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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

BOI GORDO

Preço sobe na entressafra

Depois de um primeiro semestre conturbado, em que a oferta elevada combinada com o real valorizado e a imposição de embargos por aftosa implicaram em queda de preços no setor carnes, o mercado brasileiro de boi gordo e de carne bovina começa a dar sinais de reação – estimulado pela chegada efetiva da entressafra e a conseqüente queda da oferta de animais para abate. Em São Paulo, a arroba do boi gordo fechou a primeira quinzena de julho cotada a R$ 49,80 de média para pagamento em 30 dias, no terceiro melhor preço desde o início do ano. O melhor preço ao produtor foi pago em abril, de R$ 50,14/arroba, e o segundo em fevereiro, quando a arroba foi cotada ao preço médio de R$ 49,89 em São Paulo para pagamento em 30 dias. Mesmo assim, o patamar de julho ficou bem abaixo de igual período de 2005 e de 2004, quando a arroba do boi gordo foi cotada ao preço médio de R$ 52,76 e R$ 61,14, respectivamente, no mercado paulista. As escalas de abate junto aos frigoríficos foram reduzidas e desde o início de julho se mostram irregulares entre três a cinco dias, bem abaixo da média de 10 dias em junho.

"O quadro climático aponta para uma entressafra com maior dificuldade de oferta de gado pesado e o Centro-Sul entra agora num período decisivo para a formação de preços desta entressafra", observa o analista de Safras & Mercado, Paulo Molinari. Nas suas previsões, a redução de oferta deve se concentrar em agosto, por duas razões: é o período que marca a primeira virada de mês da entressafra 2006 e em que se comemora o Dia dos Pais, quando aumenta a demanda por carne bovina, com apenas alguns lotes de gado confinado ou prolongado da safra com suplementação alimentar sujeito a surgir nos próximos dias. "Esses dois fatores se somam ao quadro climático que encolhe o volume de oferta de gado de pastagem no mercado interno. Há espaço pelo lado da oferta para que os preços encontrem um patamar melhor de preços no início de agosto, mas para isso deve haver uma retenção efetiva por parte dos pecuaristas, em particular do Mato Grosso do Sul, combinada com uma elevação

dos preços da carne bovina no atacado", diz Molinari.

Expectativa de recuperação no atacado — A questão a ser colocada a partir de agora, na opinião dele, é o fôlego do atacado para equilibrar os preços da carne bovina com os níveis a serem praticados no boi. Sazonalmente o atacado tende a acompanhar os preços do boi na entressafra, quando estão em alta, e a expectativa é que em 2006 não seja diferente. O analista lembra que nos dois últimos anos praticamente não houve entressafra, com o clima favorável no inverno mantendo boa oferta de gado, até mesmo de pastagem, mas mesmo assim os preços subiram razoavelmente em relação à safra. Em 2006, o quadro de clima é completamente diferente, e há chances de uma baixa oferta em agosto/setembro, o que na sua avaliação abre espaço natural para alta de preço nos cortes de traseiro.

A preocupação passa a ser o dianteiro, cuja sazonalidade de preços tem oscilação menor em relação aos cortes de traseiro, mas que apresenta uma rota normal de preços mais baixos na safra com altas na entressafra. Em 2004 e 2005, os cortes dianteiros partiram de um fundo de poço de R$ 2,60/2,70 na safra para R$ 2,85 a R$ 3,00 na entressafra. Em 2005, as restrições ao Brasil com a aftosa no Mato Grosso do Sul e Paraná derrubaram os preços no final do ano da faixa de R$ 3,00 em outubro para R$ 2,40 em dezembro. Desde então, o mercado interno não conseguiu recuperar margens nos cortes de dianteiro. No primeiro semestre os preços do dianteiro oscilaram bastante em função da oferta de carne suína e de frango, atingindo R$ 2,25 de mínima. Nesse início de segundo semestre, o preço atingiu R$ 2,50 no atacado paulista (preço de 27 de julho) e a expectativa é de que possa encontrar suporte para um repique até outubro, principalmente na primeira quinzena de agosto.

Carne industrializada é destaque — O embargo imposto ao Brasil por 59 países diante da confirmação de aftosa no Mato Grosso do Sul em outubro de 2005, e depois no Paraná, gerou um quadro novo para o fluxo de embarque, mas não afetou as exportações de carne bovina. O Mato Grosso do Sul embarcou 20,6 mil toneladas de carne em equivalente carcaça no primeiro semestre, volume 78,7% abaixo de igual período de 2005, de 96,8 mil toneladas, com perda de receita próxima de US$ 200 milhões. Já São Paulo, apresentou queda de exportações de 17% no semestre, com 529 mil toneladas embarcadas contra 638 mil toneladas dos seis primeiros meses de 2005.

A modificação de eixo exportador se deve ao fato de que os frigoríficos têm expandido suas atividades para o Centro-Oeste, e diante desta atitude as perdas de exportação do Brasil puderam ser amenizadas com embarque maior em outros Estados com pouca ou nenhuma restrição de exportação, explica o analista de Safras. Minas Gerais, por exemplo, registrou expansão de 117,7% nos embarques, com quase 31 mil toneladas acima de 2005 em igual período. Goiás teve crescimento de 106,9% e o Mato Grosso ampliou vendas em 96%, com expansão de 53 mil toneladas.

Dados consolidados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) para as vendas externas de janeiro a junho vão confirmando as expectativas para 2006 de desempenho acima do ano passado. Durante o período, as vendas de carne bovina na exportação totalizaram 1,06 milhão de toneladas, em equivalente carcaça, 3,9% acima do resultado do mesmo período de 2005, de 1,02 milhão de toneladas. "Um resultado é bastante satisfatório e confirma a tendência de um crescimento ainda presente em 2006, mas em ritmo naturalmente menor em relação aos últimos três anos", avalia o analista de Safras. Para ele, o destaque do período foi o de crescimento nas vendas de carne industrializada. A receita cambial com as exportações de carne bovina do semestre atingiu US$ 1,67 bilhão, expansão de 17,5% em relação à igual período de 2005, quando as vendas totalizaram US$ 1,42 bilhão.

A expansão de receita no período foi atribuída a elevação dos preços médios em dólar na exportação, mas outros fatores influenciaram na alta de preços. Entre os quais, a valorização do real, forçando os exportadores a subir preços em dólar de forma a compensar margens nas vendas externas, a demanda mundial ainda forte, a dificuldade de forte crescimento compensatório nas vendas do Uruguai, o auto-embargo argentino que favoreceu as vendas brasileiras no semestre e a baixa no preço do boi no mercado interno, compatibilizando preços de exportação com custos internos.

Os cortes de dianteiro partiram de uma média de US$ 1.800/1.900/tonelada FOB em 2004/2005 para US$ 2.000/2.200 no primeiro semestre de 2006. A alta expressiva ocorreu nos cortes de traseiro da ordem de US$ 3.300/3.500 por tonelada FOB para US$ 6.000/6.300 em maio e junho de 2006. "Coincidentemente, esta alta passou a ocorrer de forma mais acentuada a partir do segundo semestre de 2005, no período das confirmações dos casos de febre aftosa no Mato Grosso do Sul e Paraná. Na avaliação do mercado, a retração de ofertas do Brasil em alguns mercados provocou altas no mercado internacional, o que acabou se refletindo nas vendas brasileiras nos Estados que não foram atingidos pelos embargos", diz o analista.

Rússia e Europa preocupam — Mesmo com os bons resultados, o mercado brasileiro continua preocupado com a reabertura de mercado russo e europeu. No primeiro semestre desse ano a Rússia adquiriu 150,7 mil toneladas de carne bovina, em equivalente carcaça, volume 8,6% inferior ao de 164,5 mil toneladas de igual período de 2005. Já o Reino Unido, principal comprador brasileiro na Europa, não chegou a reduzir as compras. As exportações para este destino se mantiveram em 116 mil toneladas, em equivalente carcaça no semestre, praticamente o mesmo volume de 2005 no período.

O analista de Safras, no entanto, destaca que uma das grandes perdas na exportação por restrições sanitárias, até agora sem maior preocupação por parte do governo e exportadores é o Chile. "O embargo chileno realmente funcionou na prática e com efeitos totalmente negativos para as vendas brasileiras. No primeiro semestre de 2005, o Chile adquiriu perto de 61,5 mil toneladas de carne bovina brasileira quando em 2006 as compras se aproximam de zero", comenta Molinari. De acordo com ele, esta perda de mais de 60 mil toneladas trouxe impacto negativo para o mercado brasileiro e forçou o Chile a reabrir mercados como o Uruguai, onde já adquiriu perto de 32 mil toneladas no semestre, a metade do volume que deveria ter adquirido do Brasil. O Uruguai tem sido beneficiado pelo quadro de restrições sanitárias impostas nos últimos anos ao Brasil e Argentina por parte de alguns países importadores além de absorver parte da demanda de exportação não atendida pela Argentina nos últimos meses. No primeiro semestre desse ano as exportações uruguaias de carne bovina totalizaram 278,7 mil toneladas, um incremento de 20,2% se comparadas ao volume de 231,9 mil toneladas de igual período de 2005.