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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

CITRICULTURA

Produtores e indústria em desacerto

A indústria nacional de suco de laranja deverá processar entre 310 milhões e 320 milhões de caixas de 40,8 kg das 450 milhões de caixas que o parque citrícola promete produzir na safra 2006/2007. O volume de suco deve atingir pouco mais de 1 milhão de toneladas, o que não deverá ser suficiente para suprir a demanda das três safras anteriores, quando a exportação da bebida concentrada e congelada ficou entre 1,35 milhão e 1,4 milhão de toneladas. O setor permanece em descompasso, com desgastantes reuniões entre produtores e industriais sobre preços e denúncias de indícios de manipulação de mercado por parte de um restrito grupo de indústrias processadoras, o que é veementemente negado pela Associação Brasileira de Exportadores de Cítricos (Abecitrus).

O cinturão citrícola paulista, onde se concentra a produção brasileira, é composto por mais de 200 milhões de pés de laranja plantados em 630 mil hectares. Produz 53% da produção mundial de suco e abastece 80% do comércio internacional desse produto. O parque citrícola, segundo a Abecitrus, emprega mais de 400 mil pessoas e gera divisas ao redor de US$ 1,5 bilhão anuais. A área plantada em todo o País é superior a 1 milhão de hectares. Somente na última década, as exportações brasileiras cresceram mais de 30%. Nos últimos cinco anos, apenas nos 520 viveiros telados do Estado de São Paulo foram investidos mais de US$ 50 milhões para a produção de mudas protegidas.

O período produtivo começou com a intensificação do processamento pelas indústrias paulistas de suco de laranja. Nas últimas semanas de junho, segundo dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da Esalq/USP, o valor médio recebido pelos produtores paulistas pela fruta entregue no portão, sem contrato, era de R$ 8,10/caixa de 40,8 quilos, uma alta de aproximadamente 12% em relação a junho de 2005.

Produtores insatisfeitos – Os produtores de laranja estão se ressentindo com a falta de preços para seus produtos. Argumentam que as práticas de cultivo e os insumos encareceram demais. Flávio Pinto Viegas, presidente da Associação Brasileira de Citricultores (Associtrus), com sede em Bebedouro/SP, diz que há cerca de quinze anos os preços estão deprimidos. “Nesse período, a indústria nos repassou, sem nenhuma compensação, os encargos de colheita e frete da laranja”, comenta.

Além disso, segundo ele, os agricultores são obrigados a conviver com graves doenças das plantas, como o amarelinho, o cancro cítrico, a leprose e, mais recentemente, o greening. “Os custos encareceram e os preços caíram. Houve uma expulsão brutal de citricultores do setor. Eram cerca de 28 mil em 1995 e hoje sobraram cerca de 10 mil em todo o Estado de São Paulo”, exemplifica Viegas. “Nosso maior problema está nessa concentração industrial, que impõem preços muito abaixo dos custos de produção. Sem renda, a citricultura não consegue se manter”, assevera. “É uma atividade que depende de insumos, tecnologia e o citricultor descapitalizado vai perdendo renda e patrimônio”.

Recentemente, em uma das reuniões que mantiveram com representantes das indústrias, os citricultores aceitaram a proposta de um abono de US$ 1,20 para todos os contratos cujo valor da caixa de 40,8 kg tenha sido fixado em até US$ 4,30. Até o fechamento desta edição, as negociações prosseguiam. “Sempre defendemos que o produtor recebesse, pelo menos, o valor do custo de produção que, em São Paulo, é de R$ 15 por caixa, e de que o Consecitrus fosse implantado como forma de equilibrar a cadeia citrícola”, diz Viegas. Conforme ele, se as negociações não chegarem a bom termo, a atividade citrícola no centro e norte de São Paulo pode desaparecer, sendo substituída pela cana-de-açúcar.

Exportações — O volume total de suco de laranja exportado na safra 2005/2006 foi de 1.341.736 toneladas, uma queda de 4,92% em relação à safra anterior. Em compensação, o faturamento do setor subiu de US$ 1,112 bilhão da safra 2004/2005 para US$ 1,210 bilhão nesta última safra, representando um aumento de 8,8%. O balanço de exportações de suco de laranja concentrado (FCOJ, na sigla em inglês) foi divulgado no dia 19 de julho pela Abecitrus, com base em dados da Secex (Secretaria de Comércio Exterior).

No volume total de exportações houve uma queda de 18% para os países pertencentes ao Nafta (de 212,2 mil toneladas da safra anterior para 173,7 mil toneladas na atual) e de 10% para a Europa (de 978,8 mil toneladas em 2004/2005 para 872,8 mil toneladas esta safra). Já para a Ásia, houve um aumento de 15,8%. O volume exportado nessa safra para os países asiáticos foi de 172,3 mil toneladas ante 148,7 mil toneladas. As exportações de suco brasileiro também tiveram um aumento significativo em outros mercados, como o Leste Europeu e o Oriente Médio, cujo volume total cresceu 72,2%, de 71,3 mil toneladas para 122,8 mil toneladas na safra 2005/2006.

A avaliação de Ademerval Garcia, presidente da Abecitrus, é extremamente positiva mesmo com a pequena queda verificada no volume total. “O setor teve um ano muito produtivo em virtude do aumento dos preços do suco no mercado internacional. E o crescimento nas vendas representa a solidificação da presença do suco brasileiro no mercado mundial”, frisa. A queda das vendas para os países do Nafta deve-se, segundo Garcia, principalmente às taxas anti-dumping impostas pelo governo dos Estados Unidos. Em relação à Europa o presidente da Abecitrus explica que houve somente uma adequação aos estoques internacionais. “Não é uma queda de consumo e sim de exportações”, esclarece. Na Ásia a participação brasileira tem aumentado ano a ano. “A indústria nacional está conseguindo ampliar participação no mercado asiático, principalmente na China”.

Garcia afirma que a conjuntura é favorável para este ano. De acordo com ele, há um grande plantio de mudas novas (18 milhões/ano) em São Paulo, grandes investimentos industriais em logística e aprimoramento tecnológico constante. “Os mercados mundiais estão respondendo bem às ações mercadológicas brasileiras”, afirma. Como entraves, ele cita as doenças como greening, CVC, cancro-cítrico e morte súbita dos citros, “que encarecem os custos de produção e exigem condições sanitárias encontradas apenas em São Paulo, financiadas pelos produtores e pela indústria”.