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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

CAFÉ

Expectativa de bons preços

O ano de 2006 vai sendo marcado por uma grande esperança dos produtores de recuperação nos preços do café. Até agosto, essa reação não veio, mas a postura do cafeicultor é de esperar por esse período de altas para a commodity. Por enquanto, pode-se dizer que o momento não é dos melhores em termos de cotação ao produtor, mas não dá pra reclamar, como salienta o analista de Safras & Mercado, Gil Barabach. Ele lembra que há alguns anos a situação era muito pior. Basta lembrar que hoje a cotação está próxima de US$ 1,00 por libra, o que sempre foi um ponto almejado pelo produtor. O dólar sem dúvida alguma é um vilão permanente nos últimos tempos. A moeda americana próxima de R$ 2,00 reduziu bastante os preços em reais no Brasil.

O novo milênio começou com crise na cafeicultura, quando o excesso de oferta levou os preços a patamares muito baixos, pouco acima de 40 centavos de dólar por libra-peso em Nova Iorque, entre o final de 2001 e a primeira metade de 2002. A safra recorde colhida mundialmente em 2002/03, quando a produção chegou a 127 milhões de sacas, explica essa forte pressão sobre as cotações. Desde então, houve alguns ajustes produtivos e muitos problemas climáticos, e a oferta global de café caiu, permitindo uma gradual recuperação dos preços internacionais. Além disso, o consumo da bebida cresceu ligeiramente acima da média histórica, principalmente com incremento das compras de países emergentes, como os do leste da Europa.

A safra brasileira 2005/2006 quebrou diante da falta de tratos culturais e de problemas climáticos. Isso determinou um recuo na produção, que até já era esperado devido ao ciclo bianual do café — um ano é de safra cheia e outro de safra menor devido à carga da produção nas árvores. E essa queda na produção brasileira derrubou a safra mundial, já que o Brasil é o maior produtor e exportador do mundo com uma fatia em torno de 30% a 40% da produção mundial. Esse cenário favoreceu a disparada das cotações, com café em Nova Iorque chegando a ser negociado acima de 136,5 centavos de dólar por libra-peso, no começo de 2005, o maior patamar desde 1998, quando o mundo ainda se recuperava da última grande geada de 1994 sobre os cafezais brasileiros, que trouxe grandes prejuízos às safras seguintes do País.

Trajetória negativa — Nesse começo de 2006, os preços ameaçaram novo avanço, baseado na maior escassez da oferta na entressafra. Porém, o mercado não repetiu a performance do ano passado, e o que é pior, a partir de fevereiro iniciou uma trajetória negativa, que segue até agora. As perspectivas de uma safra maior no Brasil esse ano explica a retração nos preços. Espera-se um quadro de equilíbrio à ligeira sobra de produto, como avalia Barabach.

As perdas nas cotações se intensificaram nos últimos meses diante do avanço da colheita e da situação climática tranqüila, sem riscos de geadas no inverno brasileiro. O preço do café na bolsa nova-iorquina voltou a romper para baixo a linha de US$ 1,0, sendo negociado em torno de 95 centavos de dólar, devendo testar, se o clima continuar colaborando, a linha dos 90 centavos de dólar. No ano passado, o café chegou a ser negociado a 86 centavos de dólar por libra-peso, pressionado pela chegada da safra e principalmente pelas boas floradas acontecidas em setembro, o que anunciou uma safra grande para 2006. Enfim, apesar da situação já ter ficado pior, está longe do imaginado ideal. Por conta disso o vendedor se encolheu. Ao contrário de anos anteriores, o produtor está mais capitalizado. Além disso, o acesso ao crédito de comercialização e colheita ficou mais fácil. Isso ajuda na montagem de estratégias comerciais, onde se tenta fugir desse período ruim, diante de uma perspectiva de médio e longo prazo mais animadora.

Com agosto avançando, a questão “mercado de clima” no inverno perde força diante do menor risco de geadas. A safra nova ganha um peso maior, o que contribui com a queda dos preços. Mas o foco deverá mudar, com um outro “mercado de clima” ganhando visibilidade. Só que agora baseado nas chuvas e seu efeito sobre as floradas que resultarão na safra a ser colhida em 2007. Aí é bom lembrar da estiagem dos últimos meses e o seu efeito sobre estas floradas. Caso as chuvas, necessárias para induzir as floradas, atrasem ou caiam em volume insuficiente, o resultado da safra fica comprometido, lembrando que 2007 é um ano de carga baixa. E em muitas regiões já se fala que a falta de chuvas dos últimos meses comprometeu irremediavelmente uma parte da produção futura. Enfim, é outro momento de tensão, pois pode atenuar essa tendência negativa dos meses passados ou até revertê-la.

Basta, para isso, que alguma coisa errada aconteça. O equilíbrio entre oferta e demanda mundial de café é muito sutil. Não existe sobra de produto, com os estoques mundiais em níveis muito baixos.

Sem reserva e diante de uma safra brasileira menor no ano que vem (devido ao ciclo bianual), pode-se imaginar uma situação de maior aperto na oferta, o que favorece a recuperação dos preços ao longo da temporada. Agora, se a safra brasileira tiver algum tipo de problema, o desequilíbrio fica mais evidente e os reflexos mais intensos sobre as cotações, podendo haver saltos mais bruscos nos preços. Em resumo, o mercado apóia-se em um equilíbrio efêmero, onde um simples deslize pode ter efeitos drásticos sobre o comportamento dos preços. Essa análise pauta-se, principalmente, no comportamento da produção do Brasil.

Normalmente a safra mundial acompanha as oscilações da safra brasileira, justificando essa premissa. E é diante de todo esse aperto na oferta e possibilidade de recuperação nos preços que se baseia a esperança do produtor de café. Usualmente, os produtores esperam sempre uma reação nas cotações, mas não seria errado dizer que os cafeicultores estão com maiores argumentos hoje para crer numa reação neste mercado que está equilibrado numa corda bamba.