o quadro mundial, também com preços altos, mas não recordes, relacionados à expectativa de clima com a safrinha e com o fluxo de exportações.

Inicialmente, deve-se refletir que o primeiro semestre de 2008 foi ótimo para a comercialização do milho. A safra de verão não apresentou problemas de clima e, portanto, houve produção satisfatória. Safra normal com preço acima de qualquer expectativa somou-se no sentido de oferecer uma ótima rentabilidade ao produtor de milho neste ano, até o momento. No primeiro semestre, os preços internos mantiveram-se, em boa parte do período, acima da paridade de exportação, como uma estratégia de defesa do abastecimento interno.

No mês de junho, registraram-se os melhores preços do ano, praticamente, com patamares de até R$ 28 no interior do Paraná, diante das perdas pelas geadas e pela forte alta na Bolsa de Chicago decorrente das enchentes no Meio-Oeste americano. Esse quadro refletiu-se em preços, em toda a região Centro- Sul. Se essa situação se prolongasse por agosto e setembro, possivelmente o impacto no perfil de plantio da safra 2008/2009 seria extremamente positivo e neutralizaria alguns efeitos negativos advindos dos custos de produção.

A safrinha estará tendo pico de colheita em agosto e de comercialização em setembro e outubro. É muito provável que esta pressão de venda interna se nivele à paridade de exportação até novembro, pelo menos, de forma a fazer frente à meta de vendas do ano. O mercado interno, por movimento de retenção dos produtores, poderá até se manter acima da paridade de exportação, em pleno pico de colheita da safrinha, mas a redução do fluxo de exportações ameaçará a formação dos preços internos no final do ano.

A safra 2008/2009 brasileira é plantada com foco de retração na área plantada na safra de verão. Vários fatores têm influenciado esse perfil mais negativo, entre eles, o fato da área ter se expandido razoavelmente no verão e na safrinha 2007/08, a alta do adubo, a visão sobre o mercado de soja para 2009 e a relação de desembolso de plantio. Essa é a conclusão do primeiro levantamento de Intenção de Plantio realizado por Safras & Mercado, em julho.

Por esse motivo, a linha de plantio deste ano segue apontando para uma retração de 5,1% na safra de verão no Centro-Sul e um potencial de ampliação de área de 3,1% na safrinha 2009. A área total deverá ceder 1,5% ficando em 13,5 milhões de hectares. Em princípio, o potencial de produção nivela-se a 2007/08, em 55,5 milhões de toneladas. Na safra passada, a área foi de 12,6 milhões de hectares, e a produção ficou em torno de 50 milhões de toneladas. Os principais fatores que determinaram o comportamento do mercado e definiram o tamanho da safra passada foram as altas de preços internacionais e o fluxo elevado de exportações.

Deverá haver uma retração de 5,1% na safra de verão no Centro-Sul e um potencial de ampliação de área de 3,1% na safrinha 2009

O item clima chama a atenção para esta safra de verão em função de uma transição do fenômeno La Niña para um período sem qualquer sintoma deste ou do El Niño. Um semestre sem evento pré-definido reflete um movimento de clima incerto para a safra da América do Sul. O ano deve continuar especulativo interna e externamente. Espera-se o número real de quebras na safra dos Estados Unidos e o tamanho final da safrinha brasileira. A partir daí, haverá uma tendência de maior solidez para os preços ou não, e o fator fundamental é o fluxo de exportações do Brasil ao longo das próximas semanas.

Safrinha cresce — A expectativa inicial é de uma nova elevação de área plantada para 2009 na safrinha brasileira em 3,1%, com a área se aproximando dos 5 milhões de hectares. O potencial de produção seria de 19,2 milhões de toneladas, o que compensaria parte da retração de área e produção no verão 2008/09. O plantio da safrinha 2009 poderá alcançar volumes maiores, dependendo exclusivamente do desempenho da comercialização e das exportações brasileiras ao longo deste segundo semestre de 2008. Exportações elevadas podem ajudar a focar um plantio de safrinha superior a essa primeira expectativa. Um mercado fraco e acomodado para o final do ano pode influenciar negativamente o plantio, além de toda a expectativa em termos de mercado internacional para 2009, o que não deixa de ser um indicador relevante para o próximo ano.

Os fatores que deverão definir o mercado daqui para frente serão o tamanho da safra dos Estados Unidos, o fluxo de exportações brasileiro, o câmbio, o petróleo e a demanda mundial. O perfil de preços internos entre agosto e novembro continua condicionado a uma recuperação externa e a um maior fluxo de negócios na exportação.

Os indicadores de suporte para os preços de algumas commodities perderam força no mercado mundial, mesmo que isso se reflita apenas em um prazo não muito longo. Inicialmente, as principais economias trabalham fortemente no sentido de controlar o principal preço da energia, ou seja, o petróleo. Até mesmo acordos com o Irã já são mencionados no sentido de que este amplie a sua oferta de petróleo na economia mundial e evite maiores preços ao longo do ano. O petróleo chegou a atingir US$ 147/barril neste mês de US$ 125 por barril. Somente esse indicador já é naturalmente suficiente para desmontar alguns suportes nos preços de algumas commodities, inclusive o milho.

Exportações também em alta — De qualquer forma, em 2007, o plantio do milho foi bastante influenciado positivamente por um quadro de exportações fortes, ao longo do segundo semestre, juntamente com a alta de preços e efetivação de contratos para entrega futura na safra 2008. Se isso ocorrer ao longo do segundo semestre de 2008, vai ser possível ainda dispor de alguma reversão do quadro de plantio, principalmente na Região Sul e em Mato Grosso do Sul, onde a área plantada deverá perder maior percentual em relação ao ano passado. Será difícil ainda um acréscimo acentuado nos resultados pela introdução da tecnologia transgênica no plantio da safra brasileira, em função do baixo volume de sementes ofertadas no mercado brasileiro.

Porém, essa tecnologia estará mais disponível para a safrinha 2009 e com híbridos já condicionados ao perfil de plantio no país. Portanto, o maior crescimento em área plantada com organismos geneticamente modificados (OGMs) ocorrerá na safrinha 2009 e no verão 2008/ 2009. A safrinha 2009, por sua vez, tem, inicialmente, uma boa expectativa. As últimas duas safrinhas foram ótimas em termos de produção e comercialização. Mesmo as perdas por geadas em 2008 podem ser consideradas fatores normais diante do risco deste tipo de plantio.

Agora, o mercado terá que ficar atento aos relatórios do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) nos próximos meses até os níveis de demanda, já que esta continua sólida, e preços mais baixos a fomentam. Para o Brasil, o momento desses acontecimentos não poderia ser pior. Em julho, o país tinha compradores no porto a US$ 300 por tonelada FOB. O volume de negócios foi discreto, mesmo com a safrinha do Mato Grosso garantida em termos de produção. O Brasil vendeu pouco na alta e, por esse motivo, tem embarques ainda discretos para o segundo semestre ainda. Com julho fechando um embarque no ano em 3 milhões de toneladas, avalia-se que as vendas no segundo semestre asseguram, até agora, um embarque no ano entre 4 milhões e 5 milhões de toneladas, no máximo. Em outras palavras, o Brasil precisa aproveitar os movimentos de alta para escoar o excedente de milho disponível.

Agora, com a baixa nos preços na Bolsa de Chicago, o preço de exportação nivelou-se em US$ 240/250 por tonelada FOB. Esse preço é ainda elevado e bom para os negócios de exportação, em dólar. O problema é que, com mais uma alta nas taxas de juros, o Brasil registra a maior valorização do real desde 1999 – R$ 1,57/dólar (julho/2008). Preços em baixa no mercado externo com câmbio em valorização contínua afetam o preço no porto. Dessa forma, os preços na exportação cederam para R$ 23/24 a saca no transferido no porto, e os negócios pequenos que ocorreram apenas atendem complementação de embarques.

Uma exportação com bom avanço nos próximos dias pode indicar que o Brasil poderá atingir a meta de 10 milhões de toneladas exportadas neste ano e provocará algum enxugamento de ofertas para o final deste período. Para promover esta situação, o mercado interno terá que convergir para a paridade de exportação, hoje entre R$ 23/24 no porto.

É importante frisar que o Mato Grosso dispõe de mais de 7 milhões de toneladas para venda, que o Paraná detém 5 milhões de toneladas referente à safrinha, mesmo com as perdas pelas geadas e que, até julho, o Governo não tinha oferecido um modelo mais acentuado de compra de estoques, de forma a promover algum enxugamento interno de oferta. A pressão pela compra de insumos para o plantio da safra de verão e o baixo preço de exportação manterão o mercado interno buscando uma paridade de exportação, e isso se concentrará entre agosto e novembro. Somente uma reviravolta no mercado internacional, no câmbio e um forte fluxo de exportações podem alterar essa concepção no curto prazo.

Em junho registraram-se os melhores preços do ano, com patamares de até R$ 28 a saca no interior do Paraná