A Granja do Ano – 34 anos da melhor prestação de informações e serviços ao profissional do campo.

Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

HORTICULTURA

Expandir é preciso

Gerando uma receita anual em torno de R$ 12 bilhões, a produção brasileira de hortaliças fornece o sustento para cerca de 10 milhões de pessoas, envolvidas direta ou indiretamente na cadeia produtiva. Em 2005, a área cultivada foi de 777 mil hectares e produção total de 16 milhões de toneladas. Com uma lucratividade por hectare maior que o cultivo de grãos, a horticultura tem o desafio de explorar novas fronteiras agrícolas, como o Norte e o Nordeste do Brasil, já que a produção atual está concentrada basicamente nas regiões Sul e Sudeste.

Conforme o presidente da Associação Brasileira de Horticultura (ABH) e professor do departamento de produção vegetal da Esalq/USP Paulo César Tavares de Melo, nos últimos anos agricultores do cerrado goiano e de Minas Gerais começaram a se destacar no cultivo de diversas variedades. “Na área de São Gotardo, em Minas, existem hoje grandes produtores de alho, batata e cenoura. No cerrado goiano, o tomate industrial é a principal cultura adotada”, explica Melo. Ele salienta que 85% da produção brasileira de tomate industrial sai de Goiás. O tomate plantado na região possui um rendimento médio de 85 toneladas por hectare, superior ao registrado na Califórnia. Conforme o professor, em 2006 a matéria-prima de tomate deve atingir 1,2 milhão de toneladas, suficientes para atender a maior parte da demanda interna.

Na Bahia, Melo explica que na área da Chapada Diamantina predominam os cultivos de tomate de mesa, batata, couve e repolho. Os produtores da região contam com vantagens logísticas, uma vez que a área serve de escoadouro dos vegetais para o Norte e o Sudeste. “Eles conseguiram reduzir custos com fretes para Estados do Norte, por exemplo, devido à proximidade”, ressalta, e destaca que a região passa este ano por uma fase de agroindustrialização, para aproveitar a excelente produtividade registrada pelos agricultores.

Embora o segmento de fruticultura inclua nas estatísticas o melão, a fruta é uma hortaliça, a mais representativa nas exportações. Os melões produzidos no Rio Grande do Norte e no Ceará são vendidos em mercados como dos Estados Unidos e da Europa. “Exportamos um pouco também de tomate e berinjela, mas a produção é direcionada quase toda para consumo interno”, explica Melo.

Por razões de hostilidade climática, a Região Norte representa um desafio para o segmento da horticultura. É preciso novas experiências e investimento para aumentar a produção local. Em Rondônia, por exemplo, cerca de 80% das hortaliças consumidas são importadas de outros Estados. Como as hortaliças têm que ser transportadas de caminhão, o consumidor torna-se o principal prejudicado, pois os custos do frete são adicionados ao preço final e muitas vezes os produtos chegam às prateleiras com baixa qualidade.

Hortas Pedagógicas — A união de diversas entidades, como unidades da Embrapa e a Emater de Rondônia está desenvolvendo o projeto Hortas Pedagógicas juntos aos técnicos da extensão rural e aos produtores rurais do Estado. O projeto tem por objetivo proporcionar treinamento em olericultura para os técnicos da assistência técnica e extensão rural, que atuam nas diferentes macrorregiões de Rondônia, além dos municípios de Palmas/TO e Barreiras/BA, para que possam dar as informações necessárias sobre o cultivo de hortaliças e instalar as hortas para servirem de demonstração das tecnologias mais adequadas para o cultivo das diferentes espécies de hortaliças. Os primeiros municípios beneficiados serão Porto Velho, Ouro Preto d´Oeste, Rolim de Moura e Guajará Mirim.

Mesmo com novas fronteiras agrícolas surgindo, 75% da produção nacional de hortaliças ainda está concentrada no Sul e no Sudeste. Embora os produtores disponham de mais de 100 espécies de cultivo comercial, a batata, o tomate, a cebola, a cenoura e a melancia respondem por 55% da produção nacional. “Quando a gente pensa em milho e soja, por exemplo, falamos apenas de um segmento. No caso das hortaliças, resta ainda uma grande variedade de espécies para ser cultivada”, afirma Melo.

Apesar da expansão, uma característica que se mantém é o cultivo em áreas de menos de 10 hectares. Cerca de 60% das hortaliças plantadas são em terras de agricultura familiar, caso de Estados como Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Culturas de larga extensão, como alho e cebola, estão nas mãos de pequenos produtores. É o caso também da Serra Gaúcha, que se destaca na produção de tomate de mesa em áreas menores. O restante da produção reside em médias e grandes extensões, além de fazendas mantidas por empresas.

Melo diz que, geralmente, o cultivo é tradicional e sem sofisticação, praticado por todos os segmentos da cadeia. Entretanto, os pequenos agricultores que estão melhorando renda conseguiram isto através de cultivos como o hidropônico e o orgânico. “Estes modos de plantio têm dado bons resultados para os produtores que encontraram nichos de mercado com maior valor agregado, como de pimentões coloridos e tomates-cereja”, explica o presidente da ABH. Em São Paulo, na região sudeste do Estado, a área de cultivo protegido hoje atinge 300 hectares cobertos, expansão que surge em razão da demanda crescente.

Gilmar Paulo Henz, chefe de comunicação e negócios da Embrapa Hortaliças, afirma que o consumidor que compra o produto no supermercado nem faz idéia do grande trabalho de pesquisa e da tecnologia por trás do processo todo. O melhoramento genético feito pela Embrapa tem ocasionado bons resultados, como a adaptação de várias hortaliças para as regiões tropicais. É o caso da cenoura Brasília, no mercado há 20 anos e que ocupa atualmente 70% da área plantada de cenoura. “Antes, as variedades que eram produzidas no verão eram importadas e muito suscetíveis a doenças, o que resultava em preço elevado devido aos custos de produção”, salienta Henz.

Contudo, os especialistas são unânimes em apontar a necessidade de aumentar o consumo per capita de hortaliças. O brasileiro ingere cerca de 35 quilos por ano, muito pouco perto dos quase 200 kg/ano verificados na Europa. O problema está na melhoria da renda da população de menor poder aquisitivo. “Quando alguém vai ao supermercado e encontra o quilo do tomate e do frango praticamente iguais, prefere o frango”, alerta Melo.