A Granja do Ano – 34 anos da melhor prestação de informações e serviços ao profissional do campo.

Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

SERINGUEIRA

Boas possibilidades futuras

O Brasil, que um dia liderou o ranking da borracha natural e hoje ocupa a nona posição, começa a reavaliar suas políticas e estratégias para recuperar o mercado perdido, tanto interno como externo. Embora nenhum especialista acredite num retorno ao primeiro lugar, todos vislumbram um vasto horizonte para o setor. “Há 50 anos o País acreditou na borracha sintética. No entanto, o alto preço do petróleo e a qualidade insuficiente para atender as necessidades dos veículos pesados e velozes (acima de 120 km/h) levam o País a repensar as vantagens da borracha sintética e a revalorizar a borracha natural”, analisa Percy Putz, industrial de artefatos e produtor de borracha natural no Estado de São Paulo.

E não há dúvidas de que há muito para explorar nesse mercado, pois o Brasil ainda importa mais da metade do consumo. “Não há nenhuma possibilidade de sermos auto-suficientes nos próximos dez anos, e é difícil prever quando, pois o consumo aumenta mais rápido que a produção, visto que uma seringueira demora de 7 a 10 anos para produzir”, afirma. “O mercado da borracha é bastante convidativo, principalmente o externo, que é crescente. Hoje o consumo mundial é de um quilo por habitante, e a média dos países ricos é de mais de três quilos”, entusiasma-se Putz. “O preço, que tradicionalmente era em torno de US$ 1,00/kg, vem subindo nestes últimos dois anos, sendo hoje US$ 2,34/kg, preço médio na Bolsa de Singapura”, explica. “A China, maior consumidor mundial, produz pouca borracha. A projeção para 2010 é atingir 30% do seu consumo, o que pressupõe preços ascendentes na próxima década”.

Em nível nacional, Heiko Rossmann, coordenador do Projeto Borracha Natural Brasileira e diretor executivo da Natural Consultoria & Comunicação, argumenta que os preços elevados possibilitam a obtenção de uma renda maior, tanto para o produtor quanto para as usinas de beneficiamento. “Além disso, os preços têm estimulado a expansão da cultura e o surgimento de mais pessoas interessadas em investir na atividade heveícola. Considerando-se uma produtividade de 1.500 kg de borracha seca por hectare, no Estado de São Paulo a atividade pode gerar uma receita bruta anual da ordem de R$ 4.755 por hectare”, contabiliza o dirigente. Não faltam motivos para apostar na heveicultura, é o que afirma a pesquisadora da Embrapa Solos, Ciríaca Santana do Carmo. “A borracha é um produto estratégico para o Brasil e para o mundo. É um produto de grande impacto social, ambiental e econômico, pois gera renda o ano inteiro, se adequando a pequenos e médios produtores. Além de criar empregos diretos e indiretos, visto que possui uma cadeia produtiva fortemente demandante de mão-de-obra. E ainda tem uma vida útil de cerca de quarenta anos”, avalia.

Os obstáculos — Os principais desafios para o segmento, de acordo com Rossmann, são a carência de uma política pública de incentivo ao plantio de seringueira; falta de linhas de financiamento específicas para a cultura; e falta de integração entre os segmentos da cadeia produtiva para solucionar problemas do setor. Mas as dificuldades não param por aí. Ciríaca, da Embrapa, complementa a lista: faltam tradição e conhecimento da cultura; há problemas na produção de mudas; baixa eficiência de pesquisas, poucos pesquisadores e, no caso da Amazônia, problemas fitossanitários. O que se indaga é o seguinte: como um mercado com tão amplas possibilidades pode sofrer de tais carências? Segundo a pesquisadora da Embrapa, a falta de visão de futuro e o imediatismo de governo e iniciativa privada podem explicar o cenário, visto que se trata de uma cultura que leva cerca de cinco anos para entrar em produção.

As soluções, de acordo com os especialistas são a criação de políticas públicas de incentivo à implantação de novas áreas de cultivo de seringueira pelos governos federal, estaduais e municipais, visando o potencial de geração de empregos da atividade. Mais a criação de linhas de financiamento específicas para a heveicultura. “Existem, hoje, basicamente três linhas para plantio florestal nas quais a seringueira pode ser enquadrada – Propflora, Pronaf Florestal e FCO. O prazo de carência de oito anos é considerado insuficiente pelo tomador do recurso, uma vez que a seringueira leva cerca de dez anos para atingir a maturidade da produção, que se inicia por volta do sétimo ano após o plantio”, critica Rossmann.