A Granja do Ano – 34 anos da melhor prestação de informações e serviços ao profissional do campo.

Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

PRODUTOR DE TRIGO

O trigo nossa de cada safra

A Granja do Ano — Quais foram as principais conquistas da C.Vale no último ano e quais as metas e perspectivas para os próximos 12 meses?

Alfredo Lang — Nossa grande conquista no último ano foi a ampliação do complexo avícola. Investimos R$ 240 milhões em uma nova fábrica de rações, numa desativadora de enzima de soja, numa indústria de termoprocessados de frango e na duplicação da capacidade de abate para 300 mil aves/dia. Com esse investimento, estamos permitindo que um número maior de associados diversifique atividades e amplie a renda, além de gerar tributos para as comunidades. Além disso, pretendemos criar mais 2.700 empregos diretos e terceirizados até o final de 2007.

P — Em comparação a outros tempos, qual é a representatividade do trigo dentro da C.Vale? Quais as perspectivas do cereal para os próximos anos no mesmo âmbito?

R — Já chegamos a receber o equivalente a 6% da produção brasileira de trigo na década de 80. Recebíamos mais trigo que soja. Mas com a redução da rentabilidade da cultura, o produtor perdeu parte do estímulo para plantar o trigo. Mas o trigo faz parte do sistema de produção da C.Vale porque tem uma função agronômica importante que é a rotação de culturas, ajudando no controle de plantas daninhas e deixando boa adubação para a safra de verão, além de apresentar função econômica que é a diluição dos custos da propriedade.

P — Quais são os maiores entraves para o desenvolvimento da triticultura brasileira, que deixam o País ainda tão dependente das importações?

R — Nossos maiores problemas são a ausência de uma política clara para o setor, que contemple regras mais restritivas ao ingresso de trigo importado, garantia efetiva de preços mínimos, para assegurar rentabilidade e produção mais estáveis. Também precisamos investir mais em pesquisa de cultivares e segregar (armazenar) o trigo por qualidade.

P — E na concepção da C.Vale, quais deveriam ser as ações, tanto públicas como privadas, para desobstruir essas barreiras rumo à auto-suficiência?

R — Precisamos de regras claras nos campos externo e interno. Nosso relacionamento comercial com os outros países produtores de trigo precisa ser reavaliado. O nosso produtor não pode ficar à mercê de manobras comerciais que facilitam a entrada de trigo no Brasil e derrubam os preços internos. É o que vem acontecendo com o trigo argentino. Os nossos vizinhos estão se aproveitando de uma brecha legal para vender farinha de trigo misturada com sal, pagando tarifas menores que o trigo em grão. Precisamos ter pulso firme para negociar modificações na legislação que impeçam esse tipo de operação. Além disso, temos que limitar a entrada de trigo importado nos períodos em que a nossa produção chega ao mercado, evitando quedas acentuadas nos preços. A triticultura tem um peso grande na balança comercial, na geração de tributos e empregos, e merece essa atenção. Internamente, precisamos de mecanismos que realmente garantam preços mínimos ao triticultor. O que está acontecendo, atualmente, é que os preços de mercado estão abaixo dos preços mínimos e os mecanismos oficiais não têm sido suficientes para garantir nem ao menos a remuneração mínima de R$ 24 à saca. Nem mesmo o governo está respeitando os preços mínimos, já que está leiloando trigo a R$ 350 a tonelada (R$ 21 à saca). E para agravar a situação, o baixo valor do dólar facilita ainda mais a entrada de trigo argentino. Isso desestimula os produtores a investir no trigo. A conseqüência aparece na produção. Nosso consumo é de aproximadamente 10 milhões de toneladas por ano. No ano passado produzimos 4,8 milhões de toneladas e neste ano mal deveremos alcançar 3,4 milhões, ou seja, uma redução de cerca de 30%. Então teremos que importar quase 70% da nossa necessidade de consumo. Estamos mandando dinheiro e gerando empregos na Argentina.