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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

FEIJÃO

Safra ruim para o produtor

A safra 2005/06 foi desastrosa para os produtores de feijão. Os preços chegaram ao fim da safra abaixo dos mínimos de referência estipulados pelo Governo Federal em muitas regiões produtoras. Segundo o analista de Safras & Mercado, Élcio Bento, os números de produção deste ano explicam esta queda significativa nos níveis de comercialização. A segunda safra do ano de 2005 apresentou uma produção de 984,5 mil toneladas, e neste ano a produção deve chegar a 1,3 milhão de toneladas, o que corresponde a uma elevação de 40%. Na região Sul, a diferença é mais acentuada. Em 2005/06, a produção totalizou 795 mil toneladas, montante 66% superior às 480 mil toneladas do ano anterior. Juntando-se os números das duas primeiras safras de 2005/06, haverá cerca 500 mil toneladas a mais de feijão no mercado em relação ao mesmo período de 2004/05. “Dentro desta realidade, o setor precisa pensar de forma mais ativa numa solução para dar maior garantia aos agentes deste mercado”, aconselha Bento. Os patamares de negociação variaram no primeiro semestre de 2006 entre R$ 117,00 por saca (na primeira quinzena de março) e R$ 66,00/sc (início de julho). Num período de três meses, o preço do feijão carioca apresentou uma variação de quase 50%.

A volatilidade ocorreu devido a dois fatores relacionados à produção. Existem três safras de feijão dentro de um único ano, a safra das águas (primeira safra), a safrinha (segunda safra ou safra da seca) e a safra de inverno (terceira safra). A cultura é extremamente dependente de fatores climáticos, desde o plantio até a colheita. Analisando-se a série histórica de preços, percebe-se que os únicos momentos em que os produtores conseguiram níveis mais atrativos para a comercialização são aqueles em que houve quebras de safra. Apesar da volatilidade do mercado ser determinada no lado da produção, para reduzi-la tem-se que trabalhar no lado da demanda (comercialização e consumo).

Nos últimos seis anos o feijão se destacou por ser uma das culturas onde os preços eram maiores em relação ao custo de produção, quando comparado a outras. Com isso, a produção que sempre foi realizada basicamente por pequenos produtores e sem tecnificação, passou a mudar de perfil em muitas regiões. Colheita mecanizada e lavouras irrigadas são exemplos desta mudança do perfil dos produtores de feijão. A predominância ainda é de pequenos agricultores e, por isso mesmo, essa cultura tem fundamental importância.

Neste ano de 2006, no entanto, os agricultores que apostaram nesta cultura, sofreram com a queda nos preços, que em muitas praças produtoras ficaram abaixo do mínimo de referência (R$ 47,00/saca). A média acumulada nos últimos seis anos na cotação da saca de melhor qualidade na Bolsinha de Cereais de São Paulo é de R$ 87,75 para o carioca e R$ 80,92 para o preto. No acumulado deste ano o carioca apresenta uma média de R$ 88,10 (garantida basicamente nos primeiros meses do ano, pois, em julho a saca era negociada a R$ 68,00) e o preto de R$ 69,28. O volume produzido, principalmente na segunda safra foi muito bom e a tendência é que os preços sigam recuando nos próximos meses.

Em busca de soluções — Dentro deste cenário, o setor produtivo tem se empenhado para conseguir soluções que impeçam uma queda nos preços pagos aos produtores para evitar reflexos de cunho social, entre eles o êxodo rural. A solução mais debatida é mudança do perfil da produção, deixando de ser estritamente voltada para o mercado interno e buscando ingressar no mercado internacional. Atualmente, apesar de ser o maior produtor mundial de feijão, o Brasil não é o maior exportador da leguminosa. O País perde mercado para China, Estados Unidos, Canadá e Argentina porque não produz as variedades de maior aceitação do mercado internacional. É uma questão cultural entre os agricultores que ainda têm o hábito de cultivar as variedades mais consumidas no mercado interno: carioca e preto. Mesmo focando o mercado interno, em anos de quebra de safra o País precisa importar em torno de 100 mil toneladas de feijão, principalmente preto, da Argentina e dos Estados Unidos, para atender toda a demanda interna. Por isso, existe a necessidade de se estudar uma saída que garanta preços atrativos aos produtores não apenas em anos de quebra de produção.

O Brasil tem uma área plantada de 4 milhões de hectares, que produzem 3 milhões de toneladas. O principal produtor é o Estado do Paraná, responsável por 22% do total produzido no País, com 700 mil toneladas. Abrindo o mercado externo para o feijão, essa cultura também passaria a ser uma opção para os grandes agricultores, que atualmente dão preferência para as commodities. Isso ocorre devido a grande volatilidade dos preços, determinados por três safras e tendo como único comprador o mercado interno. A produção de feijão é possível com baixos custos de produção, se utilizadas tecnologia e variedades adequadas para a região. Apesar dos prejuízos colhidos em 2005/06, os produtores brasileiros de feijão deverão cultivar 1,311 milhão de hectares na primeira safra da temporada 2006/07, com aumento de 1,2% sobre o ano passado, quando o plantio ocupou 1,296 milhão de hectares. A projeção faz parte do levantamento de intenção de plantio Safras & Mercado.

Élcio Bento, responsável pelo levantamento, aponta clima e preço como os principais fatores determinantes na decisão dos agricultores. “Em relação aos preços, os patamares pouco atrativos não são uma realidade só do feijão. Esta cultura também tem um ciclo curto e, em regiões em que é plantada entre agosto e setembro, possibilita que em dezembro se plante soja ou milho, podendo ainda plantar uma terceira safra (trigo)”, explica, acrescentando que o feijão não compete diretamente com as outras culturas em termos de área e é uma opção para os grandes produtores, que acabam plantando pelo menos em parte de suas propriedades. Por outro lado, a safra anterior foi muito boa em termos de produção e os preços estão próximos do referencial mínimo de R$ 47,00 por saca. Considerando-se todos os Estados produtores, a tendência é que haja incremento na produção apenas no Paraná e em Goiás. Nos demais Estados, a área deve ficar muito próxima da passada.