A Granja do Ano – 34 anos da melhor prestação de informações e serviços ao profissional do campo.

Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

BOVINOCULTURA DE LEITE

Mercado externo na mira

A produção nacional de leite vem apresentando importantes transformações. Com a reestruturação da cadeia e os sucessivos ganhos de produtividade, o setor tem conseguido abastecer satisfatoriamente o mercado doméstico e intensifica a abertura para o mercado externo. Mas a defasagem cambial tem reduzido a capacidade competitiva do Brasil. A supervalorização da moeda nacional em 2005 restringiu o crescimento da balança comercial de lácteos. O saldo fechou positivo no ano passado, mas inferior em relação a 2004. A perda da remuneração do produtor está diretamente ligada à variação cambial, um dos maiores entraves para a atividade. Os baixos preços pagos pelo leite estão trazendo desestímulo ao produtor.

Paulo do Carmo Martins, chefe-geral da Embrapa Gado de Leite, diz que o País passa por uma realidade nunca vivida no que tange à pecuária de leite. “A produção nacional irá superar o consumo de leite, gerando um excedente, que irá crescer a cada ano”. Segundo ele, isso significa a necessidade de ações para transformar uma crise estrutural, que se avizinha, em uma oportunidade. “O primeiro aspecto é melhorarmos substancialmente a qualidade do leite, pois os mercados tenderão a ser cada vez mais exigentes”, comenta.

Outro aspecto ressaltado por Martins que se faz imperativo é aumentar o consumo per capita de derivados lácteos do brasileiro. Esta intenção, conforme ele, não depende totalmente do setor, já que o consumo está vinculado ao crescimento da renda, uma conseqüência do comportamento da economia. “Mas há a necessidade de estimular o consumo por meio de campanhas promocionais, porque vem crescendo o mercado de produtos derivados de soja e sucos em geral, que estão assumindo a condição de substitutos dos derivados lácteos”, afirma. “Além disso, é preciso investir em defesa sanitária, o que inclui em iniciarmos um processo de rastreabilidade do leite e investirmos em pesquisa de modo mais intenso”, prossegue.

Para Martins, o principal desafio do agronegócio leite para 2007 é elevar as exportações, de forma que o excedente da produção não pressione os preços do mercado interno para baixo. O chefe da Embrapa comenta que é preciso manter um nível de rentabilidade estimuladora para o produtor, de forma a permitir que ele invista em tecnologias que melhorem continuamente a qualidade do leite. “Além disso, o produtor deve atuar com olhos voltados também para o mercado, fora da porteira. Não podemos mais repetir o fenômeno ocorrido em 2005, quando os preços ao produtor subiram muito no primeiro semestre e despencaram brutalmente no segundo”, declara Paulo Martins. Um quadro de euforia seguido de depressão, segundo ele, cria um clima de instabilidade que é ruim para o setor, já que inibe investimentos sustentáveis.

Oscilação de preços — As variações nos preços recebidos pelos produtores podem ser a derrocada para a pecuária de leite, na visão de Jorge Rubez, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Leite, a Leite Brasil. Segundo ele, não há como ter avanço se os preços forem reduzidos e os custos de produção permanecerem os mesmos. “Em conseqüência disso, começa a trabalhar no vermelho e acaba por enfrentar outros problemas, deixa de dar sal mineral, concentrado, silagem e o rebanho começa a cair em decadência”, afirma. Para ele, um dos maiores problemas, hoje, para a cadeia é a questão cambial. “Prejudica todo o agronegócio no Brasil”.

Neste ano, segundo Rubez, os preços estão melhores que em 2005 e compatíveis em relação aos gastos do produtor com insumos. “Até agora os preços estão estáveis, apresentando pequena elevação. Comparativamente ao ano passado, tivemos um aumento em torno de 15%. Para os leites B e C temos um valor médio de R$ 0,58 e R$ 0,55, respectivamente”.

O sistema agroindustrial do leite é um dos mais importantes do agronegócio nacional. O País conta com 1,5 milhão de produtores e gera 3,5 milhões de postos de trabalho somente no setor primário. O Brasil é o sexto maior produtor de leite do mundo, atrás da França, Alemanha, Rússia, Índia e Estados Unidos. Segundo a Leite Brasil, a estimativa para o ano de 2006 é de uma produção de 25 bilhões de litros. O consumo per capita de leite e derivados (queijo, manteiga e iogurte) foi de 128 litros em 2003; 130,9 em 2004; 138 em 2005, e para este ano a estimativa é de 140 litros. Calcula-se que somente 5% do rebanho nacional receba inseminação artificial, um percentual considerado baixo, mas com tendências a crescer, principalmente com a disponibilização de sêmen de touros provados.

A produção de leite nacional cresceu 11,87%, e em alguns Estados o aumento do volume produzido foi vertiginoso. Números fornecidos pela Comissão de Pecuária de Leite da Confederação Nacional da Agricultura (CNA) revelam que a produção cresceu 37% no Piauí; 38,5% no Ceará; 23% na Paraíba; 44% na Bahia; 25% em Santa Catarina; 22,4% no Rio Grande do Sul e 13% no Espírito Santo, especialmente na exploração nas pequenas propriedades. Houve também estados com decréscimo, como Roraima (-43%), Amazonas (-1%) e São Paulo, que teve sua produção diminuída em 8,3%.

Segundo dados da Embrapa Gado de Leite, até 1999 o Brasil era um dos principais importadores de leite do mundo. A partir de 2000 se iniciaram as exportações, que vem crescendo continuadamente, embora o volume importado tenha sido maior que o exportado até 2003. Somente em 2004, o setor conseguiu ser superavitário na balança comercial, fato que se repetiu em 2005, mesmo com todos os problemas gerados pela sobrevalorização da moeda nacional em relação ao dólar. “O volume das exportações é muito pequeno ainda, não ultrapassa 2% do total produzido”, declara Paulo do Carmo Martins, da Embrapa. Os principais mercados para os produtos brasileiros têm sido os países africanos, como Angola e Cabo Verde, a Ásia e países latino-americanos.

A atividade leiteira, conforme Rodrigo Sant’anna Alvim, presidente da Comissão de Pecuária de Leite da CNA, passa por uma crise desde o início do segundo semestre de 2005. “A produção aumentou 12% no ano passado, diferente dos últimos dez anos, em que crescia entre 3% e 4% ao ano. Esse aumento expressivo fez com que o setor enfrentasse um problema em que a oferta era maior do que a demanda. A cadeia amargou, a partir de junho de 2005, quedas sucessivas nos preços, até janeiro deste ano, quando houve uma pequena recuperação, sobretudo na entrada da entressafra”, afirma.

Para o presidente da Confederação Brasileira de Cooperativas de Laticínios, Vicente Nogueira, a atividade leiteira deve ter uma preocupação muito grande com o mercado doméstico, especialmente em como será aproveitado o excedente da produção que sobrevier. “É preciso que tenhamos políticas públicas que racionalizem essa comercialização, que permita estocagem de excedente na época de safra, que facilite o escoamento via exportações, e por meio de acordos de equivalência sanitária”.