A Granja do Ano – 34 anos da melhor prestação de informações e serviços ao profissional do campo.

Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

FRUTICULTURA

O poblema é o clima

Terceiro maior produtor mundial de frutas, com 39 milhões de toneladas por ano, o Brasil encontra nas diversidades climáticas o principal empecilho para gerar mais renda aos produtores. “Há dois anos registramos quebras em regiões como o Sul, castigado pelas sucessivas estiagens”, explica Moacyr Saraiva Fernandes, presidente do Instituto Brasileiro de Frutas (Ibraf). Conforme ele, o problema não é apenas quantitativo, uma vez que a qualidade das frutas também diminui em decorrência do clima descontrolado. É o caso da maçã, plantada predominantemente nas regiões de Fraiburgo/SC e Vacaria/RS. O calor tem atrapalhado a produtividade. Em 2004, saíram dos pomares cerca de um milhão de toneladas de maçã, reduzidas para 816 mil toneladas no ano passado. Para 2006, a expectativa é uma produção total de 656 mil toneladas da fruta. “Comparando com 2004, temos uma redução grande, de 35%. Contudo, o que produzimos ficou de melhor qualidade e é suficiente para abastecer o mercado interno”, explica Pierre Nicolas Peres, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Maçã (ABPM).

Com uma safra menor decorrente das questões climáticas e o câmbio desfavorável, o produtor de maçã concentra os esforços no mercado local, ao invés de exportar para países que já haviam sido conquistados, como Alemanha, Inglaterra e França. Do total de maçãs exportadas, 60% tem como destino a Europa. “As duas principais variedades produzidos no Brasil, a gala e a fuji, são as mais requisitadas pelo comprador de fora. Temos exatamente o produto que ele deseja, mas o dólar baixo desestimula a venda”, lamenta Peres. Estudos do Ibraf apontam que o ideal seria o dólar perto de R$ 2,80, na mesma linha do euro. Também há questões envolvendo barreiras fitossanitárias excessivamente rigorosas impostas por países como Estados Unidos, Japão e Coréia do Sul. “Embora a Europa se proteja através dos subsídios agrícolas, os entraves são menores, assim como no caso do Canadá”, explica Fernandes.

No geral, o País exporta cerca de 1% das frutas in natura que produz. Para fins de comparação, em meados dos anos 70, o Brasil exportava cerca de US$ 50 milhões em frutas, o mesmo que o Chile. Em duas décadas, com diminuta extensão territorial, o Chile transformou-se no maior exportador de frutas do Hemisfério Sul e num dos maiores êxitos internacionais nessa área, ultrapassando a cifra de 1,5 bilhão de dólares, enquanto o Brasil alcança apenas 440 milhões de dólares, no ano de 2005.

Legislação severa — Um bom exemplo vem do Espírito Santo. Há sete anos o Estado vem atendendo à rigorosa legislação norte-americana sobre o mamão. Conforme o Ministério da Agricultura, de setembro de 1998 a dezembro de 2005, o Estado exportou para os EUA 39,73 mil toneladas de mamão papaya que renderam US$ 33,39 milhões. Maior exportador brasileiro de mamão, o Espírito Santo comercializou no ano passado, no mercado externo, 24,9 mil toneladas que somaram US$ 20,6 milhões. Apesar de exportar pouco, a fruticultura comercial é um dos segmentos mais importantes da agricultura brasileira, sendo que parte do que é produzido não entra nas estatísticas, por uma série de peculiaridades: comercialização em pequenas fruteiras e na beira de rodovias, por exemplo, além das frutas que não são colhidas ou são perdidas durante o transporte.

Segundo o Ibraf, a base agrícola da cadeia produtiva das frutas abrange três milhões de hectares, gera 5,6 milhões de empregos diretos ou seja, 27% do total da mão-de-obra agrícola ocupada no País. Este setor demanda mão-de-obra intensiva e qualificada, fixando o homem no campo de forma única, pois permite que a família viva dentro de pequenas propriedades. É possível alcançar um faturamento bruto de R$ 1 mil a R$ 20 mil por hectare. Além disso, para cada US$ 10 mil investidos em fruticultura, geram-se três empregos diretos permanentes e dois indiretos.

Laranja e banana respondem por 60% da produção nacional. Boa parte das laranjas colhidas é transformada em suco, o que faz do Brasil o maior produtor mundial. As exportações de suco de laranja da safra 2005/06 encerraram em 1,3 milhão de toneladas, queda de 4,92% sobre o ciclo anterior, segundo a Associação Brasileira dos Exportadores de Cítricos (Abecitrus). O faturamento do setor subiu 8,8% para US$ 1,21 bilhão. Segundo a Abecitrus, houve uma queda de 18% nos embarques para os países do Nafta (EUA e México). Para os países asiáticos, os embarques subiram 15,8%.

Fernandes salienta que as frutas têm uma similaridade no mundo todo: é provavelmente um dos únicos segmentos que majoritariamente se comportam para abastecer a demanda interna dos países. Ele estima que apenas 9% da produção mundial são exportados. Devido a diferenças no poder aquisitivo, Fernandes diz que é difícil quantificar o consumo brasileiro. “Cerca de 76% dos brasileiros pertencem às classes D e E, o que torna complicado aumentar os gastos com frutas, uma vez que muitas pessoas não têm sequer necessidades básicas atendidas”, completa. Outro empecilho é aumentar o consumo interno. Aí entram dois pontos importantes como incremento na renda e reeducação alimentar. Os especialistas afirmam que o brasileiro não percebe a fruta como alimento, e sim como complemento na refeição ou sobremesa. O Ibraf realiza esforços conjuntos com pediatras, escolas e nutricionais para incentivar o consumo de frutas.