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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

SOJA

APESAR DOS CUSTOS, ÁREA AUMENTA

O incremento de lavouras deverá ser de 2,1%. Os preços estão bons, a lucratividade aumentou, há mais crédito oficial e a expectativa do mercado é manter-se aquecido em 2009

Principal commodity brasileira, a soja deverá manter a trajetória de expansão na área a ser plantada em 2008/2009, retomada na safra passada. Basicamente, o impulso ao cultivo da oleaginosa na próxima temporada é a boa comercialização da safra 2007/ 2008, garantida por preços recordes no mercado internacional. Além disso, o aperto na relação entre oferta e demanda mundial, mesmo que se confirmem safras cheias no Brasil, na Argentina e nos Estados Unidos, são um indicativo positivo. O problema, no entanto, é a elevação nos custos de produção e a escassez de crédito privado, que deverão limitar o incremento na área.

“A tendência é de que tenhamos novo incremento na área no Brasil. A grande motivação para esta nova temporada viria da forte valorização das cotações no mercado externo e doméstico. Entretanto, o levantamento mostrou também que nem tudo são flores no caminho de recuperação da sojicultura nacional. Apesar de algum predomínio no sentimento de estímulo, foram observados também alguns importantes fatores de limitação a esse crescimento, o que aumenta a incerteza nessa definição de área e tende pelo menos a limitar fortemente a amplitude da expansão dessa nova semeadura.” A avaliação é do analista de Safras & Mercado Flávio França Júnior, responsável pelo levantamento de intenção de plantio da empresa, divulgado no final de julho.

Neste caso, os destaques entre esses indicadores de limitação são o significativo aumento nos custos de produção, notadamente dos fertilizantes, e a forte restrição na oferta de recursos oferecida para financiamento do custeio, que tende a limitar o cultivo nos Estados mais dependentes desse tipo de crédito, como são os casos do Centro-Oeste e do Nordeste. “Em cima desse pensamento é que não se percebe espaço para crescimento do cultivo em áreas de abertura (novas). O aumento da soja acontece em cima de outras culturas, como algodão, milho e em cima de áreas de pastagens. No algodão, em função da combinação de preços menos atrativos e custos de produção mais elevados. No milho, também por conta de impacto mais nocivo da alta nos custos dos fertilizantes. E nas pastagens, em função da política de melhor aproveitamento de áreas e avanço do confinamento”, explica.

Área maior em 2% — A área a ser semeada com soja no Brasil na safra 2008/2009 deve ficar entre um intervalo de 21,085 milhões a 22,425 milhões de hectares, com média ficando em 21,755 milhões de hectares. Esse total representaria um acréscimo de 2,1% sobre os 21,298 milhões de hectares cultivados nesta última safra. Embora com novo avanço, o segundo consecutivo, ainda ficaria bem aquém do recorde de 23,284 milhões de hectares anotado na safra 2004/2005 e também abaixo dos 22,156 milhões de hectares da safra 2005/2006. Na safra 2007/ 2008, a intenção de plantio realizada por Safras & Mercado ficou em 21,305 milhões de hectares, apenas 0,03% superior à área efetivamente plantada. Isso significa um acerto de praticamente 100% com cinco meses de antecedência em relação à finalização do cultivo. Em 2006/2007 a intenção de plantio ficou também bastante ajustada, considerando que os 20,465 milhões de hectares do relatório de julho de 2006 ficaram apenas 1,4% abaixo dos 20,758 milhões de hectares da área semeada.

Com esse resultado da safra atual, a diferença média entre a área plantada e o levantamento de intenção de plantio de Safras nos últimos dez anos fica em 3,9%. Se levarmos em conta a estimativa de evolução estatística de produtividade que está em 2.859 quilos/hectare, chegaríamos a um potencial inicial para a safra brasileira de 62,191 milhões de toneladas, um novo recorde para o país e superando o anterior obtido na safra atual de 60,658 milhões de toneladas, em 2,5%. Para resultados ainda melhores temos que considerar a colaboração do clima, que este ano deve ter a interferência mais benéfica do fenômeno El Niño.

De acordo com o levantamento, foi identificada tendência de crescimento em praticamente todos os Estados produtores, de forma até certo ponto proporcional, na medida em que não se percebeu a expectativa de que a área dispare em nenhuma das regiões produtoras. A maior taxa de avanço aparece na região Nordeste com 5,1% a mais de área, um pouco em áreas de milho e algodão e algumas áreas novas em cima de projetos de grupos econômicos, inclusive estrangeiros. Em seguida aparece desta vez o Sudeste, com 4,3% de aumento, com avanço ocorrendo em áreas de milho, reforma de canaviais e pastagens. No Centro-Oeste o aumento médio detectado foi de apenas 2,6%, com avanços proporcionais de 2,3% em Goiás, 2,7% no Mato Grosso e 2,8% no Mato Grosso do Sul. A soja neste caso deve ter avanços sobre áreas de algodão e de pastagens. No Norte o aumento sugerido foi de 2,0% e no Sul de apenas 0,7%. Neste caso teríamos quase estabilidade no Rio Grande do Sul, com incremento de apenas 0,5%, e no Paraná, de 0,8%. Basicamente em algumas transferências de milho e áreas de pastagens.

Fatores de estímulo — Esse sentimento predominante de alguma elevação de área foi definido pelo maior peso percebido dos fatores positivos sobre os fatores negativos junto aos produtores. Na seqüência os principais fatores de estímulo:

(a) Preços domésticos bem melhores em 2008. Da média brasileira, de janeiro a junho, de R$ 44,21/saca de 60 quilos, há avanço de 34% sobre a média de R$ 32,99 observada durante todo o ano de 2007. Se forem comparados os dois semestres, a valorização é superior a 50%. Considerando o novo recuo da taxa de câmbio e também de menores prêmios de exportação, essa valorização esteve totalmente ligada ao avanço dos preços no mercado de futuros da Bolsa de Mercadorias de Chicago (Cbot, na sigla em inglês). Essa valorização em Chicago entre a média do primeiro semestre, de US$ 13,57/bushel, e a média de 2007, de US$ 8,63, está em 57%. Este suporte está ligado à combinação de enxugamento dos estoques finais mundiais e especialmente nos EUA, da expectativa de manutenção desse aperto para 2009 e da pesada ancoragem de capital financeiroespeculativo nas commodities agrícolas;

(b) Produtividade média novamente recorde em 2007/2008. O país experimentou o segundo ano consecutivo de bom desempenho na produtividade, combinando clima regular e melhor controle sobre a ferrugem asiática. Em números revisados o rendimento médio da safra atual fechou em 2.849 quilos/ hectare, 1% superior aos 2.818 quilos da safra anterior;

(c) Lucratividade positiva. Em termos médios, a temporada vai caminhando para bons resultados de lucratividade bruta na soja brasileira, combinando preços mais altos e boa produtividade. O desempenho só não foi melhor porque houve aumento no custo de produção e uma parte importante da safra (cerca de 25%) foi comprometida prematuramente pelos produtores a preços mais baixos e não pegou a maior parte da valorização expressiva ocorrida no final do ano. De todo modo os ganhos médios desta safra estão parcialmente avaliados em 48% no Paraná, 39% no Mato Grosso e 40% no Rio Grande do Sul;

(d) Aumento na oferta de crédito oficial. O Plano Safra 2008/2009 apontou o aumento na disponibilidade de recursos do crédito oficial em 12%, passando de R$ 58 bilhões para R$ 65 bilhões. Além disso, aumentou a oferta de crédito com juros controlados pelo Governo, que subiram de 77% para 83% do total do crédito para custeio e comercialização. Também aumentou o limite de financiamento de R$ 300 mil para R$ 400 mil por beneficiário;

(e) Firme interesse consumidor. Safras trabalha com o cenário de continuidade de firme crescimento nos números de consumo, considerando o fato de que apesar do menor ritmo, a economia mundial tende a crescer ainda algo próximo a 3,5% em 2008 e 2009. Portanto, com expansão na demanda para alimentos, notadamente no setor de carnes, e na demanda por bioenergia;

(f) Provável avanço da transgenia. Em tempos de elevação dos custos, nada mais natural que esperar pelo aumento na utilização de soja modificada geneticamente, principalmente com a oferta de sementes certificadas adaptadas para todas as regiões de produção. Inicialmente Safras trabalha com o percentual de transgenia subindo dos atuais 57% para 60/62% na nova safra;

(g) Expectativa sólida para o mercado em 2009. A tendência é de que o mercado se mantenha aquecido em 2009, proporcionando preços médios remuneradores aos produtores. O quão interessantes esses preços serão dependerá da definição da safra dos EUA, do encaminhamento da safra na América do Sul e da evolução da economia mundial, particularmente em relação aos rumos do capital financeiro internacional.

Crédito difícil — Os produtores de soja de Mato Grosso não estão conseguindo se beneficiar dos bons preços praticados no mercado internacional em 2008. A comercialização antecipada da safra 2008/2009 está praticamente parada. “O mercado está bem parado. Sem dúvida, em termos de negócios antecipados, este é o pior momento dos últimos anos”, constata o presidente da Associação dos Produtores de Soja do Estado de Mato Grosso (Aprosoja/MT), Glauber Silveira. De acordo com ele, apenas 5% da próxima safra foi negociada com antecedência, além de um pequeno percentual envolvendo a troca por fertilizantes. “As tradings estão inseguras, sem crédito para fazer margens. Por isso evitam travar preços futuros. Não estão marcando presença no mercado”, lamenta o dirigente.

Os produtores de soja de Mato Grosso não estão conseguindo se beneficiar dos bons preços praticados no mercado internacional

As empresas são as principais fontes de financiamento da produção. No ano passado, por exemplo, 90% dos recursos que chegaram às mãos dos produtores para custeio da safra tiveram como origem o setor privado. As grandes empresas normalmente vendiam o insumo para o produtor e emprestavam recursos para pagamento durante a colheita e comercialização da safra. Neste ano, no entanto, esta prática está prejudicada pela falta de dinheiro disponível. “Se a trading não financiar, o produtor encontra muita dificuldade em pagar pelo fertilizante. Ainda mais com o atual custo”, reforça.

A Aprosoja calcula que os sojicultores do Estado enfrentarão a falta de R$ 4 bilhões para arcar com o custeio da safra 2008/09. “É uma situação difícil. Não sabemos muito bem de onde retirar este dinheiro. O resultado deverá ser menores investimentos na aplicação de fertilizantes”, projeta Silveira. Como conseqüência deste cenário de crédito difícil, a área a ser cultivada em 2008/2009 não deverá ser ampliada no Mato Grosso, mesmo com o bom momento de preços no mercado internacional. “Se houver, o aumento deverá ser muito pequeno e resultado da migração de áreas do algodão para a soja”, prevê o presidente, que acredita ser inviável a abertura de novas áreas para a soja. “Se crescer, será uma expansão de no máximo 3%”, assegura.

Com menor utilização de adubo, a produção mato-grossense não deverá crescer na próxima temporada, mesmo que a área aumente. Segundo Silveira, com o custo de produção tão elevado, o produtor não terá condições de investir em tecnologia, comprometendo o rendimento das lavouras.

Fatores de desestímulo — Apesar de todos esses indicativos, o relatório mostrou produtores apenas levemente estimulados à soja. A questão é que existem também alguns fortes fatores de desestímulo a este novo cultivo, como os seguintes:

(a) Taxa de câmbio outra vez em queda. Entre janeiro e junho de 2008 a taxa média de câmbio ficou em R$ 1,6954, com queda de 13% sobre o R$ 1,9446 da média do ano anterior. Se o comparativo for em relação ao primeiro semestre, essa queda chega a 17%. Outra vez a pressão vem ligada ao grande fluxo de entrada de divisas no país, sendo o quarto ano seguido em que o produtor brasileiro comercializa a safra com uma taxa de câmbio menor que a praticada na época do plantio;

(b) Endividamento segue elevado. Apesar da melhor renda do setor com a comercialização deste ano e da repactuação acertada com o Governo, os produtores ainda detêm pesados débitos pendentes das safras 2005/2006 a 2003/2004;

(c) Aumento nos custos de produção. Embora ainda com planilhas em fase de montagem, é certo que este novo plantio será feito com custos maiores de produção. Comentam-se aumentos totais de 20% a 30%, mais acentuadamente na área de insumos, notadamente nos fertilizantes, cuja alta sobre as já elevadas bases do ano passado estão ficando acima dos 100%;

(d) Presença da ferrugem asiática. A incômoda presença da ferrugem asiática em todas as regiões de produção é outro problema, pela elevação nos custos e limitação no potencial produtivo;

(e) Menor oferta de crédito privado. Outro importante limitador nesta nova safra está no escasseamento dos recursos privados para o financiamento do custeio. Em função das limitações financeiras dos produtores do Brasil- Central existe ainda uma grande dependência desse tipo de crédito para a viabilização do plantio, que chega a 40% do total da necessidade no Mato Grosso do Sul e em Goiás e a 80/90% no Mato Grosso. Esse corte está ligado a novos problemas de inadimplência nas entregas da safra 2007/2008 e, especialmente, ao escasseamento do crédito bancário internacional pela crise financeira e às grandes necessidades de recursos para margeamento dos contratos futuros na Cbot;

(f) Resultados financeiros limitados na região de expansão. Os resultados financeiros da comercialização desta safra serão bem mais modestos na região do Brasil-Central, especialmente pelo grande volume de antecipações da comercialização. Por isso não se percebe espaço para maiores movimentos de abertura de novas áreas de cultivo;

(g) Limitações ambientais. Por último, a limitação de crescimento da área imposta pelo aumento do controle oficial e privado sobre a questão ambiental, particularmente na região da Amazônia Legal;

Negócios antecipados em ritmo lento — A comercialização da soja se arrasta em Goiás, mesmo com os bons preços. “Há pouca soja disponível e todo o volume dentro dos armazéns das indústrias, com preço a fixar. As vendas antecipadas estão quase zeradas”, explica o analista de mercado da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), Pedro Arantes. Boa parte do financiamento do custeio da safra goiana é feita pelo setor privado. “As indústrias financiam cerca de 40%. Outros 20% têm como origem recursos públicos e o restante o produtor vai bancando da forma que pode”, indica Arantes. E as indústrias têm adotado uma postura muito cautelosa, o que trava as negociações antecipadas. “Os compradores estão esperando para ver o que vai acontecer com a safra americana”, aponta.

O economista não acredita que a área plantada em 2008/2009 cresça em Goiás. “Os custos estão muito elevados. Investir em adubação em área novas é prejuízo na certa”, calcula Arantes. A dor de cabeça dos produtores locais é mesmo a elevação dos preços dos fertilizantes e do glifosato. Para pagar uma tonelada de fertilizante, o produtor teria que vender entre 42 e 45 sacas de soja no momento, relação de custo recorde. A média histórica se situa entre 23 e 25 sacas e o maior patamar registrado era de cerca de 35 sacas para uma tonelada.

Estoques outra vez menores — Considerando esse posicionamento referencial para a nova safra, a montagem do quadro de oferta & demanda do complexo soja brasileiro aponta tendência de novo enxugamento dos estoques. Os destaques são os seguintes:

Na soja, processamento avançando 6% para atingir 35 milhões de toneladas, para atender a firme demanda interna e externa por farelo e óleo. Potencial de exportação caindo 4%, passando a 25 milhões de toneladas pelo aumento limitado da oferta. Estoques finais caindo de 1,048 milhão de toneladas para 639 mil toneladas, ou 39%;

No farelo, consumo interno crescendo 5% para alcançar 12,8 milhões de toneladas, buscando atender o crescimento do setor de carnes. E potencial de exportação subindo 7% até 14,250 milhões de toneladas, como resultado do incremento do esmagamento e da boa demanda internacional. Com isso, estoques previstos estáveis em 862 mil toneladas;

No óleo, consumo doméstico crescendo 4% para atingir 4,65 milhões de toneladas, seguindo a forte expansão da demanda para alimentação e para produção de biodiesel. Em 2008 a estimativa é de utilização com esse fim de 800 mil a 900 mil toneladas de óleo de soja. Para 2009, essa destinação subiria a 1 milhão de toneladas. Em cima disso, o potencial de exportação ficaria estabilizado em 2 milhões de toneladas.

Cautela — A postura cautelosa de produtores e das tradings está prejudicando a comercialização antecipada de soja no Mato Grosso do Sul. “Está complicado. A situação é bem diferente da apresentada em anos anteriores”, resume o vicepresidente da Federação de Agricultura e Pecuária do Estado do Mato Grosso do Sul (Famasul), Eduardo Riedel. Na avaliação preliminar de Riedel, os negócios antecipados não chegam a 10%, quando normalmente entrariam julho em torno de 30%, a exemplo do que ocorreu no ano passado. A retração no ritmo dos negócios é resultado de uma postura cautelosa dos dois lados. As tradings estão sendo bem mais seletivas para realizar transações. “As empresas estão criando dificuldades para acesso ao crédito, diminuindo muito o volume de negócios”, aponta o vice-presidente da Famasul. Apesar dos bons preços externos, os produtores também mostram receio em fazer negócios futuros, com a finalidade de apenas estipular hedge.

“É uma situação complicada e que traz muita preocupação. O quadro se traduz em atraso na realização de negócios em geral, principalmente na aquisição de insumos”, lamenta Riedel. “A relação de troca de soja por fertilizante é um complicador e deixa o produtor assustado”, exemplifica, lembrando que o quadro lembra muito o de 2001/2002, quando o produtor investiu muito e não obteve o retorno desejado, resultando em dívidas que até hoje estão sendo renegociadas.

“A própria renegociação acertada com o Governo é um complicador. Nas bases em que foi estipulada, esta renegociação não ocorrerá. Só existe para quem está fora do processo”, critica. Este conjunto de fatores deverá inviabilizar um aumento de área na próxima temporada. Diante das incertezas, Riedel lamenta que o quadro de preços recordes no exterior não será aproveitado no Estado. “Com estes preços, o produtor teria tudo para avançar na área, mas está receoso. Não quer investir com margens estreitas, câmbio defasado e custos elevados”, completa. Os produtores sul-matogrossenses têm o custeio da safra financiado em 40% pelas tradings, 30% pelo crédito oficial e arca com 30% dos custos.