A Granja do Ano – 34 anos da melhor prestação de informações e serviços ao profissional do campo.

Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

AÇÚCAR E ÁLCOOL

Euforia total

Poucas vezes a longa história do agronegócio sucroalcooleiro brasileiro comportou tamanho entusiasmo como na atual safra. Ao contrário do que se imaginava para uma entrada de safra de cana-de-açúcar, os preços de açúcar subiram. A oferta de produto novo, diante do avanço da moagem da safra 2006/07, não fez frente à volúpia compradora, especialmente externa. Na verdade, os preços internacionais do açúcar seguem extremamente atrativos. Após atingir o patamar mais alto em 25 anos, aproximando-se dos 20,00 centavos de dólar por libra-peso em Nova Iorque, o primeiro contrato de açúcar acabou recuando no final do primeiro semestre de 2006. Pesadas ordens de vendas não permitiram que esse importante patamar fosse furado, dando início ao desmanche técnico, marcado por fortes realizações de lucro e liquidação de posições vendidas. Em meio a deslizes e a cautela reinante, o mercado acabou rompendo a linha de 15 centavos de dólar por libra-peso em Nova Iorque.

Quando se esperava uma acomodação, com mercado mantendo uma ligeira inclinação negativa, o açúcar bruto voltou a mostrar força e subiu, não dando a mínima para a chegada da safra brasileira. Além do aperto na oferta global, mesmo com a chegada do produto do Brasil, um fator novo de sustentação foi o crescente interesse dos Estados Unidos pelo álcool. A concorrência pela matéria-prima cana aumentou entre os subprodutos açúcar e álcool. Os preços do álcool subiram acentuadamente no mercado internacional e começaram a fazer sombra sobre o açúcar, particularmente no Brasil, que é a bola da vez no mercado mundial. Essa conjuntura deu sustentação aos preços internacionais do açúcar.

Este quadro externo se refletiu internamente. As usinas vêm trabalhando de forma casada as suas opções, montando estratégias valorizadoras. No caso do açúcar é inegável a vocação exportadora do Brasil, ainda mais com o preço externo muito acima da média histórica. E isso vem servindo de suporte aos preços internos. As indústrias alimentícias, nesse sentido, vêm sendo obrigadas a elevar suas indicações, a fim de atrair oferta para o mercado interno, haja vista o olhar ambicioso do usineiro cada vez que olha para as telas das bolsas internacionais. O açúcar tipo cristal no mercado paulista fechou o primeiro semestre com preço em torno de R$ 49,70 a saca de 50 quilos, já com 7% de ICMS em Ribeirão Preto, interior de São Paulo. Em moeda estrangeira, a saca de 50 quilos de açúcar cristal alcançou US$ 22,10 o que significa uma valorização de 103,69% sobre igual período do ano passado, quando ficou em US$ 10,85 por 50 quilos.

Gil Barabach, analista de Safras & Mercados, avalia que o mercado de açúcar deve seguir firme. “Externamente a relativa carência de produto garante preços sustentados”, explica. No final do ano, começa a entrar a oferta de outras origens, o que aumenta a concorrência e deve ter um efeito negativo sobre as cotações. Ainda assim, este é um ano de transição, que não comporta tantas folgas. Um exemplo é a Índia, que finalmente voltará a produzir o volume que conseguia antes de amargurar uma forte quebra. Esse aumento na oferta será utilizado a princípio para recompor estoques. “Enfim, a temporada tende a ser ainda de ajustes, o que garante preços remunerados, bem acima da média histórica. Porém, à medida que a produção avance e que haja uma recomposição dos estoques os preços tendem a acentuar a trajetória declinante convergindo gradativamente para as linhas de média histórica”, pondera o analista. Para ele, essas linhas só devem ser ameaçadas quando o mundo voltar a gerar excedentes consideráveis, talvez para o final de 2007 ou somente em 2008.

Valorização do álcool — O mercado de álcool também apresentou uma boa valorização no primeiro semestre, encontrando suporte nos altos preços do açúcar e, principalmente, no forte interesse dos Estados Unidos pelo combustível. Conforme observa Barabach, os mercados energéticos estão cada vez mais amarrados. A alta do petróleo puxa os índices de commodities, que dá sustentação ao preço de açúcar. A alta do açúcar eleva o preço de álcool, que por sua vez também interfere nos preços de açúcar. “Enfim, é um ciclo virtuoso para os preços, em mercados cada vez mais sensíveis e dominados pela atuação de fundos e especuladores”, avalia.

Em meio a essa confusão toda, os Estados Unidos vêm trocando o Metil Terc-Butil Éter (MTBE) pelo etanol. O MTBE é usado como aditivo a gasolina para aumentar o poder de combustão do combustível com baixo teor de chumbo. Os Estados Unidos, apesar de brigarem com o Brasil pelo posto de maior produtor mundial de álcool, são importadores do produto, com a necessidade externa crescendo sobremaneira nos últimos meses, o que serviu de apoio para que os preços internacionais do produto disparassem. O preço médio do álcool brasileiro em 2005 ficou em US$ 0,30 o litro no FOB exportação. Nesta parcial de 2006 já se encontra em US$ 0,40 o litro, com últimos negócios saindo em torno de US$ 0,57 a US$ 0,58 o litro.

Apesar do foco da produção do álcool ser por enquanto o mercado interno, a atratividade externa mexe profundamente com o mercado, pois estimula a exportação e ajuda a enxugar a oferta interna. Os preços encontraram força para subir, alicerçados no quadro externo e na necessidade das distribuidoras de se manterem competitivas em relação ao comprador internacional. O usineiro também reduziu sua oferta, trabalhando de forma mais compassada suas posições, o que sem dúvida contribuiu para a valorização. O álcool hidratado em São Paulo, sem o ICMS, fechou o primeiro semestre com preço médio de R$ 0,904 o litro. Em comparação a igual período do ano passado, acumulou um ganho de 26,26%. No caso do anidro o preço médio em junho ficou em R$ 1,036 o litro, valorização de 44,69% no comparativo anual. As usinas têm optado claramente pelo álcool hidratado, com a oferta e também o fluxo comercial do anidro ficando mais restrito, levando a esse descolamento.

A alta dos preços internos do álcool mexe com a lógica do mercado e pode servir para esfriar a demanda, caso essa curva acentue a sua inclinação positiva nos próximos meses. O álcool é vantajoso ainda em relação à gasolina em importantes Estados, como São Paulo, por exemplo. Mas a margem vem diminuindo, e isso interfere cada vez mais na decisão de compra do proprietário de carro flex. O mercado de álcool deve seguir firme. O quadro externo, que serviu de justificativa para subida, caso venha a ameaçar com maior veemência o abastecimento interno, pode ser tolhido, via um maior controle da Agência Nacional do Petróleo (ANP) sobre os registros de exportação de álcool. Dentro desse contexto, a subida dos preços do álcool seria limitada. O que se espera para essa temporada é uma flutuação menor no preço. Os preços não caíram nesse ano como no ano passado, e se espera também não subam tanto como subiram na entressafra anterior.

Açúcar em níveis recordes — O mercado internacional de açúcar vive um momento singular, pelas seguintes razões: menor oferta da Índia, que amargou três temporadas de produção bem abaixo do seu potencial, quebra na safra da Tailândia no ano passado, decisão da OMC contrária a União Européia e, por fim, o recrudescimento do álcool como alternativa energética. Essa soma de fatores criou uma conjuntura muito favorável ao açúcar e permitiu que os preços, mediante um forte apelo comprador de fundos e especuladores, atingissem níveis recordes, com cotação do açúcar demerara (não-refinado) na bolsa nova-iorquina sendo negociado no começo desse ano no nível mais alto em 25 anos. É verdade que os preços não conseguiram se sustentar naquele patamar do princípio de 2005. O desmanche técnico e as realizações de lucro derrubaram as cotações. E depois a própria entrada de produto novo do Brasil serviu como fator de pressão sobre as cotações. Mas apesar das perdas, que se acentuaram nas últimas semanas, as cotações seguem acima de 15 centavos de dólar por libra-peso, ou seja, bem acima da média histórica.

Enfim, a exportação continua muito remunerativa, o que justifica as usinas estarem fazendo um mix largamente açucareiro. Os dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) apontam para um volume total de açúcar embarcado no último mês de junho de 1,817 milhão de toneladas, o que corresponde a um incremento de 94% sobre as 936 mil toneladas exportadas em maio. Depois de um começo mais voltado ao álcool, o que em parte justifica o baixo volume exportado de açúcar em maio, os embarques já refletem a realidade das exportações de açúcar, dando vazão ao elevado comprometimento que deve dar o tom das exportações durante todo esse segundo semestre do ano, pelo menos. Apesar do expressivo incremento, o volume embarcado ficou 2% abaixo de igual período do ano passado. Os embarques tendem a seguir elevados, podendo em alguns meses até surpreender, visto que os preços seguem convidativos, estimulando novas posições, seja através de contratos ou mesmo em vendas no spot. A receita com a venda externa de açúcar ficou em US$ 640,5 milhões, o que corresponde a uma elevação de 69% sobre igual mês do ano passado.

No comparativo do primeiro semestre do ano, o volume caiu 21%, totalizando 6,886 milhões de toneladas, mas a receita por sua conta cresceu 24%, alcançando US$ 2,17 bilhões, calçada logicamente no aumento do preço do açúcar no mercado internacional. Essa discrepância fica ainda mais evidente ao se comparar os dois primeiros meses da temporada comercial.

Entre maio e junho o País embarcou 2,75 milhões de toneladas, revelando uma queda de 25% em relação ao ano passado. Porém, a receita nesse mesmo período cresceu 29%, totalizando US$ 965,6 milhões. A justificativa está no preço médio obtido com a venda externa do produto, que subiu 72% girando em torno de US$ 350,74 a tonelada, contra US$ 203,56 nos dois primeiros meses da temporada anterior. A tendência para a temporada é de crescimento no volume embarcado e também na arrecadação, com essa performance sustentada na boa remuneração do açúcar no mercado mundial.

Preços em alta— Os preços do açúcar e do álcool hidratado aumentaram no mercado interno brasileiro em julho. Em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, a média de preço do açúcar cristal em julho ficou em R$ 50,53 a saca de 50 quilos em julho, contra os R$ 49,70 por saca apurados em junho, alta de 1,64%. Em relação a julho de 2005, quando a saca de açúcar valia R$ 29,36 em Ribeirão Preto, a valorização é de 41,9%. Já os preços do álcool hidratado tiveram média de R$ 0,968 o litro em julho, alta de 6,6% sobre a média de junho, que era de R$ 0,904 o litro. Na comparação com julho do ano passado, (R$ 0,72/litro) a alta é de 25,6%.

No entanto, na segunda quinzena de julho, tanto os preços do açúcar como do álcool acabaram se acomodando um pouco. “No resultado fechado do mês, as cotações subiram, mas houve um arrefecimento no final de julho, já que anteriormente os preços haviam subido demais”, diz o analista Barabach. Segundo ele, a tendência para os próximos meses no setor sucroalcooleiro é de firmeza nos preços, pois as exportações de açúcar e de álcool deverão continuar expressivas.

A explicação para a desaceleração nos preços do açúcar e do álcool no final de julho está na acomodação por parte da demanda interna, e também porque os Estados Unidos reduziram um pouco o ritmo de importações de etanol brasileiro. “Enfim, os preços se acomodaram um pouco, depois de terem subido em plena safra de cana-de-açúcar”, diz Barabach. A tendência é que na próxima entressafra de cana os preços não disparem, como o que aconteceu em 2006. Os usineiros estão estocando parte do álcool produzido. Além disso, o mix de produção, que foi mais açucareiro no primeiro terço da safra 2006/07 no Centro-Sul, deverá ser mais de álcool daqui em diante. Na Bolsa de Mercadorias de Nova Iorque (NYBOT), os preços futuros do açúcar tiveram média de 16,14 centavos de dólar por libra-peso em julho, alta de 5,3% na relação com junho. Na comparação com julho do ano passado (9,60 cents/lb), a valorização é de 40,5%.