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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

VITIVINICULTURA

Se não fosse os impostos

Um cenário estável.Assim pode ser considerado o setor da vitivinicultura quando se fala em cadeia produtiva do vinho de mesa e suco de uva. O mesmo não pode se dizer para o caso do vinho fino. A avaliação é do pesquisador da Embrapa Uva e Vinho e coordenador do Programa de Desenvolvimento Estratégico da Vitivinicultura do Estado do Rio Grande do Sul, José Fernando da Silva Protas.

Os vinhos finos nacionais têm perdido espaços significativos no mercado interno nos últimos anos, produto em que o País ainda possui pouca expressão como exportador. “Poderíamos relacionar uma grande lista de fatores importantes que dão origem a este cenário, mas algumas são mais evidentes, como, por exemplo, a tributação que incide sobre a produção de vinho brasileiro que não encontra paralelo no mundo”, aponta o pesquisador. “Apenas para se ter uma idéia, alguns produtos da nossa cadeia vitivinícola quando chegam no consumidor já têm agregado no preço de venda cerca de 47% de impostos, enquanto que os nossos principais concorrentes, como Argentina e Chile, em média agregam 21% e 18% de impostos nos seus respectivos preços ao nível do consumidor”, completa.

As facilidades de entrada de produtos importados da Argentina e do Chile é outro fator de dificuldade para a consolidação do produto nacional. “Além de estarmos sendo um dos mercados alvo preferenciais das exportações de vinhos argentinos e chilenos, sabendo que ambos são beneficiados por políticas bilaterais, com a agravante de que este acordo estabelece que em 2011 o Chile ficará isento do imposto de importação de vinhos, ainda estamos sendo literalmente invadidos por vinhos contrabandeados, através das fronteiras dos países que formam o Mercosul, agravando ainda mais as nossas dificuldades para retomar o espaço perdido no mercado interno”, lamenta. Para melhorar esta situação, Protas acredita que, além da educação do consumidor sobre o produto nacional, parte dos problemas está relacionada com as políticas públicas que não são adequadas ou não funcionam a contento, tanto na questão da tributação, quanto ao controle e fiscalização das fronteiras para evitar o contrabando. “A estas poderíamos acrescentar muitas outras, mas não é o caso de fazermos aqui uma relação exaustiva, até porque não queremos cair na vala comum e jogar toda a responsabilidade nos governos”, recomenda ele. “Sem dúvida que o setor produtivo precisa, dentre tantas outras providências, concentrar um grande esforço em campanhas promocionais do vinho e do suco de uva brasileiro, contemplando não só a abordagem da promoção comercial, mas educando e orientando o consumidor”.

Wines from Brazil — Um dos projetos para a melhoria desta situação, conforme Protas, foi a criação do Consórcio Wines from Brazil, liderado pelo Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin), com o apoio da Apex/MDIC e do Sebrae/RS que, segundo ele, vem obtendo bons resultados. “A perspectiva que temos é a de que nos próximos meses, através de um trabalho bem direcionado, possamos ajudar ao consumidor brasileiro a reconhecer neste produto os mesmos méritos que já reconhece nos nossos vinhos espumantes, definindo como referencial para a sua opção de compra a relação custo/benefício do produto”, aposta. Enquanto a batalha para ganhar espaços no mercado de vinhos finos é travada, o mercado de vinhos de mesa e suco de uva apresenta crescimento significativo nos últimos dois anos. “Inicialmente devemos esclarecer que a vitivinicultura nacional apresenta uma estrutura atípica relativamente aos países tradicionais produtores de vinhos e derivados da uva e do vinho. Enquanto naqueles países a produção se origina de variedades de uvas européias (viti viníferas) no Brasil, em especial no Rio Grande do Sul, 80% da produção de vinho e toda a produção de suco de uva têm por base variedades americanas ou híbridas (viti labrusca), que dão origem ao vinho de mesa também chamado de vinho comum”, ressalta o pesquisador. “Apenas 20% da nossa produção é de vinho fino produzidos a partir de variedades européias. Assim, podemos dizer que a cadeia produtiva vitivinícola brasileira apresenta uma estrutura segmentada, com vinho de mesa, vinho fino e suco de uva, sendo que cada uma apresenta características próprias, que vão desde a composição varietal da matéria-prima (uva), passando pelas tecnologias agronômicas e enológicas e indo até as características, estruturas e perfis dos respectivos mercados consumidores”.

Perspectivas — As projeções para os segmentos dos vinhos de mesa e do suco de uva em função do aumento significativo da produção deste último, e considerando que ambos concorrem pela matéria-prima, poderá haver investimento na expansão e reconversão de parreirais. Isso deverá ter um impacto positivo no setor já que, com o lançamento pela Embrapa de algumas novas variedades de uvas híbridas, com maior potencial para a produção destes tipos de produtos, ambos deverão ter um ganho significativo de competitividade. “Quanto ao mercado destes produtos, no caso do vinho de mesa, se não houver problemas de quebra de safra, a perspectiva é de que se volte aos volumes de produção de 2004 e 2005, já que este ano a produção foi menor e, no início do ano, houve quem acreditasse em dificuldades de abastecimento deste mercado”, disse. “Da mesma forma, o mercado do suco de uva tem crescido significativamente, entretanto, neste caso, se houver um ajustamento na política cambial que facilite as exportações, poderemos ter neste segmento da cadeia produtiva um desempenho ainda melhor”, completa o pesquisador. Em relação às tecnologias, diversas são as novidades disponibilizadas na cadeia produtiva da uva e do vinho. Conforme o chefe geral do Centro Nacional de Pesquisa de Uva e Vinho da Embrapa, Alexandre Hoffmann, a geração de soluções tecnológicas tem ocorrido com a parceria de diversas outras instituições, brasileiras e estrangeiras, como institutos de pesquisa e universidades. “Graças a estas ações de pesquisa, foi viabilizado o registro da primeira indicação geográfica para vinhos (e também a primeira para produtos vegetais) no Brasil — a Indicação de Procedência Vale dos Vinhedos, nos municípios gaúchos de Bento Gonçalves, Garibaldi e Monte Belo do Sul”, relata. “Além de ser um fator agregador de renda e competitividade, por diferenciar os produtos oriundos de uma região delimitada na forma de um sinal adicional de qualidade”, complementa. O pesquisador afirma que o tema das indicações geográficas abre um cenário amplamente favorável para outras áreas de produção de vinhos, como já vem ocorrendo em outras regiões vitivinícolas brasileiras e também descortina uma excelente possibilidade de adoção deste conceito por outros produtos agrícolas e pecuários.